Morreu esta quinta-feira, 05, aos 83 anos, o escritor revolucionário da literatura portuguesa, António Lobo Antunes. Autor, com cerca de 40 livros editados em todo o mundo e o vencedor do Prémio Camões em 2007.
O escritor formou-se em medicina, mas foi a escrita, de acordo com o próprio, que fazia o seu ato de existir.
Perfil do António Lobo Antunes
António Lobo Antunes nasceu a 1 de setembro de 1942, na freguesia de Benfica, em Lisboa, no seio de uma família de alta burguesia.
O pai foi um destacado neurologista português. Estudou no Liceu Camões e licenciou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, em 1969 e especializou-se em Psiquiatria, depois do regresso da Guerra Colonial.
Lobo exerceu Medicina no Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa, passando a partir de 1985 a dedicar-se inteiramente à escrita.
Obras
António Lobo Antunes publicou os seus primeiros livros, em 1979 intitulados “Memória de Elefante” e “Os Cus de Judas”, seguindo-se, em 1980, “Conhecimento do Inferno”. As primeiras obras são marcadamente biográficas e estão muito ligadas ao contexto da Guerra Colonial, imediatamente o transformaram num dos autores contemporâneos mais lidos e discutidos, no âmbito nacional e internacional.
A obra seguinte, “Explicação dos Pássaros”, de 1981, também marcada pela prática da psiquiatria, da angústia e crueldade das personagens, confirmava a perspetiva de algo novo a acontecer, o que foi reafirmado por “Fado Alexandrino”, de 1983. Dois anos depois lançou o “Auto dos Danados”.
Sucedeu-se “As naus”, em 1988. Vieram depois “Tratado das paixões da alma” (1990), “A ordem natural das coisas” (1992), “A morte de Carlos Gardel” e “A história do hidroavião” em 1994, “Manual dos inquisidores” (1996) e “O esplendor de Portugal” (1997).
Em 1999, apresentou a “Exortação aos crocodilos”. Depois “Não entres tão depressa nessa noite escura” (2000), “Que farei quando tudo arde?” (2001), “Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo” (2003) e “Eu hei-de amar uma pedra” em 2004.
Lobo escreveu cerca de metade das suas obras nos últimos 20 anos: “Ontem não te vi em Babilónia” (2006), “O meu nome é Legião” (2007), “O arquipélago da insónia” (2008), “Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?” (2009), “Sôbolos rios que vão” (2010), “Comissão das lágrimas” (2011), “Não é meia noite quem quer” (2012), “Caminho como uma casa em chamas” (2014), “Da natureza dos deuses” (2015), “Para aquela que está sentada no escuro à minha espera” (2016), “Até que as pedras se tornem mais leves que a água” (2017), “A última porta antes da noite” (2018), “A outra margem do mar” (2019), “Diccionario da linguagem das flores” (2020), “O tamanho do mundo” (2022).
A sua mais recente obra, intitulada “Crónicas II”, chegou às livrarias a 24 de outubro do ano passado. Em abril deste ano, será publicado o seu último livro que tem como título “Poemas”, informou a editora Dom Quixote.
Prémios
Lobo foi colecionador de vários prémios foi duas vezes distinguido com o Grande Prémio de Romance e Novela da APE, recebeu também o Prémio D. Diniz da Fundação Casa de Mateus com o livro “Exortação aos crocodilos”, 1999, o Prémio Fernando Namora atribuído ao “Boa tarde às coisas aqui em baixo”, em 2004, o Prémio Alberto Pimenta de carreira, do Clube Literário do Porto (2008), o Prémio Autores (“Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar”, 2010), o Prémio Literário Fundação Inês de Castro (“O tamanho do mundo”, 2023).
Em França teve o Prix France Culture de Littérature Étrangère em 1996, por “A morte de Carlos Gardel”, e o Prémio de Melhor Livro Estrangeiro, por “Manual dos Inquisidores”, em 1997, romance também distinguido em Frankfurt, na Alemanha, como melhor obra traduzida, no mesmo ano.
Na Áustria, onde foi “convidado de honra” do Festival de Música de Salzburgo, recebeu em 2000 o Prémio de Literatura Europeia do Estado Austríaco. Em Espanha, teve os prémios Rosalía de Castro, em 2001, Terence Moix, em 2008, e o da Extremadura para a Criação, em 2009.
Em Itália, recebeu o Prémio Internacional União Latina, em 2003, o Nonino, em 2014, e o Prémio Bottari Lattes Grinzane, em 2018, enquanto na Roménia teve o Prémio Ovídio, em 2003.
O Estado de Israel entregou-lhe o Prémio Jerusalém, em 2004. No Chile recebeu, em 2006, o Prémio Iberoamericano José Donoso. O México deu-lhe o Prémio da Feira do Livro de Guadalajara (Juan Rulfo), em 2008.
A República Portuguesa condecorou-o com a Ordem da Liberdade, em 2019, 15 anos depois do Grande Colar da Ordem de Sant’Iago da Espada. França deu-lhe o grau de Comendador da Ordem das Artes e Letras, em 2008.
Decretado dia de luto nacional
O Governo português aprovou, em Conselho de Ministros, um dia de luto nacional, a cumprir no próximo sábado, e o presidente da República vai atribuir o Grande-Colar da Ordem de Camões a António Lobo Antunes.
Cleidiane Tavares
C/ RTP Notícias



