O Carnaval de São Vicente deste ano tem um novo ingrediente que promete dividir opiniões: um “Grande Baile do Carnaval”, introduzido na Rua de Lisboa e abrilhantado pelo grupo Calema, e pela Banda Folia.
A presença dos irmãos santomenses, os Calema, habituados a palcos pop e românticos, surge como uma aposta para cobrir a ausência dos grupos Monte Sossego, Vindos do Oriente, Estrela do Mar e Escola de Samba Tropical, que decidiram não desfilar este ano por falta de condições.
As celebrações começam logo amanhã, sexta-feira, às 9h30, com o desfile da SODART-Escola Primária de Chã de Cemitério, na Praça Luís. O Jardim Despertar anima as hostes com autocarro, enquanto a Escola de Espia desfila pela Rua Fernando Ferreira Fortes, junto ao Liceu Velho. A mesma rua recebe ainda o Agrupamento VII, e o dia fecha com o Trio Convivência.
É um arranque que mostra como o Carnaval continua a ser, antes de mais, uma festa das escolas e das crianças, cimentando a ligação entre gerações.
Sábado de diversidade
No sábado, o programa abre espaço para a Escola Portuguesa, o Jardim Casa da Criança, o Grupo Vovó e o Esplendor Fonte Filipe. Junta-se a Delegacia de Saúde, o Trio KNPROMO e o Trio Uni Mindelo. A diversidade de participantes reforça o carácter comunitário da festa, onde instituições, grupos informais e coletivos culturais se cruzam numa mesma avenida.
Domingo dos mandingas
O domingo é reservado aos mandingas, vindos de várias localidades da ilha. É o momento em que a irreverência e a sátira popular tomam conta das ruas, com pinturas corporais, coreografias improvisadas e uma energia que desafia qualquer formalismo. Os mandingas são, há décadas, o coração pulsante do Carnaval mindelense, e continuam a ser o contraponto mais autêntico à institucionalização da festa.
Segunda-feira dos Professores
Na segunda-feira, sobem ao palco os já conceituados Professores e os Mandingas de São Vicente. É um dia que mistura crítica social, humor e pedagogia, mostrando que o Carnaval também é espaço de reflexão e de intervenção cultural.
O grande desfile oficial
Na terça-feira, chega o momento mais aguardado: o desfile oficial dos grupos Flores do Mindelo e Cruzeiros do Norte. São eles que carregam a responsabilidade de manter viva a tradição dos grandes cortejos, com carros alegóricos, fantasias elaboradas e coreografias ensaiadas ao detalhe.
Logo após o desfile, a Rua de Lisboa transforma-se em salão aberto para o “Grande Baile do Carnaval”, onde os Calema e a Banda Folia prometem prolongar a festa pela noite dentro.
Bilhetes e acessos
Os bilhetes para as bancadas variam conforme o dia e o local. Na segunda-feira, custam 500 escudos, na Rua de Lisboa, 300 na Rua Machado e 200 na Praça Nova. Já na terça-feira, os preços sobem: 1.000 escudos na Rua de Lisboa, 500 na Rua Machado e 300 na Praça Nova. A diferença reflete a expectativa em torno do desfile oficial e do baile.
Expectativas e polémicas
A introdução do baile e a presença dos Calema são as grandes novidades do momento. Para uns, trata-se de uma modernização necessária, capaz de atrair novos públicos e dar maior visibilidade internacional ao Carnaval de São Vicente. Para outros, é uma descaracterização, uma cedência ao espetáculo comercial que pode diluir a autenticidade da festa.
A Banda Folia, com nomes como Anísio Rodrigues e Constantino Cardoso, garante a ligação à tradição musical local, mas a fusão com os Calema levanta a questão: até que ponto o Carnaval deve abrir-se a influências externas?
Entre tradição e reinvenção
O Carnaval de São Vicente sempre foi um espaço de tensão entre tradição e inovação. Os mandingas, por exemplo, nasceram como expressão marginal e hoje são parte integrante da festa. Os grandes grupos oficiais reinventam-se ano após ano, com fantasias cada vez mais sofisticadas. O baile pode ser apenas mais um capítulo dessa história de reinvenção, ou pode marcar uma viragem mais profunda na forma como a ilha celebra o seu maior evento cultural.
Às vésperas do Carnaval, a expectativa é alta. As ruas já se preparam para receber milhares de pessoas, entre locais e visitantes. O programa está definido, mas o verdadeiro Carnaval será escrito pelo povo, na forma como reage, participa e comenta cada momento.
Entre o desfile das escolas, a irreverência dos mandingas, a crítica dos Professores e o brilho dos grupos oficiais, São Vicente promete viver dias intensos. E, no final, será o “Grande Baile do Carnaval” — com os Calema em palco — a testar até onde a festa pode ir sem perder a sua alma.
João A. do Rosário



