
Por: Aidê Carvalho*
São Miguel, Tarrafal e Santa Cruz enfrentam uma situação dramática. Caminhar por essas localidades do interior é sentir a dor do luto e o desespero estampados nos olhares dos homens e mulheres do campo. Cada conhecimento dessas perdas pesa em mim como se eu carregasse a tempestade inteira dentro do meu peito. (…) Por isso, é urgente apoiar as populações mais vulneráveis e os municípios afetados, como defendeu o Chefe de Estado.
Hoje, o “interior da minha alma” sofre diante da devastação causada pelas chuvas torrenciais que, de forma inesperada e impetuosa, varreram o Interior de Santiago em meados de novembro, deixando marcas que não se apagam facilmente. Uma vida humana perdida, casas destruídas, animais arrastados pelas enxurradas, famílias dilaceradas pela perda de seus bens e comunidades isoladas. Houve estragos consideráveis nas propriedades agrícolas, com campos verdejantes reduzidos a lama. A força da água danificou, também, infraestruturas hidráulicas e rodoviárias.
São Miguel, Tarrafal e Santa Cruz enfrentam uma situação dramática. Caminhar por essas localidades do interior é sentir a dor do luto e o desespero estampados nos olhares dos homens e mulheres do campo. Cada conhecimento dessas perdas pesa em mim como se eu carregasse a tempestade inteira dentro do meu peito.
Encontro forças para lidar com tanta tristeza, primeiro em Deus e depois nas memórias e nos afetos que me moldaram, lembrando-me de que, mesmo diante da dor, há raízes e horizontes que continuam a pulsar em nós. Falo concretamente do Tarrafal, São Miguel e Santa Cruz: o abraço que me antecedeu, a raiz firme sob meus pés e laços que moldaram a minha identidade.
O Interior da minha alma
Há lugares que simplesmente nos habitam, arrastando memórias como marés que nunca se cansam de voltar. E quando regresso ao Interior da minha alma, primeiro, encontro dois nomes entrelaçados como raízes que partilham o mesmo sopro da terra: Tarrafal e São Miguel. Na minha alma estão gravados, como se fossem ruas antigas onde ressoam passos familiares.
O Tarrafal chegou-me muito antes de eu o conhecer. Veio pela voz dos meus pais, que ali viveram durante cerca de dez anos. Cresci a ouvir histórias das pessoas de “Kodji Bitxu”, daquele mar forte mas acolhedor que parece conversar com quem o observa, do Campo de Concentração onde o grito deu lugar a silêncio, do sol que se põe devagar, como as ondas que se estendem na areia, da luz que muda lentamente, como quem não quer interromper ninguém, e da calma de Ponta de Atum que se entranha nos ossos. O Tarrafal “dos meus pais” não era apenas um sítio no mapa. Era um estado de espírito, uma espécie de ensinamento silencioso sobre resistência das suas gentes, simplicidade de “Nha Mulata” e outras pessoas de Ponta Lagoa. O Tarrafal era, na voz deles, um lugar onde o tempo tinha outro ritmo e as pessoas eram “mais humanas e mais solidárias”. Diziam também que havia mais respeito, mais amizade e mais irmandade. E isso entranhou-se em mim, mesmo antes de eu lá chegar. E quando conheci “Nha Fenga” y tudo que ouvira ficou mais cristalino. Não eram meras palavras, mas sim murmúrios da alma.
Os meus três irmãos que me antecederam nasceram no Tarrafal. Eu fui gerado ali, envolto por muito amor. Talvez por isso o Tarrafal me habite assim, como um ponto de partida e um afeto antigo que nunca deixou de pulsar em mim. As vezes penso que, mesmo sem ter nascido lá, herdei dele um pedaço de horizonte.
E depois há São Miguel, a terra onde “vi a luz do dia” e dei os meus primeiros passos. Ali tudo me chega com a nitidez das memórias que nunca se apagam: o cheiro da terra molhada quando chovia, as vozes conhecidas que enchiam as ruas, as brincadeiras na lama, o jogo de “karanbola”. São Miguel, meu torão natal, é aquela parte da alma que nos lembra quem somos, de onde viemos.
Nasci na Calheta de São Miguel, numa época em que tudo pertencia ao mesmo Município: o Concelho do Tarrafal. Não havia fronteiras administrativas a separar o que já estava unido pela vida, pelo quotidiano e pelas famílias que se cruzavam naturalmente entre montes e mar. Por isso, sempre senti que nascer em São Miguel era também nascer no Tarrafal — como duas portas diferentes que davam para o mesmo lar. Entre estes dois lugares construiu-se a minha identidade. São Miguel deu-me o primeiro mundo e Tarrafal ensinou-me que o mundo pode ser maior do que imaginamos. Mas, não se trata apenas de imaginação. Quando falo do Tarrafal, falo de caminhos reais, de casas habitadas por quem amo – onde mora o meu afeto, de memórias que não são apenas minhas, mas herdadas dos meus pais e irmãos mais velhos.
Entre a terra que me viu nascer e o mar que acolheu quem veio antes de mim, assim vivo: no meio deles, a aprender que a alma também tem geografia. Há lugares que não apenas fazem parte da nossa história, mas também, que moldam o próprio contorno da alma. São Miguel foi o meu início, mas sempre dentro do abraço maior do Tarrafal.
Santa Cruz, outro ponto de luz
Estudei o ciclo preparatório em Santa Cruz. Não é porque não havia Escola em São Miguel. Mas porque, como todos diziam, eu era o “carrapato” do meu saudoso pai. Ele trabalhava em Jaracunda como técnico agrícola e me matriculou na escola em Pedra Badejo. Todos os dias viajávamos juntos de moto até Santa Cruz. Quando o trabalho o retinha por mais tempo, a casa de Dona Minda transformava-se em meu refúgio, acolhendo-me com cuidado e calor, enquanto esperava. Foi nesse trajeto, entre a estrada e os gestos de carinho, que aprendi que lugares podem nos formar tanto quanto as pessoas que neles habitam.
E foi assim que Santa Cruz entrou na minha vida: primeiro pela escolha do meu pai, depois pelo carinho meu. Hoje, também é o interior da minha alma, um lugar que me moldou, deixando rastros de ensinamentos e uma luz suave que ainda me guia.
O pão com doce de coco de Dona Minda, em Achada Fátima, era mais do que um sabor. Era memória de criança e prova de que a ternura também se encontra nas coisas simples.
Doce passado versus presente amargo
Historicamente, Santa Cruz destacou-se pela riqueza agrícola, sobretudo pela produção de banana destinada ao mercado europeu. A agricultura, tanto de regadio como de sequeiro, sempre constituiu a principal atividade económica do município. A produção de banana era tão forte que Santa Cruz se tornou o maior centro produtor do fruto em toda a ilha de Santiago, com exportações que se prolongaram até ao início dos anos 90. Recordo-me bem: quando viajava de moto com o meu pai, João Baptista, no percurso Pedra Badejo-Calheta, fazíamos sempre uma paragem em Santa Cruz, perto de Justino Lopes, para saborear uma banana madura. Um ritual simples, mas que ainda hoje guardo como uma boa lembrança de infância e adolescência.
Hoje, porém, essas memórias contrastam dolorosamente com a realidade, entristecendo o interior da minha alma. As chuvas torrenciais deixaram um rasto de destruição. Em Cabeça d’Horta, perto de Justino Lopes, casas foram inundadas por lama, estradas e terrenos agrícolas sofreram danos severos, e várias comunidades ficaram isoladas. Todas as oito ribeiras de Santa Cruz foram afetadas, com Cumba, Ribeirão Almaço e Cabeça de Horta em situação crítica, registando enormes perdas materiais.
Quando cheguei a “Fonte Bedja”, em São Miguel, as memórias de infância também se contrastavam fortemente com o cenário atual. Ali, apanhávamos água, com um balde pendurado na corda e, quando chovia, eu, meus irmãos e amigos corríamos pelo meio das águas para apanhar cocos, papaias e outros frutos que vinham nas cheias. Hoje, o lugar, recentemente inaugurado pela Câmara Municipal e, depois, visitado pelo Presidente da República, está coberto por lama e marcas de destruição, lembrando-nos como a natureza, tão generosa, também pode ser implacável.
Neste concelho, as quatro bacias hidrográficas do município (Ribeira Principal, Ribeireta, Flamengo e Campo Grande / Calhetona) foram severamente afetadas. Monte Bode, Bacio, Varanda e Mato Dentro, ficaram isoladas devido à destruição de acessos. Segundo a edilidade, cerca de 30 habitações sofreram danos significativos, deixando mais de quatro dezenas de famílias em situação de risco, algumas das quais perderam completamente as suas casas. A agricultura também foi severamente afetada, com hortas, sistemas de rega destruídos e animais sem vida.
No Tarrafal, as chuvas ceifaram uma vida e causaram graves inundações em várias áreas, especialmente em Chã Bom e Vila Centro, afetando casas e várias infraestruturas. No setor agrícola, o Fundo de Fonton teve perdas em hortas, animais e construções hidráulicas. Outras áreas críticas incluem Ponta Lagoa, “Kodji Bitxu”, Centro da Vila, Praia de mar, entre outras localidades. Agora, o Tarrafal “dos meus pais” parece lutar para resistir.
O Impacto das Barragens
As chuvas trouxeram enormes prejuízos, deixando muitas famílias em situação difícil. No entanto, nem tudo foi negativo. Algumas barragens transbordaram, enquanto outras acumularam grande quantidade de água, garantindo reservas essenciais para os meses seguintes, o que será crucial para a agricultura e o abastecimento das comunidades. De destacar a barragem dos Flamengos que transbordou pela primeira vez. Além disso, os solos receberam nutrientes importantes, fortalecendo o crescimento das plantações e recuperando áreas que estavam mais secas. Na Ribeira de Principal, ouvi muitas vozes preocupadas, mas também agradecidas. “Se não fosse a barragem para conter a força das águas, a destruição teria sido muito maior”, disse-me um morador, enquanto olhava para o leito agora controlado e tranquilo.
O Presidente da República, José Maria Neves, visitou os municípios afetados e deixou um alerta que ecoa para além das águas: a necessidade de nos prepararmos para o futuro. Investir em infraestrutura e em medidas de prevenção não é apenas uma questão de política, mas de sobrevivência. “Temos de contar com as mudanças climáticas: ou enfrentamos secas severas ou chuvas torrenciais”, disse, lembrando-nos que o amanhã exige cuidado e planeamento hoje. Neves defendeu investimentos urgentes em infraestruturas de prevenção, como a “correção torrencial”, a construção de diques, a plantação de árvores e o reforço da resiliência de ribeiras e bacias hidrográficas, preparando assim as comunidades para enfrentar eventos extremos. A natureza impõe os seus desafios, mas cabe a nós aprender a enfrentá-los, com sabedoria, solidariedade e visão de futuro.
Hora de agir
A situação em São Miguel, Tarrafal e Santa Cruz é considerada dramática, o que levou o Governo a declarar o Estado de Calamidade. No entanto, o que vemos nas televisões ou nas redes sociais é apenas a ponta do iceberg. Por trás das manchetes, há histórias não contadas, sofrimentos silenciosos, desafios diários, como a luta para uma família levar uma panela ao lume.
Por isso, é urgente apoiar as populações mais vulneráveis e os municípios afetados, como defendeu o Chefe de Estado.
Muitas pessoas precisam não apenas de alimentos e bens materiais, mas também de apoio psicológico. Há traumas tão profundos quanto a lama e as pedras que invadiram e destruíram as suas casas. Hoje muitos vivem com medo depois das chuvas de 13 e 14 de novembro. A devastação deixou marcas profundas também na alma.
O povo cabo-verdiano é resiliente e já demonstrou inúmeras vezes que é possível se reerguer, mesmo quando tudo parece perdido. É nesse espírito que devemos continuar a agir. É hora semear a esperança, também com gestos solidários. Uma mão estendida, uma palavra de apoio ou uma contribuição é essencial para cuidarmos uns dos outros e reconstruirmos o que foi destruído pela força da natureza. A solidariedade deve ser mais forte do que qualquer dificuldade. O apoio da diáspora que sempre esteve pronta para estender a mão é fundamental. Precisamos unir forças e transformar a dor em esperança. Sei que mesmo onde a enxurrada levou tudo, brota a vontade firme e persistente de reconstruir. O meu desejo é que as minhas memórias não fiquem enterradas na lama e o que foi perdido possa florescer novamente na lembrança e na ação de cada um.
*Assessora especial do Presidente da República



