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A politização do Carnaval e o risco de perdermos a nossa identidade

Por: António Delgado Medina*

O Carnaval de São Vicente nunca foi apenas festa. Sempre foi identidade, pertença, criatividade coletiva e afirmação cultural. É um dos raros momentos em que a ilha fala de si para o país e para o mundo. Justamente por isso, a crescente politização deste evento levanta uma questão essencial: estamos a proteger a nossa cultura ou a usá-la como instrumento de disputa política?

Do ponto de vista sociológico, o Carnaval pode ser entendido como um verdadeiro “fato social total”, conceito desenvolvido por Émile Durkheim para designar fenómenos que mobilizam simultaneamente dimensões culturais, económicas, sociais, simbólicas e políticas da vida coletiva. 

Em São Vicente, o Carnaval envolve bairros inteiros, atravessa classes sociais, gera rendimento, ativa o turismo e reforça o sentimento de pertença comunitária. Nada nele é neutro — e exatamente por isso, tudo nele exige responsabilidade pública.

Nos últimos anos, porém, o Carnaval passou a ser palco de disputas que pouco têm a ver com a arte, a criatividade ou a tradição. O que está em jogo já não é apenas a organização do desfile, mas o controlo simbólico de um dos maiores patrimónios culturais da ilha. Como diria Pierre Bourdieu, trata-se de uma luta pelo capital simbólico: quem controla o Carnaval controla também a narrativa pública sobre a cidade, a modernidade cultural e a liderança política.

A associação direta do evento à imagem do poder local transformou o Carnaval num espaço de legitimação e visibilidade política. Em reação, os grupos carnavalescos, organizados na LIGOC, reivindicam autonomia e respeito, defendendo que a cultura não pode ser refém de agendas partidárias.

Quando estas tensões não são resolvidas pelo diálogo, o resultado é previsível: desorganização, fragilização institucional e perda de prestígio do evento. Quem perde não são apenas os grupos ou a Câmara Municipal — perde a cidade, perde a economia local, perde a imagem de São Vicente enquanto capital cultural do país.

Nos últimos anos, porém, o Carnaval passou a ser palco de disputas que pouco têm a ver com a arte, a criatividade ou a tradição. O que está em jogo já não é apenas a organização do desfile, mas o controlo simbólico de um dos maiores patrimónios culturais da ilha. Como diria Pierre Bourdieu, trata-se de uma luta pelo capital simbólico: quem controla o Carnaval controla também a narrativa pública sobre a cidade, a modernidade cultural e a liderança política.

A este quadro soma-se um problema concreto e incontornável: as condições materiais de produção do Carnaval. A tempestade ERIN, que assolou São Vicente, destruiu os estaleiros onde se constroem os andores, comprometendo infraestruturas essenciais ao trabalho dos grupos. 

Passado o impacto, o que se esperava era uma resposta estrutural, com requalificação e criação de condições dignas e seguras. No entanto, pouco ou nada foi feito. Exige-se excelência artística sem garantir o mínimo de condições materiais. Cultura não se constrói apenas com discursos, mas com investimento, planeamento e respeito por quem a produz.

Convém lembrar que o Carnaval é também economia criativa. Costureiras, músicos, carpinteiros, artistas plásticos, vendedores ambulantes, pequenos negócios, hotelaria e restauração dependem diretamente da vitalidade deste evento. 

A politização excessiva, aliada à negligência infraestrutural, gera incerteza, afasta patrocinadores, desmotiva investidores e compromete a continuidade do Carnaval como produto cultural e turístico estruturado. Cultura sem estabilidade institucional e sem condições materiais não se sustenta.

Mais grave ainda é o impacto social. O Carnaval sempre funcionou como espaço de união, libertação coletiva e suspensão simbólica das tensões do quotidiano. 

Mikhail Bakhtin via nas festas populares um momento de inversão simbólica, onde hierarquias se  diluem e a comunidade se reconhece como um todo. Quando o Carnaval é capturado por lógicas partidárias, esse papel integrador é corroído. Surgem divisões, boicotes e rivalidades artificiais. O “nós vicentino” fragmenta-se e dá lugar a alinhamentos políticos alheios à essência da festa.

Cabo Verde precisa decidir que Carnaval quer. Um Carnaval instrumentalizado, usado como palco político de curto prazo, ou um Carnaval tratado como património cultural, com gestão profissional, participativa e despartidarizada. Isso exige coragem política, maturidade institucional e respeito pela sociedade civil organizada.

Despartidarizar a cultura não significa excluir o poder público, mas colocá-lo no lugar certo: como facilitador, parceiro e garante de condições, e não como dono do processo. O Carnaval de São Vicente precisa de concertação, transparência, profissionalização e diálogo genuíno entre a Câmara Municipal, a LIGOC, os grupos e a comunidade. Preservá-lo é preservar a própria alma da cidade.

26/02/2026

*Geógrafo, doutorando em Ciências Sociais

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