Para esta antiga jovem quadro e porta-voz do PAICV, só na campanha para as eleições do dia 13 de Janeiro se viu como os 15 anos de poder haviam afastado o partido das populações e a verdadeira dimensão do descontentamento geral. A ocorrência de excessos e abusos, aliado ao desgaste com a governação do partido único, pediam uma mudança rápida no país. O que viria a ser confirmado nas urnas. No entanto, para além de reafirmar o contributo do PAICV para a mudança do regime, Cristina Fontes não aceita o que diz ser a diabolização de uns e a santificação de outros.
Cristina Fontes, na altura a porta-voz do PAICV durante a campanha para as primeiras eleições livres em Cabo Verde, ministra nos governos de José Maria Neves (2001-2016), fazia parte da direcção do Sector Autónomo da Praia do partido, juntamente com Georgina Melo, entre 1988 e 1989. Tinha chegado ao país vinda de Angola já depois da independência, em 1982, formada em direito em Portugal, quadro do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Deixou Cabo Verde aos nove anos e é em Angola que toma conhecimento do sistema colonial e a sua carga de exploração, onde diz ter testemunhado situações de injustiça e da falta de liberdade para estes povos. Daí, confessa, não ter vivido em Cabo Verde o período revolucionário e os “excessos” praticados pelo PAIGC na altura.
Mas, chama a atenção de que “aqueles que apareceram em 1991 como democratas não eram ‘virgens’ na altura; nestas coisas estou à vontade porque não participei nessa primeira fase, aderi politicamente e ideologicamente a uma proposta de melhoria de vida dos cabo- -verdianos”. Para encerrar esta primeira abordagem histórica, aponta o objectivo principal que foi o de lançar os fundamentos para a educação e saúde de que o país hoje beneficia.
“Eu leio hoje o livro do José Tomás Veiga, ele fez aquilo mas diz que agora arrepende-se, mas as coisas não são assim na História. Com o 13 de Janeiro temos de evitar a diabolização de uns e ver outros como anjos, que eu não aceito”. O comité do sector a que fazia parte, constituído na altura por um conjunto de quadros (Georgina Melo, Mário Matos, Inês ‘Nezi’ Brito, José Manuel Vaz, Madalena Neves, entre outros), diz Cristina Fontes, tinha uma perspectiva gramsciana intelectual-orgânico, de troca de ideias e de idas ao terreno.
“Eu acompanhava a zona de Tira-Chapéu e tínhamos exactamente a ideia do descontentamento que já existia e que estava no terreno; tentávamos passar isso à direcção do partido, e éramos muito cabralistas, no sentido do controlo do poder pelo povo, mas não havia ‘checks and balances’, havia falta do controlo do exercício do poder, o que levava a excessos. Em Tira-Chapéu havia problemas de água, mesmo se na saúde e a educação havia já coisas muito boas, e tínhamos, por exemplo, inaugurado o pavilhão Vavá Duarte. Mas entrávamos nos bairros e não havia água, havia carência. E na distribuição da água, havia filas de pessoas para o abastecimento e então chegava o comité local da JAAC, da OMCV, e passava à frente, porque era a oligarquia do bairro… Quando descobrimos isso, pusemos as mãos à cabeça, aquilo não era o programa do partido. As pessoas diziam-nos, ‘a independência não chegou aqui, há aqui desigualdades’”.
Desgaste do PAICV e um problema de poder
Recorda, igualmente, como nas eleições de 1985 que tinha havido 50% de abstenção, e não se retiraram ilações disso, por entre outras questões a resolver. Depois de fazerem um levantamento da situação da Praia, da realidade vivida pela população, reuniram-se com Pedro Pires, em 1989, e puseram-no a par disso, conta Cristina Fontes. “E lembro-me de ele nos responder, ‘talvez o problema esteja no sistema de partido único’. Ele já estaria com certeza a trabalhar nesta ideia”.
Dada a sua capacidade de comunicação, Cristina Fontes é convidada por Pedro Pires para ser a porta-voz da campanha eleitoral para as eleições marcadas para o dia 13 de Janeiro de 1991. O desgaste da população em relação à governação no PAICV é bem visível na Praia. Mas sua extensão não é compreendida pela direcção do partido.
“Há um debate célebre que fizemos na rádio, eu, o Renato Cardoso e o Carlos Veiga, creio que em 1988, na altura do III Congresso, em que os três estávamos de acordo em como havia problemas quanto aos direitos humanos marginais e que tinha que se resolver; e o Veiga diz, taxativamente: ‘não há questões dramáticas de direitos humanos em Cabo Verde’. Era essa a percepção que nós tínhamos, havia gente que abusava, gente que exagerava e o Veiga fez um bom trabalho sobre isso, mas não havia uma posição de que estava tudo mal, isso não.”
Cristina Fontes admite que, de facto, “havia um problema de poder, havia ali uma juventude que sentia que podiam fazer mais”. Em 1979, adianta, “já havia gente que falava em democracia, independentemente de haver causas por trás das motivações”. Para ela, além das críticas que então se faziam, era o momento de abrir e de dar espaço a outros.
Joaquim Arena
Leia a matéria na íntegra na Edição 958 do Jornal A Nação, de 08 de janeiro de 2026



