O país que por estes dias atrai a ira e o fogo destruidor dos Estados Unidos e de Israel, e que preenche as primeiras páginas com a nomeação do novo Aiatola, tem uma das histórias mais antigas e complexas do mundo. Conhecido hoje como Irão, este país foi, durante milénios, o coração da antiga Pérsia, uma civilização que influenciou profundamente a política, a cultura, a religião e a arte de grande parte do mundo antigo e que continua a marcar essa forte identidade na região do Médio Oriente. Com a guerra levada a cabo por Trump, é o encontro na história do antigo império Persa e o actual “império americano”.
Muitos cinéfilos e amantes de banda desenhada deverão lembrar-se do filme “300” (2007, Zack Snyder), que retrata da invasão de Esparta pelo lendário rei da Pérsia, Xerxes I, interpretado pelo brasileiro Rodrigo Santoro. O exército invasor de muitos milhares de homens é travado, no estreito de Termópilas, por 300 valorosos espartanos, liderados pelo rei Leónidas. Xerxes I, que queria conquistar a Grécia inteira e governar o mundo, é hoje apontado como um dos maiores construtores do império persa, juntamente com Dario I (que também se pode ver no filme “Alexandre o Grande”, fugindo do campo de batalha, derrotado pelo jovem macedónio).
Ambos são os seguidores de Ciro, o Grande, que no século VI a.C., funda o primeiro grande império persa, fazendo da Pérsia a primeira grande potência militar da Antiguidade. Ou seja, pode dizer-se que os Estados Unidos são hoje aquilo que o Irão, quando ainda era o império Persa, foi há mais de 2 mil anos. Com Ciro, Dario I e Xerxes I, o império estendeu- -se da Índia até ao Mediterrâneo e ao Egipto. Os persas desenvolveram um sistema administrativo avançado, dividido em províncias chamadas satrapias, e criaram infraestruturas impressionantes, como a famosa Estrada Real.
O império também ficou conhecido pela relativa tolerância religiosa e cultural, algo raro para a época. Mas, como sucede com todos os impérios, acabou por cair no século IV a.C., quando foi conquistada por Alexandre, o Grande, durante as suas campanhas contra a Pérsia. A conquista macedónica trouxe forte influência grega à região. Após a morte de Alexandre, quando regressava do Oriente, o território foi disputado entre vários reinos sucessores, até que surgiram novos poderes persas. Um deles foi o Império Parta, que dominou a região durante vários séculos e tornou-se um importante rival do Império Romano. Os partas mantiveram muitas tradições persas e ajudaram a preservar a identidade cultural iraniana.
A época dos impérios
Mais tarde surgiu o Império Sassânida, fundado por Ardashir I no século III d.C. Este império representou um renascimento da cultura persa e tornou-se uma das grandes potências do mundo antigo. Durante este período, o zoroastrismo foi consolidado como religião oficial, e cidades como Ctesifonte floresceram como centros políticos e culturais. O império sassânida rivalizou constantemente com o Império Bizantino até ao século VII. Mas é a expansão do Islão que vai transformar profundamente a região, a partir do século VII, com a chegada dos árabes, que conquistam o território e promovem a islamização do que resta desse império, o que se irá fazer gradualmente.
No entanto, a força e a tradição da cultura persa, não cedem à língua e à cultura árabe, mantendo-se, mesmo recebendo a nova religião islâmica. A cultura persa será de novo posta à prova, durante as invasões mongóis, do exército de Gengis Khan, no século XIII, que destroem muitas cidades persas e matam muita gente. Seguem-se várias dinastias à frente do país, que incluem mongóis e turcos, até ao século XVI, quando Iamail I funda o império Safávida. Esta é uma fase da história fundamental, que chega até aos nossos dias, já que é quem estabelece o ramo xiita do islamismo como a religião oficial do Estado.
Como quase todos os impérios, a cultura desenvolve- -se e é determinante para fixar a identidade do seu povo. E é durante o reinado de Abbas I, que este império atinge o seu auge cultural e económico. A cidade de Isfahan, antiga capital e de imensas referências na literatura mundial, torna-se num dos centros urbanos mais impressionantes do mundo, conhecida pela sua arquitetura magnífica e pelos seus bazares. Uma tradição cultural que já vinha do passado, e que fez nascer uma das maiores tradições literárias do mundo.
Joaquim Arena
Leia a matéria na íntegra na Edição 967 do Jornal A Nação, de 12 de Março de 2026



