
Por: Germano Almeida
Ainda há dias, na inauguração de um Centro de Saúde na ilha do Sal, ouvi o primeiro-ministro exortar os cabo-verdianos a defender com patriotismo o nosso sistema nacional de saúde.
Passados poucos dias li o deputado Luís Silva do MpD a exortar os cabo-verdianos a defender com patriotismo o nosso sector “coração” que é o turismo.
Acho bem que se apele ao patriotismo nacional. Na minha opinião, o cabo-verdiano em geral tem um forte sentimento de “nacionalidade”, porém, é pouco “nacionalista”, importante conceito que se quer substituir pelo soft “patriotismo”, desde que a extrema direita se apossou da palavra como sendo dela exclusivamente.
Defendamos, pois, com patriotismo nacionalista, quer o serviço nacional de saúde, quer o turismo que vamos tendo. Ambos são essenciais! Porém, há sempre um porém! E esse porém é o facto de a economia cabo-verdiana estar neste momento já quase exclusivamente dependente do turismo, e tudo leva a crer que a tendência é ficar cada vez mais. Ora, temos todos obrigação de saber que é um risco que pode vir a ser catastrófico para o país.
A propósito dos turistas que aparentemente adoeceram no Sal, cito o deputado Luís Silva: “O site abta.com apurou que “1 em cada 5 britânicos já foi contactado sobre a possibilidade de fazer um pedido de indemnização por doença contraída durante as férias.” São cerca de 9,5 milhões de Britânicos contactados.”
Desde há muito era mais que previsível que começassem a acontecer incidentes do género, reais ou inventados. E havendo um real, ele é empolado até ao infinito porque para haver turismo em Cabo Verde, quer dizer que um país qualquer no mundo deixou de ter ou passou a ter menos turistas. E então, há que fazer tudo para denegrir, desacreditar o país que está sendo escolhido. As regras do liberalismo desenfreado são essas, quem pode carrega e vai, quem não pode carrega e cai.
Ora ao longo da sua história, Cabo Verde tem tido o azar de basear a sua economia sempre num único sector. E nenhum deles até agora dependente exclusivamente de nós, antes, sempre dependentes de contextos exógenos. Pensemos, por exemplo, na economia baseada no tráfico de escravos; ou na economia baseada no carvão do Porto Grande; sem esquecer a baseada na aviação na ilha do Sal.
A cidade de Ribeira Grande foi portentosa e grande produtora de riqueza. Até ao início da União Ibérica, com Portugal a perder a independência que garantia a passagem obrigatória por esse porto!
O Porto Grande foi de tal modo incomparável nos rendimentos resultantes do entreposto carvoeiro, que acabou sendo apelidado de “pulmão por onde Cabo Verde (e Portugal) respirava”. Porém, a cada vez maior autonomia dos vapores, sobretudo com o aparecimento do fuel oil, destronaram a nossa miragem de perene riqueza, ficou apenas a nostalgia de um vez sancente era sabe. E a aviação do Sal como fonte de grande riqueza teve história breve.
Ora em todas essas etapas da nossa vida nacional, o que devemos observar e reter e nos deve preocupar, é que temos sempre estado a estribar sobre algo que pode em certo momento ser abundante, mas que nunca vai depender do nosso controle a ponto de o definirmos como único sector da nossa subsistência.
Estamos cometendo o erro colossal de deixar todos os ovos no mesmo cesto, quando devia haver uma espécie de pacto de regime na urgente necessidade de se buscar formas de podermos fugir a essas eternas monoculturas que têm determinado a nossa História. (…) O país tem necessidade de investir num maior conhecimento de nós próprios e isso só através de estudos que congreguem nacionais dos diversos e diferentes ramos da ciência para se debruçarem sobre nós. (…) Precisamos regressar ao slogan dos claridosos, FINCAR OS PÉS NA TERRA!
Antes dessa canalha operação inglesa sobre um vírus que vale milhões de libras, já tínhamos tido uma primeira experiência com a covid 19 que deveria ter-nos servido de exemplo. De repente deixamos de ter turistas, e milhares de pessoas se viram no desemprego, com o país sem qualquer outra fonte de rendimento para além da mão estendida à caridade da comunidade internacional.
Aparentemente os diferentes governos por que o país tem passado não se têm mostrado muito preocupados em inventar formas de diversificação da nossa economia, sobretudo no presente tempo em que a monocultura do turismo mais parece ter enfeitiçado de tal maneira quem está no poder a ponto de terem perdido a capacidade de olhar para qualquer outro lado.
Ora o Turismo, o boom do Turismo faz muito lembrar o dinheiro de sacristão do nho Djunga, “cantando vem, cantando vai”. E estamos cometendo o erro colossal de deixar todos os ovos no mesmo cesto, quando devia haver uma espécie de pacto de regime na urgente necessidade de se buscar formas de podermos fugir a essas eternas monoculturas que têm determinado a nossa História.
O homem cabo-verdiano é criativo por natureza. Melhor, a natureza das ilhas obriga-o a ser criativo, se fosse de outro modo não teríamos conseguido sobreviver nestas ilhas. Então, torna-se necessário conhecer através de estudos sérios e aprofundados, e não apenas com base no empirismo, o que é possível fazer ou extrair da terra e passível de oferecer ao estrangeiro para além de sol e mar.
O país tem necessidade de investir num maior conhecimento de nós próprios e isso só através de estudos que congreguem nacionais dos diversos e diferentes ramos da ciência para se debruçarem sobre nós. O Encontro da Criolidade pode ser uma boa festa, porém um encontro da caboverdianidade está a fazer imensa falta. Precisamos regressar ao slogan dos claridosos, FINCAR OS PÉS NA TERRA!
O país não pode investir tanto na formação académica da sua juventude para os ver a trabalhar nas obras ou na restauração em Portugal. Ainda há dias viajei de Lisboa para S. Vicente, pedi apoio para atravessar o aeroporto, e quem me empurrou a cadeira foi uma jovem da Calheta de S. Miguel. Em conversa pelo caminho, disse-me que tem mestrado em Línguas e Literatura Estrangeira. E os colegas cabo-verdianos que ali estão basicamente a prestar o mesmo serviço, todos têm formação superior.
Ora sem pôr em causa o Encontro de Criolidade, um Encontro de Caboverdianidade sob o slogam “Vamos voltar a fincar os pés no nosso chão” está a fazer falta entre nós.



