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Colunistas

As eleições que mudaram Cabo Verde

Por: José  Vicente Lopes

1. Terça-feira, 13 de Janeiro, completaram-se 35 anos do dia em que os cabo-verdianos foram chamados pela primeira vez às urnas para eleger os seus governantes num sistema concorrencial. Na altura, eu era jornalista do trissemanário Voz di Povo, e na edição do dia 15, no artigo que fui chamado a escrever sobre esse grande dia o título não podia ser mais óbvio: “Cabo Verde mudou”.

Sim, 35 depois parece que acertei na “mosca”. Mas este acerto, quase à La Palisse, de tão óbvio, vinha sendo anunciado, em crescendo, há vários meses. Isto é, desde pelo menos o anúncio da abertura política feito por Pedro Pires, em Fevereiro de 1990, e, sobretudo, desde a entrada em cena, logo em Março, daquele que viria a ser o Movimento para a Democracia (MpD). Portanto, em onze meses Cabo Verde mudou de forma decisiva, não deixando qualquer sombra de dúvida a esse respeito.

Relendo aquele meu texto de duas páginas, do VP de 15 de Janeiro, ao fim de todos estes anos, sabendo o que hoje sei, esse artigo há-de valer, suponho, pelos acertos. Qual espelho do momento, nele procuro analisar as razões da vitória do MpD e da derrota do PAICV. Mais do que isso, o que ainda nos esperava a partir da nova realidade criada por aquelas eleições, inebriados que estávamos todos com aqueles dias de eufórica mudança que só os grandes momentos históricos são capazes de proporcionar.

Em Santo Antão, bem no interior da Ribeira Grande, durante a campanha e perto do 13 de Janeiro, assisti a uma cena que jamais pensei ver no meu país. De tão desejado, as pessoas desse lugar se dispuseram a carregar Carlos Veiga num palanquim, espécie de andor, uma coisa medieval. Manda a justiça dizer que Veiga ainda tentou resistir àquele seu endeusamento, mas os activistas locais do MpD, conhecedores dos usos e costumes da terra, lá o convenceram a deixar-se carregar naquela “coisa”. As pessoas eram tantas que eu e o Orlando Rodrigues, meu colega da Rádio, não víamos a hora em que o pobre líder do MpD iria “debangar” daquilo.

Naquele meu artigo, em relação ao PAICV, antes ainda das várias tentativas ternurentas para o seu aniquilamento, coisa que ainda hoje vários “democratas” lamentam não ter feito, ou da enxurrada de artigos que se seguiram contra Pedro Pires, escrevi: 

“Derrotado mas não morto, como alguns inocentes pensam, aos dirigentes do ‘partido de Cabral’ só resta juntar os cacos e curar as feridas exportas pela abertura democrática. Também eles saberão explorar os argumentos que qualquer oposição costuma ter para (re)conquisar o poder”.

Para conclusão do artigo, deixando para trás vários aspectos que ditaram os resultados do 13 de Janeiro, o texto terminava dizendo que tínhamos acabado “apenas de dar um dos passos mais importantes para a vida de qualquer nação”, a faculdade de poder escolher pelo voto os seus governantes. Contudo, porque não basta vencer eleições para a que a felicidade chegue a todos, tratei também de alertar: 

“Cabo Verde (…) precisa mostrar-se mais ágil e eficiente na captação dos investimentos ou na resolução dos seus grandes problemas. Um partido como o MpD, que fez a sua campanha baseada na competência dos seus dirigentes, deve saber o que fazer com um poder tão arrebatador e aliciador que conquistou nas urnas”. Os 10 anos seguintes trataram de mostrar o quanto eu estava certo nesse meu vaticínio.

Afinal, como o texto tratara também de registar, “Cabo Verde entrou há vários meses num ritmo acelerado: em menos de um ano o país mudou e vai ter de continuar a mudar”… E assim foi. O MpD promoveu a aprovação da nova Constituição da República, a economia abriu-se, empresas públicas foram privatizadas e, pouco a pouco, tivemos a crise que daria lugar ao PCD e, enfim, entre outros inúmeros problemas, o eterno sal da usura do poder acabou por dar lugar à alternância de 2001, através de José Maria Neves.

Pelo meio, independentemente da gestão das impossibilidades que JMN se viu também obrigado a fazer ao longo dos seus 15 anos de governo (2001-2016), Cabo Verde realmente não mais voltou a ser o mesmo desde 13 de Janeiro de 1991. Entre o passado do partido único e os anos de democracia que se seguiram, a diferença em alguns domínios chega a ser da noite para o dia. Nestes anos todos houve quem tenha perdido e vencido eleições por 12 votos e até por um. Isto em qualquer outro país do Terceiro Mundo, sobretudo em África, acabaria em guerra civil. Aqui, como vamos aprendendo, embora imprevisível e por vezes matreiro, o povo é sereno, como diria o outro.

Trinta e cinco anos depois Cabo Verde continua, felizmente, a mudar porque, como disse o velho Camões, “Todo o mundo é composto de mudança, / Tomando sempre novas qualidades” e, acrescento eu, “composto” também por novos actores e desafios. E mesmo quando a sociedade civil nos parece domesticada, abúlica e desinteressada, e o povo conformado na sua miséria, que ninguém se engane; salvo uma ou outra ocorrência, mesmo diante de novas versões “nada de aventuras”, lema do PAICV em 1991, os cabo-verdianos, por gostarem de arriscar, mesmo quando à abeira do abismo, preferem pagar para ver a parada.

Da mesma forma que vi muita gente do PAICV triste em 1991, também vi ventoinhas inconsolados em 2001, convencidos que o PAICV, o partido da ditadura, da tortura, disto e mais aquilo, jamais voltaria a governar Cabo Verde. E foi sobretudo nos momentos em que os donos de poder de ocasião procuraram alardear que não havia alternativa ao seu ‘statu quo’, evocando fantasmas do passado, é que a alternativa surgiu e se impôs.

 

2. Este 13 de Janeiro acontece a poucos meses das próximas eleições legislativas, altura em que vamos voltar a ter um novo duelo entre o MpD e o PAICV, continuando a UCID a suar as estopinhas para deixar de ser o partido localista, de São Vicente. Por falar na UCID, vivemos dias tão estranhos que ela, a UCID, nos últimos dois meses é que parece ser o principal partido da oposição. É ela que toma posições sobre o crescimento do PIB, dívida pública, situação social e, pasme-se, até sobre a invasão da Venezuela pelos EUA, coisa que o PAICV não foi capaz de piar.

O PAICV neste momento existe em duas frentes: na Assembleia Nacional, fala através de Janira Hopffer Almada; fora do Parlamento, o partido vai existindo por força dos sarilhos que Francisco Carvalho vai tendo com a justiça ou então com o episódio infame à volta da comemoração do 13 de Janeiro. Primeiro, produz uma nota a dizer que não respeita o feriado e depois, quando a coisa dá para o torto, vem dizer, angelicamente, para não irmos atrás do “fladu fla”, isto depois de vários dias de ele ter deixado o “fladu fla” a rolar, criando stress num país estressado com a sua classe política.

Portanto, por estímulo e ajuda daquilo que a situação já chama “este PAICV”, o MpD vai querer fazer das próximas eleições um retorno ao espírito de 13 de Janeiro, sob pretexto de que é preciso salvar a liberdade e a democracia para travar o populismo de Francisco Carvalho, como se alguma vez em Cabo Verde alguém tenha conseguido chegar ao poder sem ser pela via populista. É a velha história: o populismo dos outros é sempre maligno; o nosso é benigno, rende votos e poder. 

Com base nisso, há décadas que andamos nisto, a prometer o impossível ao pobre povo das ilhas para conseguir os votos possíveis. Cada leitor, como sugestão minha, tipo TPC, que faça a sua listinha de promessas mirabolantes e populistas até hoje por realizar. Eu, por exemplo, continuo à espera do meu 13º mês; gente minha conhecida, jovens e menos jovens, cansada de esperar por um dos famosos 45 mil empregos “com qualidade”, prometidos em 2016, já se pôs a andar daqui, por não suportar mais o “populismo” de quem quer que seja.

 

3. O país de um milhão de turistas, do monumento ao 13 de Janeiro de quase 160 mil contos, é também o país que deixa Brava à penúria, e que ninguém se zangue se um dia desses Trump decidir tomar a ilha para salvar os “americanos” da Brava da incompetência reinante nos transportes marítimos. Isto sem esquecer os nossos irmãos de São Nicolau que, em pleno século XXI, tiveram esses dias de reaprender como se cozinha com lenha por falta de gás butano.

Felizmente, apesar de todos os problemas, mazelas e desgraças, 35 anos depois, a democracia continua a ser o regime da preferência da maioria dos cabo-verdianos, conforme os vários estudos de opinião. É ainda o que nos salva. Há, porém, um dado novo nesta equação. Um estudo da Afrosondagem divulgado em Julho do ano passado aponta que apenas 37% dos inquiridos admitiram “sentir-se próximos” de um partido político. Seis meses depois é bem provável que o número daqueles que querem distância dos partidos, para a salvaguarda da sua sanidade mental, tenha aumentado.

A despeito de todos os discursos, editorais e composições, tipo “eu gosto muito da democracia, porque sem a democracia não posso viver…”, em Cabo Verde os partidos políticos tendem a aproximar-se perigosamente da inutilidade pública. E a culpa, asseguro, não é minha. Eu garanto que nunca fui populista.

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