Durante as férias escolares, multiplicam-se as ofertas de colónias de férias, muitas das quais realizam actividades como pintura, música, natação, teatro, entre outras. Especialistas e testemunhos têm mostrado que essas experiências têm um impacto profundo no bem-estar e desenvolvimento das crianças e adolescentes, pelo que deveriam fazer parte da rotina durante todo o ano.
Muitos pais optam por inscrever os filhos em colónias de férias, sobretudo nos centros urbanos. “Moro em Achada Mato e trabalho no Palmarejo Grande. Durante as férias, inscrevi o meu filho numa colónia de férias promovida por uma associação. Fico mais tranquila, sabendo que ele está acompanhado e a praticar atividades como aulas de música e desporto”, descreve uma mãe, que prefere não se identificar.
Dina Rebelo, mãe de uma menina de seis anos, conta: “Se ficar em casa, ela vai passar a maior parte do dia a ver televisão. Optei por colocá-la numa colónia de férias onde, além de brincar e conviver com outras crianças, tem frequentado aulas de natação e de música”.
A par da necessidade e das preocupações em assegurar o acompanhamento e ocupação das crianças, os estudos têm mostrado que muitas das actividades promovidas pelas colónias de férias, se forem inseridas na rotina e praticadas de forma regular ao longo do ano, podem ter um grande impacto nas crianças e adolescentes, promovendo hábitos saudáveis e contribuindo para a melhoria do desempenho académico, saúde física, emocional e social.
Habilidades com impacto académico
Muitas destas actividades podem enquadrar-se no conceito de actividades extracurriculares, que têm sido reconhecidas pelas suas potencialidades de cultivar habilidades para além do âmbito académico, na medida em que complementam e enriquecem a educação formal, proporcionando oportunidades para as crianças explorarem os seus talentos e adquirirem habilidades e competências que favorecem o sucesso pessoal e o desempenho académico.
Nos Estados Unidos, estudos realizados pelo National Center for Education Statistics (NCES) indicam que esses alunos apresentam melhores notas, mais assiduidade e maior envolvimento escolar. Uma outra pesquisa, conduzida pela Universidade do Sul da Austrália, com mais de 60 mil crianças entre os 8 e os 14 anos, concluiu que as que frequentavam aulas de música ou desporto reportavam 15 % mais otimismo e 14 % mais felicidade, além de melhor regulação emocional.
Em Cabo Verde, há famílias a testemunhar mudanças positivas. Paulo Santos reconhece o impacto que a prática do futebol teve no filho adolescente. “Além de se ter tornado mais sociável e organizado, melhorou a forma como gere o seu tempo de estudo e lazer e as notas melhoraram significativamente”, descreve.
Lauren Cardoso, de oito anos, também revelou mudanças depois de começar a frequentar aulas de piano. “Gosto muito das aulas, porque me inspiram”, descreve. A mãe confirma que, desde então, a filha está mais responsável e expressiva. “Notamos melhorias a nível da memorização, postura e autoconfiança. Além disso, ela passou a expressar melhor os seus sentimentos e a ter reações mais rápidas a estímulos intelectuais”.
O papel da arte e do desporto
Esses testemunhos revelam o impacto que o exercício de actividades culturais e desportivas podem ter. A arte, em particular, tem ganhado destaque enquanto ferramenta de desenvolvimento emocional e cognitivo, como estímulo à criatividade, expressão e compreensão do mundo.
Para a psicóloga Kika Freire, o contacto com a arte “apura o olhar para as artes do mundo, as cores e formas da natureza, os sons, as nuances, os reflexos, as luzes e sombras”. Por isso, ela “abre caminhos, regula, alivia, consola, gera produtividade e sentido”, na medida em que “é através dela que uma pessoa dá forma, informa e transforma pensamentos, emoções e, consequentemente, comportamentos”.
É neste sentido que a especialista considera que “as actividades artísticas são um motor de desenvolvimento por atuarem em diversos espaços do corpo e da mente criança, a começar pela consciência corporal, da força que usam nas mãos para pintar, amassar, moldar, colar, rasgar ou tocar. Permite a compreensão de que quando nos expressamos por meio da arte é sobre nós que falamos”.
Na sua clínica, a Cereus – Psicologia e Arte, trabalha com arteterapia e garante que esta prática permite um contacto profundo com o mundo interno da criança, funcionando como forma de expressão, regulação emocional e até prevenção de comportamentos de risco. “Um desenho nunca é só um desenho, é a criança a falar de si própria”, afirma, reiterando que a arte é “uma linguagem delicada e potente, que ultrapassa a racionalidade e que, no processo terapêutico, tem uma capacidade de imersão onde a fala não alcança, sobretudo com crianças muito novas”.
O desporto também revela um potencial transformador na vida das crianças e adolescentes. Cátia Coelho, Educadora Física e professora de karaté, reforça que “a prática regular do exercício físico melhora a saúde física e mental da criança”.
A nível físico, destaca, os exercícios físicos contribuem para “o desenvolvimento e melhoria da coordenação motora, crescimento saudável dos ossos e músculos, da força física, resistência e flexibilidade, e previnem o sedentarismo e a obesidade infantil, entre outras doenças”.
Para além dos benefícios físicos, os ganhos emocionais, sociais e cognitivos são notáveis. De acordo com a especialista, crianças mais activas tendem a apresentar menos sintomas de ansiedade e depressão, melhor memória, maior autoestima e autoconfiança.
Especificamente em relação ao karaté, Cátia Coelho acredita que uma criança que pratica a modalidade “desenvolve mais rapidamente as habilidades emocionais e sociais, pois o karaté trabalha a disciplina, o respeito pelos outros, ensina a criança a controlar as emoções e fortalece o carácter”.
A filha Rosa Coelho, actualmente com 10 anos, é praticante de karaté desde muito jovem, e partilha a sua experiência. “O karaté faz-me sentir mais forte e corajosa perante algumas situações que acontecem na escola”, diz, afirmando que fica “emocionalmente mais relaxada” e consegue “pensar melhor quando algo acontece, sem entrar em desespero”. Além disso, considera que ficou mais concentrada e extrovertida.
Equilíbrio é fundamental
Os especialistas defendem que é possível, mesmo com poucos recursos, expor as crianças à cultura e ao movimento. Ouvir música de qualidade, frequentar espetáculos gratuitos, caminhar ao ar livre ou incentivar jogos criativos em casa são alternativas viáveis. O importante, afirmam, é garantir o acesso a experiências que estimulem a criatividade, a expressão, o pensamento crítico e a socialização.
Para quem tem possibilidades financeiras de inscrever as crianças em atividades extracurriculares, os especialistas alertam para os perigos do excesso e para a necessidade de se manter um equilíbrio entre essas atividades e as demandas académicas, garantindo que não haja um excesso de compromissos, com horários demasiado preenchidos, que possam levar à fadiga, ao stress e à perda de motivação. Além disso, recomenda-se que as atividades sejam escolhidas com base nos interesses da criança e integradas de forma progressiva e moderada na sua rotina.
De qualquer forma, a adoção de políticas públicas que garantam o acesso equitativo a esse tipo de actividades pode ser uma estratégia eficaz para a formação de futuros cidadãos mais saudáveis, sensíveis e confiantes, com um amplo repertório de habilidades e conhecimentos, e preparados para os desafios da vida.
Ilda Fortes
Veja na integra na edição 939 do Jornal A Nação, de 28 de Agosto de 2025
