
Por: João Serra
Ao observarmos a última década da governação em Cabo Verde, impõe-se um exercício de anatomia política sobre uma das promessas mais vigorosas e sedutoras do MpD: a reforma profunda do Estado.
Em 2016, o país foi mobilizado em torno da visão de um “Estado facilitador”, concebido como uma estrutura leve, ágil, moderna e, sobretudo, menos intrusiva na vida económica e social. O compromisso era inequívoco: romper com o modelo anterior, considerado obeso e excessivamente partidarizado, para dar lugar a uma administração pública (AP) assente na meritocracia e na eficiência.
Contudo, volvida uma década, o que se observa não é a celebração dessa modernidade anunciada, mas antes o funeral lento e silencioso das grandes reformas prometidas, soterradas sob o peso de uma máquina burocrática que, longe de emagrecer, se tornou mais dispendiosa e onerosa para o contribuinte cabo-verdiano.
Este fenómeno de “engordamento” deliberado das estruturas do Estado constitui o golpe de misericórdia na retórica reformista. Onde o MpD prometera um governo enxuto, entregou ao país o elenco governativo mais extenso da história democrática, um gigantismo que se replica, em cascata, por toda a administração direta e indireta. Surgem, ano após ano, novos institutos, direções-gerais, empresas públicas e organismos afins.
A lógica repete-se: criar estruturas para responder a problemas que poderiam ser resolvidos com uma gestão mais eficiente das existentes ou, em muitos casos, para absorver quadros ligados ao partido no poder – o clássico “jobs for the boys”. O resultado é um Estado obeso, caro para os contribuintes, opaco para os cidadãos, lento, profundamente partidarizado e generoso apenas para os que gravitam na órbita do poder.
A esta macrocefalia governativa e administrativa soma-se o fracasso retumbante da regionalização, que deveria ter sido a grande reforma estruturante deste ciclo político. A descentralização e a aproximação do poder de decisão às populações das diferentes ilhas foram apresentadas como a solução definitiva para as assimetrias regionais. No entanto, o projeto perdeu-se no labirinto das negociações parlamentares e na ausência de uma vontade política genuína que transcendesse o mero cálculo eleitoral.
Entre 2016 e 2025, a trajetória da despesa corrente traça um quadro de rigidez estrutural que compromete qualquer ambição de desenvolvimento sustentável. Em 2025, por exemplo, a despesa corrente – aquela que assegura o funcionamento da máquina do Estado – atinge cerca de 81 milhões de contos, representando 85,2% da despesa total.
Em termos práticos, Cabo Verde trabalha essencialmente para financiar o seu próprio funcionamento. Quando mais de 85 centavos de cada escudo gasto pelo Estado se destinam a sustentar a burocracia, a massa salarial de uma função pública fortemente partidarizada, o consumo de bens e serviços da administração e o pagamento de juros da dívida pública, o espaço para o investimento em infraestruturas, saúde ou educação torna-se residual e manifestamente insuficiente.
O que se observa não é a celebração dessa modernidade anunciada (“Estado facilitador”), mas antes o funeral lento e silencioso das grandes reformas prometidas, soterradas sob o peso de uma máquina burocrática que, longe de emagrecer, se tornou mais dispendiosa e onerosa para o contribuinte cabo-verdiano. (…) Onde o MpD prometera um governo enxuto, entregou ao país o elenco governativo mais extenso da história democrática, um gigantismo que se replica, em cascata, por toda a administração direta e indireta. Surgem, ano após ano, novos institutos, direções-gerais, empresas públicas e organismos afins. (…) O Estado que Cabo Verde tem hoje é o oposto daquele que foi prometido há uma década.
O “Estado facilitador” prometido transformou-se, assim, num Estado sugador, que consome o fôlego da economia privada para sustentar o seu próprio peso.
Esta hipertrofia do aparelho estatal não se traduz, contudo, numa melhoria da qualidade dos serviços prestados. Pelo contrário, a ineficiência tornou-se a nota dominante, sendo o cidadão comum quem suporta uma fatura dupla: através da carga fiscal e da precariedade do atendimento.
Na saúde, o cenário é de desolação, marcado por listas de espera intermináveis e por um sistema que falha nos momentos mais críticos, como o demonstram episódios recorrentes de falta de assistência e de insistentes ruturas de stock de medicamentos essenciais.
Na justiça, a morosidade continua a ser a regra, com processos que se arrastam durante anos, minando a confiança dos investidores e corroendo a paz social. A reforma da justiça, repetidamente anunciada como prioridade, esfumou-se na ausência de investimento consistente em meios humanos e técnicos de base.
O setor dos transportes constitui, talvez, o símbolo mais eloquente deste falhanço estrutural. A promessa de transformar Cabo Verde num “aviation hub” e de assegurar ligações marítimas interilhas eficientes foi enterrada sob uma gestão errática de concessões e privatizações que, na prática, agravaram o isolamento de algumas ilhas e drenaram recursos públicos através de indemnizações compensatórias e avales financeiros sucessivos. O Estado, que deveria atuar como regulador isento e garante da mobilidade nacional, revelou-se um gestor incapaz, prisioneiro de contratos pouco transparentes e de uma visão de curto prazo que sacrificou a soberania logística do arquipélago.
A ineficiência dos serviços públicos é frequentemente dissimulada por uma espécie de “maquilhagem digital” que, apesar de alguns avanços na governação eletrónica, não consegue ocultar o facto de que, por detrás de cada portal online, persiste uma burocracia lenta e discricionária. A modernização administrativa, que deveria simplificar a vida das empresas e dos cidadãos, converteu-se num fim em si mesma, numa montra tecnológica voltada para consumo externo, enquanto internamente o custo de contexto continua a ser um dos principais entraves à competitividade da economia nacional.
A meritocracia, outro pilar central das promessas do MpD, foi igualmente sepultada. A reforma da AP deveria ter assentado num sistema de carreiras transparente, previsível e imune a influências externas. Todavia, a realidade que se impõe é a ocupação rápida e generalizada dos cargos por via de nomeações políticas e de familiares e amigos.
Tal prática não só desmotiva o corpo técnico permanente, como também degrada a qualidade das políticas públicas, na medida em que a lealdade partidária se sobrepõe, com frequência, à competência técnica. O funeral da reforma do Estado é, por isso, também o funeral da esperança numa AP profissionalizada e neutra, capaz de servir o cidadão independentemente de quem ocupe o Palácio da Várzea.
Ao analisar o percurso desta década, torna-se evidente a opção pelo caminho da menor resistência. Uma verdadeira reforma do Estado exige coragem para enfrentar interesses instalados, rever privilégios e extinguir estruturas supérfluas. O atual governo preferiu a via do expansionismo administrativo, financiando o inchaço da máquina através de um endividamento público que já ultrapassa limites prudentes e de uma pressão fiscal que asfixia o setor privado.
O paradoxo é evidente: o partido que prometeu libertar empresas e cidadãos do peso do Estado apresenta hoje orçamentos em que a despesa de funcionamento assume prioridade absoluta, relegando o investimento público reprodutivo para um papel secundário.
É imperativo afirmar, sem subterfúgios, que o rei vai nu. O Estado que Cabo Verde tem hoje é o oposto daquele que foi prometido há uma década. Não existe reforma possível sem a coragem de extinguir serviços inúteis e de despartidarizar efetivamente os centros de decisão.
Praia, 7 de fevereiro de 2026
*Doutorado em Economia/Blog: www.economianaserra.blogspot.com)
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1 Comentário
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Manuel S. Mendes
14 de Fevereiro, 2026 at 8:54
Um miliciano digital a sair para a rua não de tronco nú, mas sim da parte baixa ao relento chorando culpas do seu próprio pecado.
Será que o miliciano pelas funções que antes desempenhou, tinha deixado o país em condições de tudo quanto chora para que as coisas estivessem melhor!?
Não será que o miliciano não contribuira para a armadilhação do país por forma a que tem que levar anos para que tudo aconteça!?
É uma pena, mas como intelectual que demonstra ser, nós que não entendemos patavina das suas matérias, só questionamos essas suas quase que lengalengas, pegando por aquilo que ele próprio tem culpas.