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A geração digital cabo-verdiana: Entre a promessa e o desafio do futuro

Por: Jorge Lopes*

Cabo  Verde tem hoje a geração mais escolarizada e digital da sua história. Transformar esse capital humano em desenvolvimento, porém, exige mais do que discurso: exige políticas públicas capazes de criar oportunidades reais para que a juventude participe na construção do próximo ciclo do país.

A emergência do debate sobre a nova geração

Nos últimos tempos, a expressão “Geração Z” entrou com naturalidade no vocabulário público cabo-verdiano. O tema passou a integrar debates académicos, conferências e reflexões institucionais de alto nível, sinal de que a sociedade cabo-verdiana começa a interrogar-se de forma mais sistemática sobre o papel da juventude na construção do próximo ciclo de desenvolvimento do país.

O conceito de Geração Z, amplamente utilizado na sociologia contemporânea, oferece um ponto de partida útil para essa análise. Contudo, ao aplicá-lo à realidade cabo-verdiana, torna-se indispensável fazer uma leitura contextualizada, que tenha em conta a demografia do país, o peso histórico da diáspora, o percurso da democratização e a rápida transformação digital da sociedade.

Mais do que importar categorias sociológicas produzidas noutras realidades, importa compreender de que forma a geração cabo-verdiana que cresceu na era digital está a moldar o país e que potencial representa para o seu futuro.

Um país jovem num mundo em transformação

Os dados do Recenseamento Geral da População e Habitação de 2021 mostram  que Cabo Verde continua a ser um país relativamente jovem. Com cerca de 483 mil habitantes, mais de metade da população tem menos de 30 anos e a idade média ronda os 24 anos.

Ao mesmo tempo, o país tornou-se predominantemente urbano: cerca de 72 % da população vive em cidades, sendo a Praia o principal polo demográfico. Este processo cria novas oportunidades de educação e mobilidade social, mas também desafios relacionados com o acesso ao emprego qualificado.

O que é, afinal, a chamada Geração Z?

Nos estudos sociológicos internacionais, a Geração Z designa os indivíduos nascidos aproximadamente entre 1995 e 2010 — a primeira geração verdadeiramente moldada pela internet, pelas redes sociais e pelos smartphones.

A literatura associa a esta geração características como forte literacia digital, consciência global, autenticidade e diversidade, menor apego a estruturas hierárquicas e preferência por formas de participação mais horizontais.

Estas características encontram eco na juventude cabo-verdiana. Contudo, a sua interpretação exige considerar a história recente do país, a dimensão da diáspora e as especificidades culturais de uma sociedade pequena e aberta ao mundo.

Mais do que replicar modelos externos, trata-se de reconhecer a emergência de uma geração cabo-verdiana profundamente digital, mas enraizada na identidade do país.

Educação: uma das grandes conquistas nacionais — e um novo desafio civilizacional

Nas últimas décadas, Cabo Verde realizou progressos notáveis na educação. O ensino básico foi praticamente universalizado, o ensino secundário expandiu-se e consolidou-se um sistema de ensino superior no país.

A juventude cabo-verdiana constitui hoje a geração mais escolarizada da história nacional. A taxa de alfabetização ultrapassa 88 % e a presença das raparigas no sistema educativo tem vindo a crescer de forma consistente.

Contudo, esses avanços trazem novos desafios. A transição entre escola e mercado de trabalho continua a ser um dos principais obstáculos enfrentados pelos jovens. Muitos concluem os seus estudos sem encontrar oportunidades profissionais compatíveis com as suas qualificações.

Mas existe também um desafio mais profundo e estrutural: a transformação do próprio paradigma da educação.

O mundo atravessa uma mudança tecnológica, económica e cultural sem precedentes. As sociedades do conhecimento exigem cada vez mais competências como pensamento crítico, criatividade, capacidade de inovação, aprendizagem contínua, literacia digital avançada.

Isso significa que a escola do século XXI não pode limitar-se a transmitir conteúdos. Ela deve formar jovens capazes de compreender, interpretar e transformar um mundo em permanente mudança.

Neste contexto, Cabo Verde enfrenta um desafio estratégico: adaptar o seu sistema educativo para preparar a juventude para os novos ciclos da economia digital, da inovação tecnológica, da sustentabilidade ambiental e da economia do conhecimento.

Mais do que formar diplomados, trata-se de formar cidadãos criativos, empreendedores e conscientes do seu papel na construção do país.

A revolução digital e os jovens cabo-verdianos

Se existe um elemento que aproxima claramente a juventude cabo-verdiana das tendências geracionais observadas noutras partes do mundo, esse elemento é a revolução digital.

Nas últimas duas décadas, Cabo Verde realizou progressos importantes no domínio das tecnologias da informação. A expansão da internet móvel e a digitalização de serviços públicos colocaram o país entre os mais avançados da África Ocidental em governação eletrónica.

Esse ambiente digital influenciou profundamente a juventude. O telemóvel tornou-se o principal instrumento de acesso à informação e as redes sociais transformaram-se em espaços de expressão e mobilização.

A juventude cabo-verdiana vive hoje numa realidade singular: profundamente enraizada na cultura crioula, mas permanentemente conectada ao mundo.  Mas para que essa ligação ao mundo se traduza plenamente em oportunidades para a nova geração, torna-se necessário olhar também para a forma como o país organiza o seu próprio ecossistema digital

Cabo Verde enfrenta um desafio estratégico: adaptar o seu sistema educativo para preparar a juventude para os novos ciclos da economia digital, da inovação tecnológica, da sustentabilidade ambiental e da economia do conhecimento. Mais do que formar diplomados, trata-se de formar cidadãos criativos, empreendedores e conscientes do seu papel na construção do país. (…) O verdadeiro desafio consiste, portanto, em assegurar que o talento que o país vem formando encontre um ecossistema económico capaz de o valorizar e mobilizar

Da ambição digital à criação real de oportunidades

Cabo Verde tem afirmado, de forma crescente, a ambição de construir uma economia digital dinâmica, inovadora e capaz de gerar novas oportunidades para a juventude.

Essa ambição é legítima e, em muitos aspetos, encontra bases reais no percurso que o país realizou nas últimas duas décadas que colocaram Cabo Verde entre os países africanos mais avançados neste domínio.

Esse percurso criou também algo ainda mais importante: um capital humano tecnológico nacional.

No entanto, a consolidação deste ecossistema exige um passo adicional.

Formar talento tecnológico é essencial; criar oportunidades para esse talento é uma escolha estratégica de desenvolvimento.

A experiência de outros países que apostaram estrategicamente na economia digital oferece algumas pistas importantes para esta reflexão. Economias hoje reconhecidas pela sua capacidade de inovação — como Estónia, Finlândia, Coreia do Sul, Israel ou Índia — compreenderam cedo que a construção de um setor tecnológico nacional não acontece por acaso. Ela resulta de uma visão estratégica que combina educação, inovação e políticas públicas inteligentes.

Entre os instrumentos mais eficazes utilizados por esses países destacam-se:

o uso da contratação pública como motor de desenvolvimento tecnológico

programas de transferência de conhecimento e capacitação nacional 

e a criação de espaço para que empresas nacionais cresçam participando em projetos estruturantes do próprio Estado.

Em economias pequenas e abertas, como a cabo-verdiana, o Estado é frequentemente o maior cliente do setor tecnológico. A forma como esse investimento é estruturado pode determinar se o país se limita a consumir tecnologia ou se consegue também desenvolver competências próprias.

Isso não significa fechar o país ao exterior. A cooperação internacional, a transferência de conhecimento e a participação de empresas estrangeiras são fundamentais num mundo globalizado.

Mas significa reconhecer que o investimento público em tecnologia deve também contribuir para fortalecer o ecossistema tecnológico nacional, sempre que existam competências locais capazes de participar nesses projetos.

Essa convergência reforça as capacidades tecnológicas nacionais e cria oportunidades para a juventude qualificada.

O verdadeiro desafio consiste, portanto, em assegurar que o talento que o país vem formando encontre um ecossistema económico capaz de o valorizar e mobilizar.

Quando educação, inovação e política tecnológica caminham na mesma direção, cria-se algo muito poderoso: um mercado de oportunidades que permite à juventude transformar conhecimento em desenvolvimento para o país.

O futuro digital de Cabo Verde dependerá menos da tecnologia que compramos e mais das oportunidades que criamos para o talento que formamos.

Num país que aposta cada vez mais na educação, na inovação e na economia digital, esta é uma reflexão que merece ser feita com serenidade e visão estratégica.

Mais do que uma questão de mercado, trata-se de uma questão de política pública e de visão de desenvolvimento.

Se Cabo Verde pretende afirmar-se como um polo de inovação e tecnologia no Atlântico, será necessário construir uma política digital que combine três dimensões essenciais:

abertura ao mundo

fortalecimento das capacidades nacionais

criação de oportunidades para a nova geração digital

Essa abordagem não beneficia apenas empresas ou setores específicos.

Ela beneficia sobretudo a juventude cabo-verdiana que hoje se prepara para construir o futuro do país.

A influência estruturante da diáspora

Nenhuma análise da juventude cabo-verdiana pode ignorar o papel central da diáspora.

Estima-se que o número de cabo-verdianos e descendentes no exterior seja equivalente ou mesmo superior à população residente no país.

As redes sociais intensificaram ainda mais essa ligação. Hoje, a juventude cabo-verdiana participa numa verdadeira comunidade atlântica digital, onde circulam ideias, tendências culturais, oportunidades económicas e projetos de vida.

Juventude e participação política: um fenómeno em transformação

Apesar da vitalidade cultural e da criatividade social que caracterizam a juventude cabo-verdiana, a relação dos jovens com as estruturas políticas formais apresenta algumas particularidades.

Como referido anteriormente, a juventude participa intensamente em diversas esferas da vida social — movimentos culturais, iniciativas comunitárias, projetos associativos, debates nas redes sociais e iniciativas empreendedoras.

Contudo, a sua participação nas estruturas políticas formais permanece relativamente limitada.

Os jovens mostram frequentemente algum distanciamento em relação a:

partidos políticos

instituições tradicionais

formas clássicas de militância

Este fenómeno não é exclusivo de Cabo Verde. Ele tem sido observado em várias democracias contemporâneas. No entanto, no contexto cabo-verdiano, algumas motivações específicas podem ajudar a compreendê-lo.

Uma primeira razão prende-se com a transformação das formas de participação cívica. As novas gerações cresceram num ambiente digital onde a comunicação é imediata, horizontal e interativa. As estruturas políticas tradicionais, por natureza mais hierárquicas e formais, podem parecer-lhes distantes ou pouco permeáveis.

Uma segunda razão está ligada à perceção de eficácia da ação política. Muitos jovens demonstram interesse por causas concretas — ambiente, inclusão social, inovação, oportunidades económicas — e tendem a privilegiar formas de intervenção direta ou comunitária que produzam resultados tangíveis.

Uma terceira razão prende-se com as expectativas sociais e económicas. A dificuldade de acesso a emprego qualificado ou oportunidades de mobilidade social pode gerar alguma desconfiança em relação às instituições.

Importa sublinhar que este distanciamento não significa desinteresse pela vida pública. Pelo contrário, muitas vezes revela uma procura por novas formas de participação democrática.

As novas gerações valorizam cada vez mais:

-transparência

-participação direta

-impacto real das políticas públicas

-espaços de diálogo e co-criação.

Esse fenómeno pode, aliás, representar uma oportunidade de renovação democrática, abrindo caminho a formas mais participativas e inclusivas de governação.

O desafio estratégico: políticas públicas para uma geração que pode reinventar o país

A juventude cabo-verdiana possui características que podem desempenhar um papel decisivo no futuro do país. Trata-se de uma geração que cresceu num ambiente digital, criativo e globalizado e que reúne condições inéditas na história nacional: nasceu em democracia, beneficiou de uma expansão significativa da educação e desenvolve-se num país cada vez mais conectado ao mundo.

Contudo, para que esse potencial se traduza em transformação real, será necessário reforçar políticas públicas capazes de transformar talento em oportunidade. Isso implica, antes de mais, adaptar o sistema educativo às competências do século XXI — ciência, tecnologia, inovação, literacia digital, pensamento crítico e criatividade — tornando a escola um espaço de experimentação e preparação para uma economia baseada no conhecimento.

Ao mesmo tempo, importa consolidar um ecossistema de inovação e empreendedorismo tecnológico que permita integrar Cabo Verde nas dinâmicas da economia digital global. O reforço da ligação entre juventude e diáspora, a criação de novos espaços de participação cívica e uma política tecnológica que valorize as competências nacionais podem contribuir para gerar oportunidades concretas para as novas gerações.

Se o país souber criar estas condições — na educação, na inovação, na economia e na participação democrática — a geração que hoje cresce em Cabo Verde poderá tornar-se a principal força de transformação nacional nas próximas décadas.

O verdadeiro desafio do presente é garantir que a juventude cabo-verdiana não seja apenas promessa  de futuro, mas protagonista do desenvolvimento do país já no presente. Porque, no final de contas, o futuro de Cabo Verde dependerá menos dos recursos que possui e mais da capacidade de mobilizar o talento, a criatividade e a energia da sua própria geração.

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