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Colunistas

Alcides Évora – Batxa

Por: Carlos Carvalho

Estava à caminho de casa, Praia, quando me disseram:

– Calo, Batxa morré. 

A notícia caiu-me como uma bomba.

– Batxa!!??

Não!! Não pode ser!! Batxa morri!!?? Não, djobi dretu!! Só pode ser fake!!

– Não!! Parsen ma noticia é di vera!! Nós Igreja k poi. Ca podi ser fake!!

– Naaaaaa, verifica dretu, exclamei!!

Pode ser tanbi otu Batxa.

– Não Calo!! Mós!!!!

Batxa, Alcides Évora, ca podi ser otu pessoa!!

Pelo caminho:

– Odja PP dja publica un notisia na pagina di IPP.

Lá, caí na real!!

Batxa morreu mesmo!!

Fui argumentando, má Batxa ca staba duenti!! Ta mandal mensagi tudu dia…ta risponden!!

Depois, reparei que há já um bom tempo que Batxa não me dava o: bom-dia, Comandante, de costume. Sim!! Há já vários dias que Batxa não reagia às minhas mensagens. 

Batxa – o amigo 

Fiz-me amigo do Batxa há já bastante tempo. 

Pela história e não só!! 

Morávamos na mesma zona, ASA; frequentávamos o mesmo ambiente, pós-laboral. 

Batxa, bon- cuzinheru, de vez em quando, preparava um excelente caldo-di-pexi e convidava todo o mundo. 

Íamos todos…a vizinhança próxima; vinham igualmente os habitués-amigos-di-petu. 

Era divertido estar com o Comandante, assim chamávamos um ao outro. Batxa sempre com estórias para contar. 

Lembro-me das brigas do Batxa com o Martins e o David, dós linguarudus, como os apelidava. Estórias bunitas…que não vou contar!!

Batxa foi jovem toda a vida!! Gostava de estar com os mais novos. Deve ter sido assim até na hora de sua morte. Não podia ser doutra forma!!  

Batxa tem história; entrou para a história da Luta de Libertação com o facto de ter participado activamente nessa epopeia. Dentre os cabo-verdianos, deve ter sido dos poucos que mais esteve perto de Cabral luta-toda, por ter trabalhado no Secretariado do Partido, em Conacri.

Batxa – guerrilheiro

Batxa entrou para as fileiras do PAIGC ainda nos primeiros anos de sessenta, mobilizado na leva dos conhecidos “Moselenses”, migrantis berdianus na Moselle.

Fez sua formação-militar na Argélia, depois em Cuba. Fez parte dos 31 cauberdianus da aventura-Desembarque em Cabo Verde, para trazer a Luta Armada às ilhas.

2 anos e poucos de formação, capacitados para o Desembarque, o mesmo foi suspenso. O resto da história leiam o JVLopes. 

O compromisso

Nos últimos tempos, tínhamos dois compromissos com o Batxa.

– Comandante, nu ten k screbi nha livro. Cusas conta txeeeeu dimas, dizia ele. 1º compromisso.

– Comandante, nu tem k fitxa mas uns dós intrivistas. 

PP fla ma kel parti só nhó k podi splica-conta. Anhó k ta staba djuntu k Omi Grandi, leia-se Cabral. 2º compromisso. 

Ah, ca nhu skesi djudanu k kel entrevista k Comandante … Omi sta só ta lolonu!! Ca cre dá entrevista. Obvio que não vos digo de quem se trata. 

Penso que agora o Comandante em honra ao Batxa…que o mobilizou…irá condescender. 

– Dexa cu mi. Ta convensel!! Prometeu Batxa.

Não deu para cumprir nenhum dos compromissos.

Batxa foi…sem nos despedirmos!!

Agora, as lagrimas me estão soltando!!

Perdi um amigo; perdemos, nós os historiadores, uma grande fonte de informação sobre boa parte da HLL, pós sua ingressão no PAIGC.

A mágoa

Das histórias da LL, Batxa guardou duas grandes mágoas.

A 1ª, Batxa o confessou várias vezes e em todas as ocasiões que se oferecia-proporcionava.

Após o assassinato, Batxa, que era um francófono-puro, o Homem-dos-affaires…que resolvia todo o expediente administrativo do Secretariado do PAIGC, com excelentes relações com alguns dirigentes da Guiné de Sékou, foi “enrolado” para servir como tradutor-interprete, aquando do apuramento dos factos pelas autoridades da República da Guiné.  

Assistindo a tudo…sabendo de tudo…pós-tudo, Batxa diz que ninguém da cúpula do Partido lhe perguntou o que é que aconteceu, o que ouviu…  

A 2ª a levou à cova. 

Batxa não entende como seus compagnons-de-lutte…com quem fez toda a formação militar (na Argélia e em Cuba) não lhe tivessem atribuído a patente de Comandante.

Sei qual o argumento dos “compagnons” (que compreendo) mas, não o trarei aqui.

Matéria para outro momento.    

Do pós-luta, Batxa também guarda uma espécie de mágoa…diria mais…indignação.

Baxta dizia:

– Quando chegamos, contávamos nos dedos das mãos o número de CLP. Oxi dja nu bira tantu k dja nen contás nu ca podi. Tudu kenha k fretxa 1 pedra…dja bira CLP. Pur issu k gossi ca ta bai ses runion!! 

E parece nunca mais Batxa foi à uma reunião dos CLP. 

Acertados os compromissos, só faltava marcarmos os dias e as horas.

HLL – CLP – PALOP

No quadro da escrita da HLL-PALOP (História da Luta de Libertação), tivemos várias horas de entrevistas com o Alcides Évora. Batxa tem história; entrou para a história da Luta de Libertação com o facto de ter participado activamente nessa epopeia. 

Dentre os cabo-verdianos, deve ter sido dos poucos que mais esteve perto de Cabral luta-toda, por ter trabalhado no Secretariado do Partido, em Conacri. Fazia de tudo no que se referia à aspectos administrativos: organizar missões, receber visitas de delegações que visitavam o PAIGC e as zonas libertadas, levar as correspondências do Partido, tratar de assuntos bancários junto aos Bancos e outras instituições, etc., etc. 

 Assim, no quadro do projecto HLL-PALOP, convidamos Alcides Évora a assistir ao 5° Seminário-Metodológico, em Bissau. 

Batxa foi o “actor principal” do Seminário, no qual participaram igualmente veteranos CLP dos outros países. Todo o mundo queria falar com o Homem que convivera quase todos os dias com Cabral; conhecia quase todos os principais dirigentes do PAIGC (Cabral, claro, Luís, Aristides, Vasco, Txico, Osvaldo, Nino, Lúcio, Bari, Bobo, Pires, Manecas, Carmen, Lucette, Amélia, etc.) com quem convivera anos a fio.

Mais. Estivera no dia do assassinato do líder e assistira à audição  dos presos na sequência do assassinato.

Um aparte.

Depois da audição dos “complotistas”, Batxa conta que o Ministro do Interior quis lhe entregar cópias das cassetes com as gravações. Recusou. Eram coisas atrozes que ouvira!! Era-seria um risco ficar com essas cassetes. Batxa, aliás, como quase todos os dirigentes do PAIGC, ignorava que Sékou entregara oficialmente as cassetes ao PAIGC.

NB: Um dia contarei a estória das cassetes.

Falar do Alcides Évora, só através de um livro, como havíamos combinado.

E para não ser longo demais, já sendo!!

Concluindo

16 passado, Alcides Évora faleceu.

Batxa foi a enterrar no dia 16. 

Não pude ir ao funeral di meu amigu.

Fiquei à espera se ouvia algum Comunicado de seu Partido na CS…um da ACOLP…NÃO OUVI!! 

Estranha forma de lidar com un “ancien-combatant”.

A actual liderança do PAICV lida mal com a história do Partido e seus anteriores protagonistas. Tenho por mim de que, se pudesse (a nova liderança), apagava na História…a História dos antigos-Combatentes e consequentemente sua contribuição decisiva para o que somos nós, hoje!!

Um povo livre e independente – Dono-de-nosso-próprio-destino!!

Haja respeito por aqueles que deram anos de suas vidas, a melhor que tinham, para a Dignidade deste Povo.

Comandante Batxa, nhu perdoas!!

Comandante, nha desculpa pa nu ca ter cunpridu nós conpromisu!!

Batxa e familiares, nhos disculpan pá ca cunpanha nhó na última morada.

Que a Terra te seja leve, como leve foi tua vida terrestre!!

O Senhor com certeza te receberá no seu mundo.

Amen!!!

18/10/26.   

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