
Por: Sónia Almeida
Atormenta-me o silêncio generalizado e ensurdecedor em torno do Irão, como me atormentam todos os silêncios onde deveria haver gritos de revolta e os gritos de histeria onde deveria haver mais contenção e reflexão. E não é dos desinformados ou distraídos que ele vem. Intelectuais, estudantes, activistas e vozes políticas plenamente conscientes do que se passa, e que noutras circunstâncias não hesitariam em manifestar ultraje, optam agora, face à repressão brutal nas últimas semanas, por contenção, cautela ou mutismo absoluto.
Os números, por si só, deveriam abalar qualquer complacência. A repressão violenta às manifestações iranianas provocou milhares de mortos e uma escalada de detenções e execuções. A censura estatal, os cortes de comunicações e a proibição de acesso independente tornam impossível uma contagem definitiva, mas o que se sabe é suficiente para perceber a dimensão trágica da situação.
Esta realidade é amplamente conhecida pelos intelectuais e activistas da nova esquerda e, no entanto, essa mesma esquerda que não hesita em diabolizar outros países quando a narrativa lhes convém permanece silenciosa perante a brutalidade iraniana. Chegam mesmo a relativizar imposições como o uso de burcas, condenando milhões de mulheres a viver enclausuradas em tecidos, enquanto fecham os olhos ao sofrimento que poderiam denunciar.
Mais do que dissonância cognitiva colectiva, tal postura revela uma abdicação moral inquietante, onde a consciência se acomoda à selectividade, prefere causas seguras e performativas, enquanto ignora, com uma indiferença cúmplice, o sofrimento real e documentado de seres humanos privados da própria vida.
É aqui que emerge o que poderíamos chamar um complexo de convicção. Uma rigidez ideológica em que a certeza moral se transforma num escudo contra a realidade. Não se trata de falta de informação, mas de excesso de certeza. Uma certeza que dispensa o confronto com o sofrimento quando este não se encaixa no guião político adoptado.
As consequências são corrosivas. Este complexo produz uma selectividade ética que hierarquiza vítimas, administra indignações e normaliza silêncios. O horror deixa de ser absoluto e passa a ser condicional enquanto a solidariedade torna-se num mero instrumento estratégico.
A repressão iraniana expõe não apenas a brutalidade de um regime, mas também a fragilidade da atenção internacional e a forma como o sofrimento humano se torna refém da lógica informativa contemporânea. A cobertura mediática global segue um padrão de flutuação e apagamento em vez de vigilância contínua. Notícias emergem centradas em episódios pontuais, anúncios diplomáticos em sotto voce ou sanções, enquanto a violência quotidiana no terreno permanece fragmentária e difícil de acompanhar fora de círculos especializados.
A repressão iraniana expõe não apenas a brutalidade de um regime, mas também a fragilidade da atenção internacional e a forma como o sofrimento humano se torna refém da lógica informativa contemporânea. A cobertura mediática global segue um padrão de flutuação e apagamento em vez de vigilância contínua. Notícias emergem centradas em episódios pontuais, anúncios diplomáticos em “sotto voce” ou sanções, enquanto a violência quotidiana no terreno permanece fragmentária e difícil de acompanhar fora de círculos especializados.
A própria dinâmica da cobertura evidencia que, na lógica de grande parte dos media, apenas o episódico, e o espectacular garantem permanência. Num dia, manchetes com números vagos; no outro, esquecimento. Esta volatilidade não é neutra; ela molda percepções, dissolve urgências éticas e condiciona a pressão política que governos e instituições se sentem compelidos a exercer.
Neste contexto, a actuação dos media torna-se paradigmática. O seu silêncio carrega uma responsabilidade moral ainda mais grave. O jornalismo nunca deveria ser mero espectador do poder, nem distribuidor automático de indignações convenientes. A sua vocação ética é iluminar aquilo que os regimes procuram obscurecer, insistir onde a violência exige silêncio, dar voz a quem foi empurrado para a invisibilidade.
Quando os media escolhem a evasão, por medo, conforto ideológico ou cálculo editorial, tornam-se cúmplices na maquinaria do apagamento. E a história tem o hábito de exigir contas. Mais cedo ou mais tarde, não se perguntará apenas por que razão governos hesitaram ou activistas se calaram, mas porque é que tantas redacções titubearam ou olharam para o lado.
Num podcast, um jornalista dizia que os media estão moribundos porque a sua actuação é suicidária. Não apenas por censura externa, mas por abdicação voluntária, entregando a sua credibilidade omissão após omissão. No caso do Irão, este silêncio transforma a atrocidade em ruído de fundo e a vida humana em abstracção descartável.
O contraste é evidente quando se recorda a publicidade em torno de acções simbólicas como a flotilha para Gaza, ruidosamente anunciada e amplamente difundida, comparada com o silêncio quase total sobre o Irão. A flotilha ousou navegar porque os seus participantes sabiam, consciente ou inconscientemente, que estavam seguros: seguros para provocar, para se exibirem e para regressar como heróis morais.
Nenhuma flotilha ousará navegar em direcção ao Irão. Não porque o sofrimento seja menor, mas porque os riscos são reais e porque o caso do Irão contradiz a narrativa imposta. Na sua ausência, desvela-se um tipo de coragem que existe apenas onde não há perigo, e com ela o colapso silencioso de muitos autoproclamados heróis da resistência.
Quando o sofrimento não mobiliza porque é politicamente inconveniente, quando a solidariedade depende da segurança, quando a indignação é racionada de acordo com a conveniência, deixa de ser juízo moral para se transformar em mera gestão moral.
Esta situação provoca-me uma intolerável náusea ética, semelhante à sensação descrita por Sartre em La Nausée, mas deslocada do plano individual para o colectivo. Uma repulsa diante da facilidade com que alguns dobram os seus valores para se adequarem aos próprios interesses, ignorando o sofrimento que poderiam denunciar.
Entretanto, os persas, homens, mulheres e crianças, vão caindo sob o fogo dos aiatolas, enquanto viramos deliberadamente a cara para o lado.
Todo este modus operandi não é novo e encontra eco nos trabalhos de vários filósofos contemporâneos. Arendt sublinhou que o maior perigo não é o fanatismo, mas a normalização do mal; Levinas lembra-nos que a ética morre quando deixamos de responder ao rosto diante de nós. Ir contra o pensamento popular e resistir à banalização do mal exige coragem solitária, e é aqui que ressoa R.Waldo Emerson:
“É fácil viver segundo a opinião do mundo. É fácil, na solidão, viver segundo a nossa. Mas grande é aquele que, no meio da multidão, conserva com perfeita serenidade a independência da solidão.”
O Irão situa-se hoje nessa intersecção, um teste não da informação, mas da integridade. A fidelidade moral é quase sempre solitária e, justamente por isso, é a única que merece esse nome.



