PUB

Convidados

Fecha-se Ormuz, Cabo Verde sente no prato

Por: Anyse Pereira*

Na última semana de fevereiro, os Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra alvos iranianos. Em poucos dias, o Estreito de Ormuz — a passagem marítima por onde circula cerca de um quinto do petróleo transportado por mar no mundo — entrou em bloqueio operacional. Navios comerciais suspenderam travessias, seguradoras elevaram drasticamente os prémios de guerra e vários armadores desviaram rotas para evitar o Golfo. 

No décimo segundo dia de confrontos, três embarcações comerciais foram atingidas nas proximidades do estreito, incluindo um cargueiro que se incendiou após um ataque. Nos mercados energéticos, a reacção foi imediata: o Brent, principal referência internacional para o preço do petróleo, ultrapassou momentaneamente os 119 dólares por barril antes de recuar.

À primeira vista, tudo isto parece distante de um arquipélago no Atlântico. Mas para economias altamente dependentes de importações, a geopolítica raramente permanece distante durante muito tempo. Em países onde grande parte da comida chega por navio, choques energéticos transformam-se rapidamente em choques alimentares — e a ligação entre o que acontece no Golfo Pérsico e o que chega ao prato em Cabo Verde é mais directa do que parece. 

A agricultura local satisfaz apenas entre 10% e 15% das necessidades alimentares internas, segundo o exame comercial da Organização Mundial do Comércio, e mais de 85% do que o arquipélago consome — arroz, trigo, milho, óleos alimentares e diversos produtos transformados — percorre rotas comerciais longas antes de chegar às ilhas.

A ligação entre o que acontece no Golfo Pérsico e o que chega ao prato em Cabo Verde é mais directa do que parece.

Essa dependência torna-se ainda mais visível quando se considera o papel da energia no sistema alimentar do arquipélago. Grande parte da água utilizada nas cidades e em parte da agricultura provém de processos de dessalinização que dependem intensamente de electricidade produzida sobretudo a partir de combustíveis fósseis importados. 

Quando o preço internacional do petróleo sobe, sobe o custo da electricidade; quando sobe a electricidade, sobe o custo da água; e quando a água encarece, encarece também a produção de alimentos num território já limitado pela escassez de recursos naturais. No primeiro trimestre de 2025, os combustíveis representaram 49,5% do valor total das importações de mercadorias, segundo o Instituto Nacional de Estatística. 

Em Cabo Verde, a factura energética e a factura alimentar são inseparáveis. O arquipélago pode não comprar directamente petróleo ao Irão ou aos países vizinhos, mas compra combustíveis e alimentos num sistema logístico global cujo preço é determinado por esse mesmo mercado, e quando Hormuz treme, o que se sente em portos como Roterdão, Lisboa ou Algeciras acaba inevitavelmente por chegar às ilhas com o próximo navio. É neste ponto que o debate deixa de ser apenas sobre preços e passa a ser sobre estratégia.

Em Cabo Verde, a factura energética e a factura alimentar são inseparáveis. O arquipélago pode não comprar directamente petróleo ao Irão ou aos países vizinhos, mas compra combustíveis e alimentos num sistema logístico global cujo preço é determinado por esse mesmo mercado, e quando Hormuz treme, o que se sente em portos como Roterdão, Lisboa ou Algeciras acaba inevitavelmente por chegar às ilhas com o próximo navio.

É neste ponto que o debate deixa de ser apenas sobre preços e passa a ser sobre estratégia. Nas últimas décadas, Cabo Verde conseguiu construir um sistema relativamente eficaz de segurança alimentar — importa alimentos de diferentes mercados, mantém cadeias comerciais estáveis e desenvolveu programas públicos destinados a proteger os grupos mais vulneráveis. Mas a segurança alimentar e a soberania alimentar são conceitos distintos, e a diferença entre ambos é precisamente o que episódios como o actual tornam mais visível. 

Em 2025, a produção nacional de milho — historicamente a base da agricultura do arquipélago — caiu para cerca de 1.100 toneladas, quase 40% abaixo da média dos anos anteriores, segundo dados da FAO divulgados no início de 2026. A pandemia, a guerra na Ucrânia e as secas consecutivas das últimas campanhas agrícolas foram cada uma tratada como conjuntura; o problema é que a conjuntura se tornou estrutural.

Em 2025, a produção nacional de milho caiu para cerca de 1.100 toneladas, quase 40% abaixo da média dos anos anteriores. A conjuntura tornou-se estrutural.

Para um arquipélago árido, a autossuficiência alimentar total nunca será um objectivo realista. Mas entre a dependência quase absoluta e a autossuficiência existe um espectro amplo de possibilidades que Cabo Verde ainda não explorou de forma sistemática. Algumas peças já começaram a surgir, ainda que de forma dispersa: programas de desenvolvimento rural apoiados por parceiros bilaterais e multilaterais, projectos de dessalinização associados a energias renováveis, experiências com agricultura protegida que mostram ser possível produzir hortícolas com muito menos água do que na agricultura tradicional. 

É essa também a principal dimensão geográfica que começa lentamente a ganhar relevância: em 2025, cerca de 11% das importações cabo-verdianas tiveram origem em países africanos, sobretudo da África Ocidental, com a Nigéria entre os fornecedores relevantes. O Senegal, produtor de petróleo e gás desde 2024 e com capacidade crescente em pesca e horticultura, está a menos de 600 quilómetros; uma linha marítima privada entre Cabo Verde, o Senegal e a Gâmbia foi inaugurada em Janeiro de 2025. São sinais de que uma diversificação possível já começou a esboçar-se nas estatísticas e nas rotas, mesmo antes de existir uma política que a enquadre.

O que falta, e o que crises como a actual tornam mais urgente, é uma arquitectura que articule estas peças: reservas alimentares estratégicas dimensionadas para absorver interrupções de abastecimento nos produtos essenciais, acordos bilaterais de fornecimento negociados fora dos picos de crise, e mecanismos de compras públicas que criem procura estável para o que se produz internamente.

Quando os choques se sucedem com a regularidade que a última década registou, uma política construída apenas para reagir deixou de ser suficiente.

É essa também a principal lição da última década. A pandemia interrompeu cadeias logísticas globais. Secas consecutivas afectaram a produção agrícola em várias ilhas. A guerra na Ucrânia perturbou mercados de cereais e fertilizantes. Agora, um conflito no Golfo volta a lembrar a fragilidade de uma das rotas energéticas mais importantes do planeta. 

Cada um destes episódios foi tratado como conjuntura — gerido com medidas de emergência, absorvido  com apoio externo, esquecido quando os preços recuaram. Para países altamente dependentes de importações, porém, esta leitura começa a tornar-se insustentável: quando os choques se sucedem com a regularidade que a última década registou, a excepção deixou de ser excepcional, e uma política construída apenas para reagir a crises deixou de ser suficiente para proteger o que está na mesa.

*Doutora

Especialista em adaptação climática e financiamento climático. Doutora em Gestão do Conhecimento Tropical pela Universidade Nova de Lisboa. Consultora de Coordenação Nacional do Fundo Verde para o Clima em Cabo Verde e Consultora Científica do Grupo de Trabalho II do IPCC.

PUB

Adicionar um comentário

Faça o seu comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

PUB

PUB

To Top