
Por: Prof. Dr. Júlio C. de Carvalho*
Tendo vivido na Guiné-Bissau durante dois anos como professor, e tendo regressado recentemente para colaborar numa formação na área de gestão do conhecimento no Instituto de Defesa Nacional, escrevo a partir de uma experiência concreta, feita de convivência, aprendizagem e profundo respeito pelas pessoas e instituições do país.
A Guiné-Bissau não pode ser reduzida a narrativas simplistas. Ao longo da minha vivência, encontrei profissionais sérios, comprometidos e resilientes, que, em diferentes setores, trabalham diariamente para fortalecer o seu país. Há desafios, como em qualquer processo de construção nacional, mas também capacidade e vontade de fazer cumprir a Guiné-Bissau.
É neste contexto que devemos olhar para a relação com Cabo Verde. Os dois países partilham uma história única, marcada pela luta comum pela independência, sob a liderança de Amílcar Cabral e de seus companheiros da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. Essa herança não deve ser evocada para criar hierarquias, mas sim para reforçar um sentimento de fraternidade, de responsabilidade partilhada e de destino comum.
Hoje, mais do que nunca, impõe-se uma solidariedade real, algo que não se limita a discursos, mas se traduz em ações concretas, construídas com respeito mútuo e escuta ativa. Uma solidariedade que reconhece que cada país tem o seu percurso, as suas especificidades e as suas soluções.
As experiências de cooperação, como a recente formação no Instituto de Defesa Nacional, mostram que o caminho mais produtivo é o da partilha de conhecimentos e da aprendizagem recíproca. Não se trata de ensinar ou corrigir, mas de construir juntos, valorizando saberes locais e experiências diversas.
Neste quadro, Cabo Verde pode, em conjunto com a Guiné-Bissau, reforçar a sua voz junto de instâncias internacionais como a Organização das Nações Unidas, a União Africana e a CEDEAO, no sentido de mobilizar apoios e criar condições que ajudem o país a ultrapassar os desafios atuais. Esse esforço deve ser realizado em parceria, respeitando plenamente a soberania e as dinâmicas internas da Guiné-Bissau.
Mais do que intervenções isoladas, o que se exige é um compromisso contínuo, humano e solidário. Um compromisso que coloca no centro as pessoas porque são os cidadãos guineenses que, com a sua dignidade e resiliência, dão sentido a qualquer processo de desenvolvimento da terra deles.
A solidariedade entre Cabo Verde e Guiné-Bissau não deve ser entendida como uma obrigação unilateral, mas como uma responsabilidade partilhada, enraizada na história e projetada para o futuro. Um caminho feito de cooperação sincera, respeito profundo e confiança mútua.
Porque, no essencial, importa reconhecer que os destinos dos dois povos permanecem interligados e que é na ação conjunta, e não isolada, que se pode construir um futuro mais estável, justo e humano, particularmente para o povo da Guiné-Bissau. Neste contexto, Cabo Verde deve assumir uma postura mais proativa, atuando sempre em estreita concertação com as autoridades guineenses, no sentido de contribuir para que este país irmão ultrapasse os desafios atuais que enfrenta. Afinal, mais do que parceiros, somos povos irmãos, unidos por uma história e por responsabilidades comuns.
* Académico e docente residente nos Estados Unidos, o Prof. Dr. Julio C. de Carvalho exerceu funções como professor de inglês nas escolas públicas da Guiné-Bissau nos anos letivos de 1988/1989 e 1989/1990, onde recebeu a sua primeira equivalência de bacharel. Paralelamente, lecionou inglês, espanhol e português na Escola Francesa da Guiné-Bissau. Militante da UCID, foi indicado para liderar a lista do partido no círculo de África nas eleições legislativas de maio de 2026.



