
Por: Júlio C. de Carvalho*
Tenho afirmado publicamente e reitero-o agora que não são apenas os detentores do grau de doutor que possuem visão, capacidade e competência para dirigir uma universidade. Esta posição foi assumida em resposta à ideia de que, para se candidatar à liderança da Universidade de Cabo Verde (UNICV), seria obrigatório possuir o grau de doutoramento e um vínculo institucional prévio.
Confesso que não compreendo as motivações destes requisitos, que resultam na exclusão automática de figuras de elevada estatura nacional, como o atual e os ex-Presidentes da República, os antigos e os atuais Primeiros-Ministros e diversos governantes. Trata-se de personalidades com comprovada experiência em liderança estratégica, gestão pública e visão de Estado que, de forma injustificável, ficam impedidas de se candidatarem à liderança universitária, num claro empobrecimento do debate e das opções de governação académica, por não possuírem o grau de doutor.
Sou académico e docente nos Estados Unidos da América, onde o grau académico ou o vínculo institucional não é, por si só, um requisito absoluto para os cargos de reitor ou presidente universitário. O que verdadeiramente pesa são a capacidade de liderança, a visão estratégica, a experiência na gestão de sistemas complexos e a credibilidade académica e institucional.
Em Cabo Verde, país de recursos humanos limitados, mas de enorme capital intelectual, há muitos quadros altamente competentes que, mesmo não sendo doutores, têm todas as condições para liderar instituições universitárias. Por isso, considero aberrante e contraproducente a adoção de critérios excessivamente restritivos, que empobrecem o leque de opções e afastam talentos nacionais e da diáspora.
Dito isto, é com satisfação que registo a candidatura do Doutor Crisanto Barros, académico, gestor e educador de reconhecida experiência, à liderança da Universidade de Cabo Verde. Entre os candidatos, é aquele que melhor conheço, não apenas do ponto de vista académico, mas também do ponto de vista humano e institucional.
O Doutor Crisanto Barros reúne, de forma inequívoca, as qualificações necessárias para dirigir a UNICV neste momento crucial da sua história. A sua trajetória académica, a experiência na liderança do Instituto Pedagógico, bem como o seu envolvimento direto no processo fundador da Universidade de Cabo Verde, conferem-lhe um conhecimento profundo da matriz original da instituição, da sua missão e dos seus desafios estruturais.
Recordo, com particular nitidez, o ano de 2005, quando integrei uma missão de uma instituição norte-americana que se reuniu com a Comissão Instaladora da UNICV. O Doutor Crisanto Barros esteve presente nesse encontro e destacou-se pela sua liderança, clareza conceptual e visão estratégica, qualidades que culminaram na assinatura de um Memorando de Entendimento entre uma instituição dos Estados Unidos e a Universidade de Cabo Verde. Esse episódio demonstra não apenas o seu domínio académico, mas também a sua capacidade de articulação internacional e de diplomacia universitária.
Infelizmente, é minha convicção que várias administrações subsequentes se afastaram da matriz original da UNICV, comprometendo, em certa medida, o seu projeto fundacional, a sua identidade e o seu potencial transformador no contexto nacional e internacional.
Por tudo isto, considero que o Doutor Crisanto Barros é a pessoa certa para liderar os destinos da Universidade de Cabo Verde, reposicioná-la estrategicamente e conduzi-la a um patamar de excelência académica, científica e institucional, ao serviço do desenvolvimento sustentável de Cabo Verde e da sua afirmação no espaço académico lusófono, africano e internacional.
A UNICV precisa, hoje mais do que nunca, de liderança com memória institucional, visão de futuro e profundo compromisso com o país. E essas qualidades, estou convicto, encontram-se no Doutor Crisanto Barros.
* Não tenho vínculo institucional com a UNICV. Sou cabo-verdiano, fui professor em quatro liceus de Cabo Verde e colaborei com uma universidade cabo-verdiana.Em 2004, desenvolvi uma visão estratégica para a criação da Universidade Pública de Cabo Verde. Possuo grau de doutoramento em liderança educativa e exerço atualmente funções como professor sénior numa universidade nos Estados Unidos, onde já orientei mais de 30 teses/dissertações de doutoramento. Acumulo, igualmente, responsabilidades no sistema público de ensino do estado de Massachusetts.
À luz desta trajetória académica e profissional, desenvolvida tanto no contexto nacional como internacional, afirmo sem reservas que o perfil do Doutor Crisanto Barros é sólido, credível e plenamente adequado para liderar uma universidade pública que carece, com urgência, de nova visão, renovação estratégica e alinhamento com um mundo académico em profunda transformação.
*Professor Doutor



