
Por: João Serra*
Cabo Verde tem enfrentado dificuldades históricas em alinhar o setor turístico com o restante tecido produtivo nacional, o que impede que o crescimento do turismo se traduza em desenvolvimento sustentável e inclusivo. O modelo predominante, marcado pela presença massiva de empreendimentos “all-inclusive” em ilhas como o Sal e a Boa Vista, gerou escala, ligações aéreas regulares e uma ocupação hoteleira constante. Contudo, o “all-inclusive”, embora tenha assegurado estabilidade e atratividade internacional, criou enclaves pouco conectados às comunidades e economias locais, perpetuando a dependência de mercados e capitais externos. O efeito multiplicador do turismo sobre a economia doméstica fica, assim, substancialmente reduzido, limitando o potencial de desenvolvimento inclusivo. Perante este diagnóstico, torna-se urgente repensar o vínculo entre turismo e economia nacional: passar da dependência para a cooperação, do enclave para a integração produtiva.
É precisamente aqui que se impõe uma mudança de paradigma. Reforçar a interação entre o turismo e a economia local não é apenas desejável – é imperativo.
A integração efetiva do turismo com a economia nacional deve assentar em três eixos estratégicos: produção, cooperação e conhecimento.
O primeiro passa por estimular a produção nacional, criando condições para que agricultores, pescadores e artesãos possam abastecer o setor turístico. É essencial investir em modernização tecnológica, certificação de qualidade e sistemas de distribuição eficientes. A agricultura sustentável, a pesca artesanal e o artesanato tradicional podem tornar-se fontes estáveis de rendimento e de afirmação identitária, se integrados em cadeias de valor turísticas. Para o efeito, é necessário estimular a agricultura, a pesca e o artesanato, tornando-os capazes de responder, em quantidade e qualidade, à procura do setor turístico. É fundamental investir em infraestruturas logísticas, certificação da qualidade e sistemas de distribuição eficientes. A modernização agrícola e pesqueira, aliada à valorização do artesanato tradicional, pode criar novas oportunidades de rendimento e também fortalecer a identidade cabo-verdiana.
O segundo eixo é o da cooperação entre o setor turístico e os pequenos empresários locais. É necessário incentivar os grandes empreendimentos turísticos a estabelecer parcerias estáveis com produtores e prestadores de serviços locais. A criação de redes de fornecedores nacionais, apoiadas por políticas públicas e incentivos fiscais, pode assegurar que uma parcela crescente da despesa turística permaneça no país. O Estado deve assumir um papel de facilitador, promovendo a cooperação entre hotéis, agências de viagens, pequenas empresas e cooperativas locais. Políticas públicas de incentivo à compra local e à concertação entre o setor privado e as comunidades são cruciais para redistribuir a riqueza gerada pelo turismo. Esta integração, para ser eficaz, deve estar apoiada num quadro regulatório que privilegie a sustentabilidade e a redistribuição justa dos benefícios.
O terceiro eixo é o do conhecimento. Investir na formação de recursos humanos é decisivo para que os cabo-verdianos possam ocupar posições qualificadas e criar os seus próprios negócios. A capacitação em hotelaria, gestão, restauração, línguas e marketing permitirá converter o turismo de fenómeno exógeno em processo endógeno de crescimento. O capital humano é, afinal, o elo que transforma oportunidades em desenvolvimento.
Do mesmo modo, o consumo de produtos e serviços locais pelos turistas deve ser promovido através de campanhas de sensibilização, informação nos pontos turísticos e incentivos à compra de produtos nacionais. Restaurantes que privilegiam a gastronomia tradicional, lojas que vendem artesanato cabo-verdiano e eventos culturais que mostram a diversidade do país podem tornar-se motores de dinamização económica e social. Mas para isso é indispensável que os produtos locais tenham qualidade, consistência e visibilidade.
Outro pilar central da transformação é a valorização do património cultural e natural. Um turismo mais diversificado – cultural, ecológico e comunitário – tem o potencial de distribuir melhor os rendimentos e de envolver diretamente as comunidades na criação e gestão dos produtos turísticos. Rotas culturais, trilhos ecológicos e festivais regionais são instrumentos de diferenciação que ampliam a experiência dos visitantes e reforçam o sentimento de pertença das populações locais. Preservar o ambiente e a autenticidade cultural não é um custo: é um investimento no futuro do turismo. Fomentar o turismo nas outras ilhas do país – que não as do Sal e da Boa Vista –, onde se concentram paisagens arrebatadoras, uma gastronomia autêntica e tradições únicas, é investir na diversificação da oferta nacional. Promover estas ilhas como destinos de excelência não só amplia a distribuição dos ganhos do turismo, como reduz a dependência do modelo de enclave costeiro.
A participação das comunidades no planeamento e gestão do turismo é condição sine qua non para um desenvolvimento equilibrado. É preciso institucionalizar mecanismos de consulta, apoiar a criação de cooperativas e assegurar benefícios diretos para as populações locais. O turismo não pode continuar a ser um enclave fechado: deve ser um processo partilhado, transparente e enraizado nas realidades das ilhas. Quando as comunidades se sentem parte integrante do setor, tornam-se também suas guardiãs e promotoras.
Um dos maiores entraves à integração económica continua a ser a mobilidade interilhas e intrailhas. A falta de transportes regulares e acessíveis compromete a circulação de bens, pessoas e ideias, limitando a coesão territorial e a expansão das oportunidades. A modernização das infraestruturas de transporte – aéreo, marítimo e rodoviário – é, por isso, um imperativo para ligar produtores e consumidores, turistas e comunidades, ilhas e oportunidades.
Por fim, nenhuma estratégia será completa sem uma visão ambiental e de longo prazo. Cabo Verde deve apostar num turismo sustentável, resiliente e atento às mudanças climáticas. A proteção das zonas costeiras, o controlo da expansão urbana desordenada e a promoção de práticas ecológicas são indispensáveis para garantir a perenidade do setor.
Reforçar a interação entre o turismo e a economia local é mais do que uma opção económica: é uma exigência ética e estratégica. Trata-se de transformar um setor com vantagens comparativas evidentes num verdadeiro motor de progresso partilhado. Isso requer visão política, coordenação institucional e envolvimento comunitário. Só assim o turismo deixará de ser um espelho de promessas e passará a refletir o país que Cabo Verde quer – e pode – ser: moderno, equilibrado e profundamente seu.
A transformação desse modelo exige uma estratégia de integração produtiva e social. O objetivo não é rejeitar o turismo, mas fazê-lo dialogar com os restantes setores da economia, de modo a multiplicar os seus efeitos positivos e reduzir as vulnerabilidades.
Praia, 29 de novembro de 2025
*Doutorado em Economia



