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Cabo Verde está a ficar sem gente para trabalhar

Por: António Delgado Medina*

Os dados dos Recenseamentos Gerais da População e Habitação (RGPH) de 2010 e 2021, produzidos pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) deveriam ocupar um lugar central no debate público nacional. Não como mera estatística, mas como um sinal claro de alerta sobre o futuro do país. Em onze anos, Cabo Verde não  cresceu demograficamente. Pelo contrário, estagnou, redistribuiu-se de forma desigual entre ilhas e perdeu população jovem e ativa para o exterior.

Em 2010, o país contava com 491 683 habitantes. Em 2021, o número apurado foi de 491 233, o que representa uma variação negativa de 450 pessoas (-0,09%). Num país jovem e historicamente marcado por crescimento natural positivo, esta estagnação não é normal. É antes sintoma de fragilidades estruturais profundas, com impactos diretos na economia, no mercado de trabalho e na sustentabilidade social.

Esta evolução resulta da conjugação de três fenómenos interligados: a emigração internacional em larga escala, a migração interna desequilibrada entre ilhas e a queda acentuada da taxa de fecundidade, atualmente abaixo do nível de reposição populacional. O problema não é apenas demográfico; é económico e estratégico.

Os dados por ilha tornam a situação ainda mais evidente. Entre 2010 e 2021, várias ilhas registaram perdas populacionais significativas. Santo Antão perdeu 16,3% da sua população; o Fogo, 9,3%; o Maio, 9,7%; a Brava, 6,1%; e São Nicolau registou igualmente uma ligeira diminuição. 

Estes números não traduzem simples mobilidade voluntária. Traduzem um êxodo estrutural, sobretudo em territórios com economias pouco diversificadas, forte dependência do setor público e escassas oportunidades para os jovens. Em muitas destas ilhas, ficar tornou-se sinónimo de estagnação; sair, uma estratégia racional de sobrevivência.

Em contraste, Sal e Boa Vista registaram crescimento populacional expressivo, diretamente associado ao turismo e à construção civil. Entre 2010 e 2021, o Sal cresceu quase 29% e a Boa Vista mais de 39%. 

No entanto, trata-se de um crescimento frágil e dependente, assente sobretudo  em empregos sazonais, pouco qualificados e mal remunerados, altamente vulneráveis a choques externos, como a pandemia da COVID-19 demonstrou de forma inequívoca. Crescer demograficamente não significa, necessariamente, fixar população de forma sustentável.

Mais preocupante ainda é o facto de as duas principais ilhas do país não escaparem a esta tendência. Santiago passou de 273 919 habitantes, em 2010, para 271 580 em 2021. São Vicente manteve-se praticamente estagnada, com ligeira diminuição populacional. 

Estes dados revelam que mesmo os principais polos urbanos não conseguem reter jovens qualificados. A emigração internacional está a anular o crescimento natural, sobretudo entre jovens e mulheres em idade reprodutiva.

Cabo Verde está, assim, a perder capital humano que formou com recursos públicos, enfraquecendo a sua base produtiva e reforçando a dependência externa. O paradoxo é evidente:  o país investe em educação e formação, mas colhe os frutos fora do seu território.

Hoje, este fenómeno começa a produzir efeitos económicos visíveis. Sectores estratégicos como o turismo e a construção civil enfrentam crescentes dificuldades em recrutar trabalhadores. Falta mão de obra – não por ausência de pessoas, mas porque os salários praticados não acompanham o custo real de vida. Trabalhar deixou de garantir viver com dignidade, e emigrar tornou-se, para muitos, a única saída possível.

A este quadro soma-se a queda continuada da taxa de fecundidade, já abaixo dos dois filhos por mulher. Menos nascimentos hoje significam menos população ativa amanhã, envelhecimento acelerado e maior pressão sobre sistemas sociais ainda frágeis. Quando a baixa fecundidade se cruza com a emigração jovem, instala-se uma espiral demográfica negativa difícil de inverter sem políticas públicas estruturais.

Os censos de 2010 e 2021 mostram, portanto, um país que não cresce por dentro, que se esvazia nas ilhas periféricas, se concentra de forma desigual e exporta população ativa. Tudo isto ocorre sem uma política nacional coerente de regulação dos fenómenos migratórios, sem uma estratégia séria de desenvolvimento territorial equilibrado e sem uma revisão urgente da política salarial.

A migração faz parte da identidade cabo-verdiana. O problema surge quando deixa de ser escolha e passa a ser imposição. Os números são claros. Ignorá-los é prolongar a ilusão. Sem juventude, sem mão de obra e sem salários compatíveis com o custo de vida, não há desenvolvimento económico sustentável em Cabo Verde.

3 de março de 2026

*Geógrafo, doutorando em Ciências Sociais

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