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Perspectivas da economia global e de Cabo Verde em 2026

Por: João Serra*

O ano de 2026 apresenta-se envolto numa teia de incertezas económicas e políticas que condicionam tanto a evolução da economia mundial como as perspetivas de países estruturalmente vulneráveis, como Cabo Verde. A recuperação pós-pandémica aparenta ter estabilizado, mas a trajetória de crescimento permanece frágil.

 O Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta um crescimento global de 3,1%, sinalizando uma moderação face a 2024 e 2025 e evidenciando limitações estruturais persistentes nas principais economias. A inflação mundial deverá prosseguir em queda, estabilizando em torno de 3,6%, após anos de forte pressão inflacionista resultante de disrupções nas cadeias logísticas, da guerra na Ucrânia e da escalada dos preços da energia e dos alimentos. 

Contudo, o ambiente externo mantém-se tenso e instável, com múltiplos focos de risco, desde as opções de política económica do presidente norte-americano Donald Trump às tensões geopolíticas no Médio Oriente e na Ásia-Pacífico.

A retoma da presidência por Trump, em janeiro de 2025, reintroduziu uma abordagem protecionista no comércio internacional, materializada num novo pacote tarifário dirigido a praticamente todos os países, com especial incidência sobre a China e a União Europeia. 

Esta orientação ameaça o frágil equilíbrio da economia global, podendo intensificar barreiras comerciais, desorganizar cadeias de valor e penalizar economias abertas e importadoras líquidas, como a de Cabo Verde. 

A estas dinâmicas acrescem tensões geopolíticas latentes no Médio Oriente, com potenciais repercussões nos mercados energéticos, e sinais de escalada militar na Ásia-Pacífico, fatores que ampliam o sentimento de insegurança e retraem o investimento global.

No espaço europeu, a economia da Zona Euro deverá crescer cerca de 1,2%, refletindo um abrandamento sustentado por políticas monetárias prudentes e por uma procura externa relativamente estável. A inflação deverá regressar à meta dos 2% em 2026, enquanto o desemprego se manterá em níveis baixos, beneficiando de maior flexibilidade laboral e da digitalização crescente. 

Nos Estados Unidos, o crescimento rondará os 2%, mas a inflação persistente continua a ser alimentada por políticas fiscais expansionistas e por uma política monetária menos restritiva do que noutros blocos. 

Já o Reino Unido, ainda em plena adaptação ao enquadramento pós-Brexit, deverá crescer cerca de 1,4%, com a inflação a convergir lentamente para 2,3% e o desemprego a manter-se reduzido.

Este enquadramento internacional tem implicações diretas para Cabo Verde. A economia cabo-verdiana, fortemente dependente da Zona Euro – principal parceiro comercial e financeiro – e do Reino Unido, principal emissor de turistas, permanece extremamente vulnerável a choques externos. 

A quase totalidade dos bens consumidos e investidos no país é importada, pelo que qualquer desvio significativo nas condições económicas desses blocos repercute-se de forma imediata na inflação interna, na balança de pagamentos e na capacidade de crescimento. Uma valorização excessiva do euro ou uma retração no consumo europeu poderá afetar severamente as receitas do turismo e as transferências dos emigrantes. 

Uma desaceleração no Reino Unido comprometeria o fluxo de visitantes britânicos, com impacto direto nos serviços, no emprego e na arrecadação fiscal. 

A instabilidade no comércio global e o aumento de barreiras tarifárias, impulsionados pela agenda externa dos EUA, poderão igualmente pressionar os custos de importação de bens essenciais, desde combustíveis a equipamentos médicos, deteriorando os termos de troca e agravando a dependência financeira externa do arquipélago.

Apesar deste contexto, as perspetivas internas mantêm-se moderadamente positivas. Estima-se que Cabo Verde cresça entre 5,2% e 5,9% em 2025 e cerca de 4,8% a 5% em 2026, segundo projeções do FMI e do Banco Mundial. A inflação deverá permanecer controlada, próxima dos 2%, refletindo sobretudo a estabilidade dos preços internacionais. O emprego tenderá a melhorar, em particular nos setores dos serviços, turismo, construção e comércio. 

Em contrapartida, a sustentabilidade da dívida pública continua a ser uma preocupação central, agravada pelo elevado endividamento das empresas estatais e pela existência de passivos contingentes, que aumentam o risco de encargos adicionais para o Estado.

O ano de 2026 será igualmente marcado por um calendário político intenso, com eleições legislativas previstas para o primeiro semestre e presidenciais para o último trimestre. Embora Cabo Verde mantenha uma tradição de estabilidade institucional e transições pacíficas, é inevitável que o ambiente eleitoral pressione as finanças públicas. À medida que se aproximam as eleições, o Governo tem multiplicado anúncios de medidas de caráter eleitoralista e fortemente despesistas, como se a afirmação do Ministro das Finanças de que “Cabo Verde tem dinheiro que nunca mais acaba” tivesse adquirido validade, banalizando perigosamente a disciplina orçamental.

O discurso oficial que insiste em transmitir uma sensação ilusória de prosperidade ilimitada deve ser enfrentado com firmeza e espírito crítico. Cabo Verde não dispõe de “dinheiro que nunca mais acaba”; pelo contrário, enfrenta restrições severas que exigem prudência, rigor e responsabilidade. A instrumentalização das finanças públicas para fins eleitorais mina a credibilidade das instituições e compromete o futuro económico do país. É imperativo que a sociedade civil, os órgãos de fiscalização e os parceiros internacionais mantenham vigilância apertada sobre estas práticas, sob pena de hipotecar o desenvolvimento nacional às conveniências de um calendário eleitoral.

Em síntese, 2026 perfila-se como um ano de desafios significativos, mas também de oportunidades para Cabo Verde. O sucesso dependerá da capacidade de antecipar riscos, aproveitar oportunidades e implementar reformas que promovam resiliência, inclusão e sustentabilidade. A estabilidade política e a adaptação às dinâmicas internacionais serão determinantes para consolidar a trajetória de crescimento. 

O país deve reforçar a sua resiliência externa, diversificando mercados turísticos, ampliando exportações de serviços digitais e promovendo investimento privado. Paralelamente, será crucial equilibrar as contas públicas, fortalecer a inclusão social e acelerar a transição energética, reduzindo a exposição a choques climáticos e aos custos da importação energética.

Num mundo cada vez mais fragmentado e competitivo, a margem de erro é estreita. Cabo Verde tem demonstrado algum dinamismo e compromisso com a estabilidade macroeconómica, mas a consolidação dos progressos exige visão estratégica, liderança e cooperação entre todos os atores económicos e sociais. O desafio central reside em garantir que o ano eleitoral não se traduza em irresponsabilidade económica, nem comprometa a confiança que os parceiros e os mercados depositam no arquipélago.

Praia, 03 de janeiro de 2026

*Doutorado em Economia

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