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Economia

Desafio de alinhar os cursos universitários com o mercado de trabalho

Um dos grandes desafios do ensino universitário ao longo dos 50 anos da independência tem sido o de alinhar os cursos universitários, disponibilizados pelas diferentes instituições públicas e privadas, com o mercado de trabalho. Um desafio que os especialistas garantem que tem persistido, apesar de alguns avanços. Valorizar os cursos que realmente geram empregabilidade e criar condições para que os jovens que se formam encontrem perspectivas de desenvolvimento profissional em Cabo Verde deve ser prioridade. As tecnologias digitais e a inteligência artificial terão um papel determinante. 

O debate entre os cursos disponibilizados pelas universidades e a sintonia com aquilo que é a demanda real do mercado de trabalho, em Cabo Verde, está longe do fim e dura há décadas. Pese embora, a própria economia e o mercado de trabalho tenham sofrido mutações próprias das tendências de desenvolvimento, ao longo da independência, e as tendências iniciais de quadros como professores e técnicos administrativos vários, entre outros, já não sejam as mesmas do mundo digital e competências a ele conexas, que hoje vivemos.

O certo é que este debate é necessário e determinante para dar resposta às expectativas laborais e profissionais dos jovens que entram anualmente nas universidades, especialmente, se tivermos em conta a onda de emigração que, actualmente, afecta inúmeros universitários cabo-verdianos.  

Cursos muito concentrados no sector terciário

O economista e professor universitário António Baptista tem seguido de perto as tendências da formação disponibilizada no país pelas instituições universitárias e, apesar de considerar que o ensino superior evoluiu e se diversificou, chama atenção para a elevada concentração de cursos ligados ao sector terciário, em detrimento dos outros sectores de actividade.

“Nota-se pouca oferta de cursos que apoiam o sector primário ou secundário. Geralmente, as universidades preferem abrir cursos na áreas humanas e que não necessitam de laboratórios, tecnologias especificas ou que tenham elevados custos de funcionamento”, começa por analisar. Um facto que tem contribuído para que exista um deficit na oferta de cursos nas áreas de tecnologia e engenharias, entre outros.

Nesse contexto, este especialista partilha da opinião que a oferta formativas das universidades não têm seguido as tendências das necessidades do mercado de trabalho interno.

“O governo pretende diversificar a economia, investir na economia azul, TIC (tecnologias de comunicação e informação), agricultura, serviços financeiros etc., mas dificilmente vamos encontrar cursos associados a estes objectivos. Os cursos associados à economia azul são praticamente inexistentes”, observa.

Um cenário que encontramos, por exemplo, mesmo na maior universidade pública do país, onde, como realça, não existe a oferta de cursos associados ao mar.  “Engenharia de pesca, aquacultura, etc., e nem nas áreas da agricultura e pecuária, como cursos de engenharia rural, agronomia, zootecnia, veterinária, agronegócios, agroindústrias, entre outros”, exemplifica.

Cursos desalinhados do PEDS

Evidências que o levam a crer que actualmente nota-se que a dinâmica de surgimento de novos cursos não está alinhada com os grandes objetivos identificados no Plano Estratégico de Desenvolvimento Sustentável (PEDS). 

“O mercado interno actual não é um retrato da potencialidade nacional, mas sim fruto de escolhas que foram feitos pelo governo que, ao longo do tempo, reduziu investimentos nos sectores primários e secundários que ficaram atrofiados com a falta de infraestruturas de apoio e políticas públicas”, contextualiza. 

Como observa António Baptista, estas escolhas acabaram por impactar até na própria criação do tecido empresarial do país, o que depois tem vido a ressentir na própria economia ao longo dos anos, que continua fortemente dependente do turismo, mesmo sem conseguir depois dar resposta ou tirar partido da própria cadeia de abastecimento do turismo.

“Muitos cursos, especialmente na áreas humanas tem limitada capacidade para promover o surgimento de empreendimentos independentes e, por isso, dependem da procura de terceiros”, enfatiza.

Mecanismo de financiamento mais adequados 

Perante este quadro, este docente universitário acredita que o desafio tem a ver com a criação de mecanismos de financiamento mais adequados e na aposta de programas de iniciação científica.

“Não existem programas consistentes de extensão universitária. Na verdade, as universidades, por não investirem nas dimensões da investigação e extensão, são apenas faculdades e, neste contexto, tem reduzidas oportunidades de contribuírem para a transformação social, económica e tecnológica do país”. 

Por outro lado, como destaca, o custo de ingresso no ensino superior ainda é elevado para grande parte das famílias cabo-verdianas e, por este motivo, muitos jovens altamente capacitados, mas oriundos de famílias humildes, não conseguem frequentar a universidade. 

“O sistema de bolsas é insuficiente e inadequado para a maioria da população porque embora custeie a propina, os bolsistas têm dificuldades com alimentação, transporte, alojamento, livros, comunicação, etc.”, assegura. 

Diferença entre conceito de capital humano e recursos humanos com formação

Nesse sentido, defende uma discriminação positiva para atribuição de bolsas ligadas a cursos que contribuam directamente para os sectores identificados no PEDS. Ou seja, no seu entender, a universidade e o governo devem estar alinhados para a promoção do capital humano, em vez de estarem focados em aumentar os recursos humanos com formação superior. Uma vez que, como esclarece, existe uma grande diferença entre estes dois conceitos e no próprio impacto para a economia.

“Um jovem recém-formado em engenharia, se não estiver empregado na sua área de formação, é apenas um recurso humano com muita escola. Para ser considerado capital humano, ele deve contribuir para o aumento do estoque de conhecimento, na produção, na melhoria de processos, no surgimento de novos produtos, com base na sua qualificação e habilidades”, argumenta.

Valorização da pesquisa aplicada e extensão universitária 

Na mesma lógica de raciocínio, mas com uma análise mais voltada para a era digital, Amílcar Aristides Monteiro, consultor e especialista em políticas de desenvolvimento defende, igualmente, que a evolução dos cursos universitários em Cabo Verde ainda enfrenta o desafio de alinhar-se de forma consistente às necessidades do mercado de trabalho. 

“Não acompanho diretamente as universidades nem as suas atualizações curriculares, mas é evidente que persiste um deficit de ligação entre academia e mercado. Falta maior valorização da pesquisa aplicada e da extensão universitária, que são fundamentais para gerar inovação, competências técnicas e práticas que facilitem a inserção dos jovens no mercado”.

Para sustentar a sua análise recorre a dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) de 2024 que mostram que a população empregada em Cabo Verde tem, em média, 9,3 anos de escolaridade, e apenas 17% frequentou o ensino médio ou superior. 

Entre os desempregados, destaca, a média é de 8,9 anos de escolaridade e a maioria concluiu apenas o secundário. No caso dos jovens (15 a 35 anos), muitos permanecem longos períodos sem emprego, sendo que 23% já estão há mais de um ano nessa situação. 

“Atualmente, temos cerca de 9.000 estudantes matriculados no ensino superior e perto de 1.000 licenciados por ano. De forma empírica, observa-se que áreas como tecnologia, engenharia e saúde são absorvidas mais rapidamente pelo mercado, enquanto cursos nas áreas sociais dependem ainda de vagas administração pública em áreas como assistência social e educação”, advoga.

Transformação digital, a inteligência artificial, a transição energética

Estes dados, como contextualiza, deixam transparecer que ainda há uma grande margem para desenvolver cursos universitários que respondam melhor à procura do mercado. “Hoje, com a expansão do turismo e a saída de jovens para a emigração, o país vive uma situação paradoxal: empresas com falta de mão-de-obra qualificada e, ao mesmo tempo, jovens sem emprego, sem formação e fora do sistema que buscam a emigração por falta de oportunidades”.

Nesse sentido, este analista defende que é preciso maior transparência e alinhamento entre oferta formativa e as necessidades do mercado. “É essencial valorizar os cursos que realmente geram empregabilidade e criar condições para que os jovens que se formam encontrem perspetivas de desenvolvimento profissional em Cabo Verde”.

Até porque as tendências mundiais no ensino superior estão cada vez mais ligadas à digitalização, à sustentabilidade e às competências transversais. “Universidades em todo o mundo estão a reformular os seus currículos para preparar profissionais capazes de responder a desafios como a transformação digital, a inteligência artificial, a transição energética e a economia verde. Hoje, não basta ter uma formação técnica sólida, o mercado também procura competências em pensamento crítico, resolução de problemas, trabalho colaborativo e capacidade de adaptação. Existe uma forte valorização da interdisciplinaridade e na convergência entre tecnologia com gestão, saúde com ciência de dados, ou engenharias com ciências sociais”. 

Ensino mais flexível e prático

E para acompanhar estas tendências a aprendizagem contínua agora é determinante. “A formação superior deixou de ser apenas uma etapa na vida dos profissionais e passou a ser um processo ao longo da vida, com cursos de curta duração, micro-certificações e especializações rápidas para acompanhar as mudanças aceleradas no mercado de trabalho”, alerta.

Neste cenário acima descrito, a tendência, conclui Amílcar Monteiro, é que o ensino superior seja mais flexível, prático e conectado com empresas e centros de inovação, formando profissionais que não apenas respondem às necessidades atuais, mas também criem soluções para os desafios futuros.

(Publicado na edição nº961 do Jornal A Nação de 29 de Janeiro de 2026)

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