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Uma tarde em Hong Kong com Zé Filomeno

Por: José Vicente Lopes

As histórias envolvendo José Filomeno são inúmeras. Além da sua conhecida paixão pela música e pela política, política no amplo sentido do termo, o Zé tinha uma grande facilidade em aprender línguas. Consta que o lendário Basil Davidson, que combateu na Jugoslávia durante a Segunda Guerra Mundial, como partizan e espião inglês, na sua primeira viagem a Cabo Verde, chegou a ficar de queixo caído com a forma como o então jovem Zé Filomeno se pôs a falar com ele em croata (ou o sérvio, já não me lembro), língua que o nosso patrício terá aprendido durante um estágio de meses em jornalismo no país de Jozip Broz Tito, nos primeiros anos da independência de Cabo Verde.

Zé Filomeno

Os nossos caminhos, os meus e os do Zé Filomeno, se cruzaram quando vim à cidade da Praia, pela primeira vez, em 1981 ou 82. Eu dava os meus primeiros passos no jornalismo como correspondente do Voz di Povo em São Vicente, em vias de seguir para o curso no Brasil e o Zé em vias de abraçar a diplomacia, nos EUA. Gentilmente, o Arnaldo Andrade e o Filomeno, colegas mais-velhos no jornal, levaram-me a uma noitada em São Domingos, juntamente com outras pessoas, cujos nomes e rostos se me perderam no tempo. Foi uma noite encantadora, tendo sido essa a minha estreia nos famosos churrascos de São Domingos.

Nos voltamos a ver em 1989, nos EUA, numa missão de trabalho, eu como jornalista e ele diplomata, praticamente o braço-direito do então embaixador José Luís Fernandes. Sabendo do meu gosto pelo jazz e blues, em Washington, numa noite, o Zé levou-me a dois ou três pubs, para eu ver como era o ambiente que eu conhecia apenas do cinema. Em todos os lugares, em pouco tempo, o Zé estava à conversa com as pessoas, clientes, músicos, ostentando charme e simpatia, como só ele era capaz.

Com o seu regresso a Cabo Verde, na década de 1990, retomamos o nosso convívio. Conversar com o Zé era sempre um prazer, porque o Zé gostava de falar e sobretudo gostava de divergir, contrapor, explicar e, porque não, transmitir o que sabia, sem ser professoral. Às vezes, estávamos à conversa, passava alguém de carro, buzinava, e ele dizia-me, provocador: “Aquele já nos viu e vai espalhar que eu é que sou a tua fonte nos assuntos do MpD”, e eu, tranquilo, respondia-lhe: “Eu não tenho culpa de não escolheres melhor as tuas companhias”.

A última vez que nos vimos, ele recém-regressado de Bruxelas para assumir o MNE, vendo como estava magro, manifestei-lhe a minha preocupação. Também notei que em vez do inseparável cigarro usava agora tabaco electrónico. Diante da minha apreensão lá me deu uma aula sobre as virtudes do cigarro electrónico, porque, ao contrário do tabaco tradicional, não faz isto, não faz aquilo… Nada convencido, respondi-lhe: “Eu no teu lugar aproveitava e deixava também de fumar cigarro electrónico”.

Mas a minha melhor história com o Filomeno aconteceu em Hong Kong, era ele cônsul geral de Cabo Verde. Ao saber que eu estava em Macau, numa conferência, telefonou-me e prontificou-se a receber-me em Hong Kong, no meu regresso a Cabo Verde. Na data combinada, depois de pormos a conversa em dia, no seu gabinete de trabalho, bem modesto, por sinal, levou-me a andar pela cidade. Era quase final da tarde, tempo bom, sem chuva nem vento, um dia perfeito.

O Zé levou-me a um shopping de vários andares só de música, num dado piso era apenas jazz e afins, e eu, maravilhado. Era a primeira vez que eu entrava num tal tipo de templo, sem saber por isso o que comprar, mas com vontade de comprar tudo, sem que o dinheiro desse para isso. Conhecedor da matéria, lá me deu algumas dicas para o meu abastecimento musical, indicando-me as novidades. Mas o melhor ainda estava por vir.

Caminhando depois pelas ruas, os dois, entre várias lojinhas, calhou interessar-me por umas gravatas, um adorno que até hoje tenho dificuldade em usar, mas que entendi comprar, porque, não sendo iraniano, uma gravata é sempre uma gravata, ainda por cima de seda, comprada ao preço da China.

O Zé perguntou o preço à vendedora… Esta, começou logo por não esconder o espanto, um negro, surgido do nada, a falar com ela em chinês, de forma desenvolta…

Mais do que falar o Zé pôs-se a regatear o preço. Não querendo acreditar, a mulherzinha chamou o vizinho do lado para ver e ouvir o que ela estava a ver e a ouvir… Às tantas, quando dei por mim, tínhamos à nossa volta uma multidão de chineses, espantados e alegres, a verem a vendedeira a dar um preço e o Zé, teatral, a regatear. Às vezes, o Zé ameaçava ir-se embora, fingindo-se chateado; a senhora, não menos chateada, puxava-o de volta pelo braço, apresentando-lhe um novo preço. Os dois estiveram minutos naquilo para o gozo da multidão. No fim levei a gravata que eu queria e outras tantas que eu não queria, já não sei se por brinde ou não da vendedeira, e deixamos o local debaixo dos aplausos da multidão.

E foi esse momento, mágico e surreal, que tornou essa minha passagem por Hong Kong inesquecível, até hoje. Graças ao Zé Filomeno. 

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