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Formamos jovens, exportamos mão-de-obra e importamos discursos

Por: António Delgado Medina*

Cabo Verde assiste hoje, quase com normalidade, a um fenómeno que deveria preocupar seriamente qualquer decisor político responsável: a saída massiva de jovens para a Europa. 

Não se trata de mobilidade qualificada planeada, nem de intercâmbio de saberes com retorno garantido. Trata-se, antes, de uma fuga estrutural de mão-de- obra, que está a deixar o país desguarnecido em setores vitais da sua economia.

Os sinais são evidentes e já não podem ser escondidos atrás de discursos otimistas ou de estatísticas bem maquiadas. 

Falta mão de obra nos transportes, na construção civil, na restauração, nos serviços básicos e, de forma particularmente preocupante, no turismo, setor frequentemente apresentado como a “coroa” da economia cabo-verdiana. Uma coroa que começa a mostrar fissuras graves.

O paradoxo é gritante: Cabo Verde investe recursos públicos escassos na formação de jovens, através de centros de formação profissional, programas financiados pelo Estado e por parceiros internacionais, para depois vê-los partir em massa, engrossando a força de trabalho de países europeus que pouco ou nada investiram na sua qualificação inicial. 

Estamos, na prática, a subsidiar o desenvolvimento alheio, enquanto por cá continuamos a repetir slogans vazios sobre crescimento e resiliência.

A pergunta impõe-se: como sustentar um setor turístico competitivo sem trabalhadores qualificados, motivados e minimamente bem pagos? Hotéis, restaurantes, transportes turísticos e serviços conexos já sentem dificuldades reais para recrutar e reter pessoal. 

O paradoxo é gritante: Cabo Verde investe recursos públicos escassos na formação de jovens, através de centros de formação profissional, programas financiados pelo Estado e por parceiros internacionais, para depois vê-los partir em massa, engrossando a força de trabalho de países europeus que pouco ou nada investiram na sua qualificação inicial. Estamos, na prática, a subsidiar o desenvolvimento alheio, enquanto por cá continuamos a repetir slogans vazios sobre crescimento e resiliência.

A rotatividade é elevada, a qualidade do serviço degrada-se e o risco de colapso silencioso do setor é cada vez mais concreto. Turismo não se faz apenas com sol, praia e estatísticas de chegadas; faz-se, sobretudo, com pessoas.

Mas talvez o problema maior esteja na insistência em confundir crescimento com desenvolvimento. Anuncia-se a criação de empregos, mas omite-se a sua precariedade. Fala-se de números, mas cala-se o essencial: salários baixos, contratos instáveis, ausência de progressão profissional e um custo de vida que sobe muito mais depressa do que os rendimentos. Para muitos jovens, trabalhar em Cabo Verde já não significa construir um futuro, mas apenas sobreviver.

Perante este cenário, emigrar deixa de ser um sonho e passa a ser uma estratégia de sobrevivência racional. Não por falta de patriotismo, como alguns insinuam, mas por falta de oportunidades dignas. Nenhum jovem abandona a sua terra, a sua família e a sua cultura por capricho. Emigra porque sente que o país já não lhe oferece horizontes.

Persistir em “basofarias” políticas e em números estatísticos falaciosos não travará este êxodo. Pelo contrário, aprofunda-o. Sem uma política séria de valorização do trabalho, de salários compatíveis com a vida real, de carreiras profissionais claras e de ligação efetiva entre formação e emprego qualificado, Cabo Verde continuará a perder o seu maior capital: a juventude.

Um país que se habitua a ver os seus jovens partir corre o risco de ficar velho antes de se desenvolver. E quando se der conta disso, talvez já seja tarde demais.

10/02/2026

*Geógrafo, doutorando em Ciências Sociais

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