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Sociedade

Turismo: Destino Cabo Verde sob fogo cerrado da imprensa britânica

O destino turístico Cabo Verde tem estado estes dias sob forte ataque dos médias britânicos devido à morte de seis turistas ingleses, alegadamente depois de terem contraído uma infecção por “Shigella”, em resorts do Grupo RIU, no Sal, no ano passado. As famílias das vítimas entraram na justiça e estão a pedir indeminizações. O Ministério da Saúde nega o surto e garante que Cabo Verde é um destino seguro. O grupo RIU que, recebe os turistas através da TUI, garante que os seus resorts são devidamente auditados e que não foi detectada a presença de “Shigella”.

Não é a primeira vez, nem será certamente a última que o nome de Cabo Verde aparece beliscado, ou posto em causa, pela imprensa britânica, principal país emissor de turistas para os resorts da ilha do Sal e Boa Vista, especialmente em questões associadas a episódios gastrointestinais, que podem ser comuns em destinos tropicais, especialmente em pessoas mais sensíveis ou com determinadas patologias.

Só que desta vez a repercussão associada a quatro ingleses que faleceram num intervalo de quatro meses, após contraírem, alegadamente, viroses estomacais durante viagens à ilha do Sal.

A situação acabou por gerar um verdadeiro tsunami mediático da imprensa inglesa. A repercussão estende-se a outros países da Europa, como é o caso de Portugal, de onde têm aumentado o número de turistas que procuram Cabo Verde para destino de férias.

Este “ataque” surge, inclusive, quando o arquipélago se encontra em plena época alta e se prepara para receber milhares de turistas e emigrantes para o Carnaval de São Vicente. A isto acresce o aumento visível de turistas associados às low costs, com a Easyjet à cabeça, para Santiago, São Vicente, além do Sal e Boa Vista.

Somente o ano passado, os resorts RIU receberam 400 mil turistas, o que deverá ser quase metade dos turistas que visitaram o país. Destes 400 mil, surgem agora estas quatro mortes (em quatro meses), todas de cidadãos ingleses, alegadamente, depois de terem contraído uma infecção por “Shigella”, em resorts do Grupo RIU, no Sal, no ano passado.

Inclusive, o Ministério da Saúde de Cabo Verde (ver caixa), que já negou categoricamente o surto, assegura que “a mera coincidência temporal entre viagem e doença não constitui prova de causalidade” e que “a determinação de nexo causal exige confirmação laboratorial, investigação ambiental estruturada e análise epidemiológica comparativa – elementos que não decorrem de alegações mediáticas nem de processos judiciais ainda em curso”.

Igualmente, o RIU, além de falar de critérios rigorosos de processos auditados e controlos laboratoriais mensais, se mostra consciente do impacto das acusações, mas contra-argumenta que a actuação deste Grupo, há mais de 20 anos em Cabo Verde, “assenta na reposição dos factos, na contextualização estatística e na rejeição de leituras alarmistas que não são sustentadas por dados científicos”.

Casos individuais que não colocam segurança do destino em causa

Contactada pelo A NAÇÃO, a assessoria do RIU garantiu que este dossier está a ser gerido com “total transparência, rigor factual e coordenação institucional”, alinhando a sua comunicação com os esclarecimentos técnicos já emitidos pelo Ministério da Saúde de Cabo Verde (ver caixa) e com a posição oficial do Governo, que reafirmou que não existem evidências epidemiológicas públicas de qualquer surto activo no país.

“A nossa actuação assenta na reposição dos factos, na contextualização estatística e na rejeição de leituras alarmistas que não são sustentadas por dados científicos. Operamos em Cabo Verde há 20 anos, acolhemos centenas de milhares de hóspedes por ano e mantemos padrões sanitários auditados e reconhecidos internacionalmente”, esclarece.

A cadeia espanhola chama ainda a atenção para o facto de as situações em análise dizerem respeito “a casos individuais”, actualmente enquadrados em processos jurídicos em curso, “não sendo adequado retirar conclusões generalizadas sobre o destino Cabo Verde ou sobre a operação dos resorts do grupo com base nesses episódios”, salvaguardando aquilo que tem sido a boa imagem da marca e destino Cabo Verde.

Medidas sanitárias

Interpelados sobre os procedimentos e medidas sanitárias em curso para investigar as alegadas infecções gastrointestinais por “Shigella”, o RIU assegura que os seus resorts operam segundo “rigorosos padrões internacionais de saúde e higiene, estando sujeitos a auditorias externas independentes, sistemáticas e contínuas”.

Ao longo de 2025, inclusive, todas as unidades foram “avaliadas mensalmente” pela consultora internacional Preverisk, especializada em saúde, higiene e segurança, abrangendo, entre outros, a segurança alimentar, a higiene da água, a higiene ambiental e a formação das equipas.

“Paralelamente, são realizados mensalmente controlos laboratoriais regulares e em amostras aleatórias de alimentos e de colaboradores das cozinhas, analisadas em laboratórios certificados, não foram detetadas a presença de Shigella”, assegura a cadeia espanhola.

Conforme igualmente confirmado pelo Ministério da Saúde de Cabo Verde (ver caixa), desde finais de 2025 as autoridades nacionais têm conduzido investigações técnicas aprofundadas dos serviços de vigilância sanitária, a ERIS e a IGAE, “com total e permanente colaboração do RIU”. Informação que foi confirmada ao A NAÇÃO pelo Instituto do Turismo.

“Até à data, não foi identificado qualquer indício de falhas sistémicas nos procedimentos sanitários dos resorts, nem evidência epidemiológica pública de um surto activo”.

Um dado que não é passivo de ser ignorado é que algumas pessoas têm questionado o facto de as vítimas serem todas inglesas e não de outras nacionalidades, facto que o RIU prefere não tipificar.

“Compreendemos que esta questão possa suscitar dúvidas. Importa esclarecer que situações pontuais de indisposição ou doença podem ocorrer entre hóspedes de qualquer nacionalidade, não existindo qualquer evidência de que estas ocorrências estejam associadas a um grupo nacional específico”.

Reservas canceladas

Contudo, dado a repercussão internacional das notícias veiculadas, aquele operador confirma que têm havido cancelamentos nos seus resorts, tendo em conta que a exposição mediática “pode gerar preocupação pontual junto de alguns viajantes”.

Nesse contexto, avança que já se registaram alguns cancelamentos, sobretudo associados ao mercado britânico.

“No entanto, o histórico sólido do RIU em Cabo Verde, o cumprimento rigoroso dos padrões internacionais de saúde e segurança e a forte fidelização de hóspedes, com muitos clientes a regressarem ano após ano, continuam a sustentar a confiança na marca e no destino”.

Neste contexto, reafirma que o RIU acolheu mais de 400 mil hóspedes em Cabo Verde, o que, no entender desse Grupo, “reflecte a dimensão da operação e a confiança contínua dos mercados emissores”.

Associação de agências de viagens e turismo atenta à situação

A NAÇÃO sabe que tem havido contacto de hóspedes em outras ilhas, que não Sal e Boa Vista, a interpelarem os operadores sobre a situação descrita pela imprensa britânica e houve, inclusive, alguns cancelamentos em Santo Antão, onde predomina mais o turismo local de trilhas e caminhadas, destino que tem crescido muito entre os europeus, especialmente franceses e alemães, mas não só.

Porém, Marvela Rodrigues, presidente da associação de viagens e turismo de Cabo Verde, ainda sem que avançar muitas informações, para já, garantiu à nossa reportagem que ainda não tem conhecimento de cancelamentos nas agências filiadas, e que os associados vão reunir em breve para abordar os impactos destas notícias no sector. Contudo, assegurou que neste momento será pertinente que se aposte no reforço da vigilância sanitária.

Instituto do Turismo diz que está a fazer o seu trabalho

O Instituto do Turismo também garantiu à esta reportagem que o reforço da vigilância sanitária já está em curso, com a presença de equipas do IGAE, na ilha do Sal.

Contudo, esse instituto, através da administradora Vânia Rodrigues, não quis para já prestar declarações sobre o que está a ser feito para proteger a marca e o destino Cabo Verde, tendo em conta que o turismo é o principal motor da economia do país, mas garantiu que estão a fazer o seu “trabalho”, ainda que não seja “mediatizado”.

A administradora assegurou que para já, tratando-se de uma “questão sanitária” a reacção oficial é a do Ministério da Saúde cujo comunicado foi partilhado nas redes sociais (ver caixa) e enviado para todos os órgãos de Comunicação Social internacionais que divulgaram a notícia em questão, como forma de conter os danos.

De salientar que o A NAÇÃO tentou igualmente chegar à fala com o Ministro do Turismo, e a resposta foi a mesma.

Leia a matéria na integra na Edição 962 do Jornal A Nação, de 05 de Fevereiro de 2026

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