
Por: Karina Gomes
O incêndio que recentemente atingiu o edifício da casa noturna Le Constellation, em Crans-Montana (Suiça), chocou o mundo não apenas pela violência das chamas em meio à paisagem alpina, mas porque desafiou a crença confortável de que tragédias desse tipo seriam exclusividade de países “menos organizados”.
A fumaça, o pânico e a perda de vidas em um espaço fechado durante uma celebração de Ano-Novo trouxeram à memória dos sobreviventes da Boate Kiss, em Santa Maria (Rio Grande do Sul-Brasil), a constatação amarga de que “a história se repete”: tanto na Europa quanto na América do Sul, incêndios em baladas continuam a se acumular, especialmente quando pirotecnia e fogos são introduzidos em ambientes fechados, onde vidas se misturam de forma vulnerável.
O fogo suíço reabre, assim, um debate incômodo sobre como as sociedades lidam com o risco e com a memória das tragédias.
Em Santa Maria, em 2013, o incêndio começou quando artefatos pirotécnicos acionados durante um show atingiram o revestimento acústico inflamável do teto, liberando uma fumaça tóxica que matou 242 pessoas e feriu centenas (a maioria jovens entre 18 e 30 anos) em uma das maiores tragédias humanas recentes do Brasil.
Não se trata, porém, de um episódio isolado. Em Kočani, na Macedônia do Norte, o incêndio na Pulse Nightclub matou mais de 60 pessoas após fogos de artifício disparados durante um show incendiarem o teto do local.
Em Bucareste, na Romênia, o fogo na Colectiv Club, em 2015, ceifou 64 vidas quando pirotecnia usada por uma banda atingiu espumas acústicas altamente inflamáveis, formando uma nuvem tóxica em um espaço fechado e superlotado.
Nos Estados Unidos, o incêndio de 2003 na The Station Nightclub começou da mesma forma e terminou com 100 mortos, deixando marcas profundas na legislação e nas normas de segurança para casas de espetáculo.
Países distintos, legislações distintas, culturas distintas: a mesma negligência, o mesmo desfecho.
Esses episódios revelam um padrão perturbador: o uso de fogos, pirotecnia ou chamas em espaços fechados com grandes multidões continua a ser uma combinação mortal quando medidas básicas de prevenção são relativizadas ou ignoradas.
O fogo, nesses contextos, ilumina aquilo que muitas vezes preferimos manter nas sombras: a segurança não é um detalhe burocrático, mas uma escolha ética coletiva; ela revela quem é protegido, quem é exposto e quem só recebe atenção depois que o pior já aconteceu.
Trazer essa reflexão para Cabo Verde é urgente. No arquipélago, as chamadas velas vulcão circulam rotineiramente em baladas, integradas à estética do consumo e às práticas de prestígio associadas aos camarotes, como se fossem parte inofensiva da festa. Não são. São chamas abertas em ambientes fechados, atravessando multidões, álcool, tecidos, decoração e estruturas inflamáveis.
Há poucos meses, na reinauguração de um espaço noturno, presenciei essa cena naturalizada; ao questionar um dos organizadores sobre os riscos evidentes, ouvi que “isso é coisa das pessoas do camarote”. A pergunta que se impôs — “então as pessoas do camarote decidem quem vive e quem morre nas baladas em Cabo Verde?” — interrompeu a normalidade daquela noite e fez cessar a circulação das velas.
Mais tarde, houve espaço para o diálogo sereno sobre responsabilidade coletiva e para lembrar que grandes tragédias nunca começam como tragédias, mas como práticas toleradas e justificadas em nome do espetáculo.
Este texto é, portanto, também um apelo: às autoridades, para que não relativizem normas de segurança nem fechem os olhos para práticas perigosas; aos empresários do setor noturno, para que compreendam que inovação, glamour e consumo não podem se sobrepor à vida humana; e, sobretudo, à juventude cabo-verdiana, principal frequentadora desses espaços, para que não aceite, não naturalize e não tolere o uso de fogos, velas vulcão ou qualquer tipo de pirotecnia em casas fechadas : questionar, recusar e denunciar também são formas de cuidado.
Em Cabo Verde, o risco ultrapassa a tragédia individual: coloca em jogo a imagem de um país turístico belo, pacífico e seguro, reconhecido mundialmente por sua morabeza. Um único incêndio de grandes proporções seria suficiente para manchar, de forma profunda e duradoura, essa imagem construída com tanto esforço.
Para encerrar, recorro à literatura (sempre a literatura) como espaço de memória e elaboração do indizível. Em “Todo dia a mesma noite: a história não contada da Boate Kiss”, a jornalista brasileira Daniela Arbex reconstrói, cena a cena, o incêndio da Boate Kiss pelas vozes de sobreviventes, médicos, bombeiros e familiares, devolvendo rosto, corpo e nome às vítimas e mostrando como a dor coletiva ultrapassa os limites físicos de um espaço incendiado; adaptada para filme e série, a obra amplia o alcance dessa memória necessária.
Ler (e assistir) é um gesto urgente, porque enquanto práticas perigosas continuam a ser naturalizadas em espaços de festa, no Brasil, na América, na Europa ou em Cabo Verde, a literatura insiste em nos lembrar que nenhuma noite termina quando o fogo se apaga e que esquecer é, muitas vezes, o primeiro passo para repetir.
PS.: A obra “Todo dia a mesma noite: a história não contada da Boate Kiss” está disponível no Leitorado Brasileiro da Uni-CV para empréstimo e a Série em 5 episódios pode ser assistida na Netflix.



