PUB

Convidados

Trump não criou a crise: revelou a América

Por: Prof. Doutor Júlio C. de Carvalho*

Os Estados Unidos não se tornaram o que são por causa de Trump; Trump tornou-se possível porque a América já era assim. A sua ascensão política não surgiu do acaso nem de um desvio momentâneo da história, mas decorre de uma realidade social marcada por profundas fraturas. 

Assim, com Donald Trump no poder, ressentimento, medo, nacionalismo agressivo e desconfiança, antes contidos, passaram a ser expressos abertamente e sem constrangimento. O trumpismo não inventou essas tensões; apenas as institucionalizou e lhes conferiu legitimidade política.

Durante cerca de oitenta anos após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos ocuparam uma posição central na arquitetura da ordem internacional. Lideraram a criação de instituições multilaterais, estruturaram alianças estratégicas e impulsionaram mecanismos econômicos que asseguraram a reconstrução, o crescimento e a estabilidade globais. 

Essa liderança, embora sempre marcada por interesses próprios, sustentou um sistema relativamente previsível, no qual a palavra americana tinha peso e continuidade. Hoje, essa herança encontra-se seriamente comprometida.

Em pouco tempo, a conduta unilateral e errática do poder político americano corroeu a confiança internacional. Como resultado, aliados tradicionais passaram a questionar compromissos históricos, enquanto parceiros econômicos avaliam riscos antes inexistentes. 

Internamente, Trump não criou as falhas do sistema, mas explorou-as. A desigualdade econômica, o declínio industrial, o enfraquecimento da classe média, as tensões raciais e a perda de confiança nas instituições criaram um solo fértil para um discurso populista e excludente. 

Desse modo, o mundo observa um país disposto a abandonar as próprias regras. Assim, a liderança americana, antes vista como um eixo de estabilidade, tornou-se um fator de incerteza.

Internamente, Trump não criou as falhas do sistema, mas explorou-as. A desigualdade econômica, o declínio industrial, o enfraquecimento da classe média, as tensões raciais e a perda de confiança nas instituições criaram um solo fértil para um discurso populista e excludente. Em vez de promover diálogo ou reformas, acentuaram-se as divisões, trataram-se adversários como inimigos e substituiu-se o debate por um confronto constante. Rompeu-se o respeito às normas democráticas, às instituições e à ideia de limites ao poder. O resultado é um país cada vez mais polarizado, em que quase tudo se tornou objeto de disputa ideológica.

A experiência democrática americana, muitas vezes apresentada como modelo, exibe hoje sinais claros de desgaste. Partidos e cidadãos afastam-se, o compromisso com a verdade enfraquece e a política se transforma em um espetáculo permanente. 

Redes sociais e meios de comunicação partidários amplificam conflitos e reduzem temas complexos a slogans identitários. Cresce a percepção de que opiniões divergentes são tratadas como ameaças, e não como parte legítima do debate.

Nesse contexto, a crítica ao sistema é inevitável. Onde está o equilíbrio entre poderes que sempre marcou a democracia americana? Onde estão os líderes dispostos a defender a Constituição acima de interesses eleitorais imediatos? A postura da elite republicana, ora silenciosa, ora conivente, ora receosa, suscita dúvidas sobre a vitalidade das instituições. A questão não é só quem governa, mas se o sistema ainda pode autorregular-se.

O alerta é grave e ultrapassa as fronteiras dos Estados Unidos. Ao normalizar o desprezo por regras, instituições e compromissos internacionais, a América mina não só sua credibilidade democrática, mas também a estabilidade global. A história mostra que, quando uma potência abdica dos princípios que a sustentaram, o vazio resultante gera desordem, não ordem. 

Se os Estados Unidos não enfrentarem de forma honesta as próprias falhas, o custo será pago além de suas fronteiras, por um mundo que confiou, durante décadas, em sua previsibilidade e responsabilidade.

*Acadêmico e docente residente nos Estados Unidos.

PUB

Adicionar um comentário

Faça o seu comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

PUB

PUB

To Top