PUB

Mundo

Julgamento nos EUA, após captura: Nicolás Maduro declara-se inocente e um “homem decente”

Enquanto Nicolás Maduro se declara inocente das acusações que pendem sobre si e a esposa, o mundo observa, atónito, a forma vertiginosa como a ambição expansionista norte-americana se impõe, provocando instabilidade e ondas de choque, em vários quadrantes. Depois da Venezuela, os discursos de Trump voltam-se agora para a Gronelândia e para as suas ambições sobre esta ilha administrada pela Dinamarca. Que mais falta ver nestes tempos “trumpistas” ?

A primeira sessão no tribunal de Nova Iorque, na segunda-feira, não durou mais do que 30 minutos, apenas para aspectos formais, como a identificação de Nicolás Maduro e da sua mulher, Cilia Flores, e o seu entendimento sobre as quatro acusações que recaem sobre ele.

Nesse mesmo tempo, não muito longe deste tribunal da Baixa de Manhattan, cerca de uma dúzia de países na reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU, condenavam os EUA de “crime de agressão”, enquanto o secretário-geral, António Guterres, se referia à operação americana como “uma quebra no direito internacional.”

Diante do juiz Alvin Hellerstein, Maduro, falando em espanhol, declarou ser “ainda o presidente do meu país, tendo sido ilegalmente “capturado” na sua casa de Caracas e que se considerava “um prisioneiro de guerra”.

Notícias mais recentes dizem que a acusação de que Maduro liderava um cartel de drogas “Cartel de los Soles”, uma das razões do seu sequestro, foi admitida como irreal pelo Departamento de Justiça do governo Trump. De acordo com o jornal The New York Times, o temível “Cartel de los Soles” deixou de existir para passar a ser descrito como um sistema difuso de clientelismo, corrupção e simbiose entre poder político e interesses ilícitos.

A operação efectuada pelos EUA na madrugada de 3 de Janeiro (sábado passado) desencadeou uma nova fase de turbulência geopolítica, humanitária e diplomática no hemisfério, reacendendo debates sobre o papel da América no mundo, os seus interesses energéticos e ambições territoriais — incluindo declarações provocatórias sobre a Gronelândia.

Ambições petrolíferas: a Venezuela no centro da disputa

A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo no mundo, estimadas em mais de 300 mil milhões de barris – cerca de 18 % das reservas globais conhecidas – e durante décadas objecto de interesse estratégico de potências externas devido a essa riqueza energética. O maior importador é actualmente a China, seguida dos EUA. A política da administração Trump, quer antes quer depois da intervenção militar, tem sido interpretada por analistas como fortemente orientada para garantir acesso e controlo sobre esses recursos.

No entanto, oficialmente, o governo norte-americano justificou a operação com acusações de narcotráfico e terrorismo, apontando Maduro como um “cartelista” cujo regime teria ameaçado os interesses dos EUA, ainda que provas independentes dessas alegações não tenham sido apresentadas de forma clara. Na sua primeira conferência de imprensa, do dia da operação, Trump declarou que os EUA “administrarão” a Venezuela por um período, com o intuito de conduzir uma transição “segura e criteriosa”, e anunciou que empresas petrolíferas norte-americanas assumiriam o controle e a reconstrução do sector energético venezuelano.

Nos dias seguintes, Trump afirmou que 30 a 50 milhões de barris de petróleo venezuelano seriam vendidos aos EUA, com os lucros sob o seu controle para beneficiar tanto venezuelanos quanto americanos. Um gesto que sublinha a importância estratégica do combustível fóssil para a sua política externa.

A captura de Maduro foi saudada por alguns sectores como um golpe contra um dos regimes mais autoritários da América Latina. A Venezuela enfrenta uma crise socioeconómica e política prolongada, com hiperinflação, escassez de bens básicos, violência e colapso dos serviços públicos – factores que alimentaram um êxodo humano sem precedentes. Mesmo o seu outrora aliado e apoiante brasileiro, Lula da Silva, encontra-se entre os governos que não reconheceu os resultados das últimas eleições vencidas, segundo os observadores, pela oposição.

De acordo com estimativas recentes da ACNUR e da Organização Internacional para as Migrações, quase 8 milhões de venezuelanos deixaram o país desde 2014, no que é já considerado uma das maiores crises de deslocamento forçado da América Latina moderna. A maior parte desses migrantes e refugiados está na América Latina e Caraíbas, com a Colômbia a acolher cerca de 2,8 milhões, seguida por países como Peru, Brasil, Chile e Equador.

Críticos, porém, apontam que a acção viola o direito internacional, constitui uma agressão militar e que o pretexto de narcotráfico é uma fachada para interesses económicos e geopolíticos mais amplos. Para além disso, a acção ordenada por Donald Trump revela uma estratégia mais ampla dos EUA para reafirmar o poder americano no hemisfério ocidental, invocando princípios como a doutrina Monroe e rejeitando o que considera restrições à soberania e influência dos EUA

Joaquim Arena

Leia a matéria na integra na Edição 958 do Jornal A Nação de 08 de Janeiro de 2026

PUB

Adicionar um comentário

Faça o seu comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

PUB

PUB

To Top