
Por: António Delgado Medina*
Cabo Verde continua a assistir, quase em silêncio, a um fenómeno que há décadas molda o seu território e o seu futuro: a saída contínua de pessoas das zonas rurais para os centros urbanos e para o exterior. A ilha de Santo Antão é hoje um dos exemplos mais claros dessa realidade.
Mas afinal, por que razão tantas pessoas continuam a partir?
Uma das explicações mais consistentes vem da chamada teoria neoclássica da migração, amplamente estudada na economia. Segundo esta abordagem, as pessoas migram porque procuram melhorar as suas condições de vida.
A decisão de sair não é aleatória nem emocional é, acima de tudo, racional. Cada indivíduo ou família avalia custos e benefícios: se as oportunidades forem melhores fora, a partida torna-se quase inevitável.
É exatamente isso que tem acontecido em Santo Antão. Numa ilha marcada por limitações estruturais – escassez de água, relevo acidentado e poucas oportunidades económicas – a população, sobretudo jovem, vê-se confrontada com uma escolha difícil: permanecer e enfrentar a incerteza ou partir em busca de melhores condições. Na maioria dos casos, a decisão é clara.
Mesmo quando o destino apresenta riscos – como o desemprego urbano – muitos continuam a sair. Porquê? Porque não comparam apenas a realidade atual, mas sim aquilo que podem vir a ganhar.
É o chamado “salário esperado”: a possibilidade, ainda que incerta, de encontrar melhores rendimentos e uma vida mais digna. Como explica Michael P. Todaro (1969), “a migração rural-urbana ocorre mesmo na presença de elevado desemprego urbano, porque os indivíduos baseiam a sua decisão no rendimento esperado”.
É por isso que cidades como Praia, Mindelo ou mesmo a ilha do Sal continuam a atrair jovens de Santo Antão. E é também por isso que muitos cabo-verdianos continuam a emigrar para a Europa ou outros destinos internacionais.
O problema é que este movimento não é apenas uma escolha individual. Ele reflete falhas estruturais profundas.
Quando uma região perde sistematicamente os seus jovens, não estamos apenas perante uma decisão económica – estamos perante um sinal claro de ausência de políticas eficazes de desenvolvimento. A falta de investimento na agricultura, na gestão da água, na criação de emprego e na diversificação económica transforma a migração numa estratégia de sobrevivência.
Como alertam Michael P. Todaro e Stephen C. Smith (2006), sem investimentos consistentes em desenvolvimento rural e criação de emprego, “as regiões mais pobres tendem a continuar a perder população para áreas mais dinâmicas”.
Santo Antão não “expulsa” a sua população por acaso. Fá-lo porque não consegue oferecer alternativas.
Ao longo do tempo, este processo gera um ciclo preocupante: menos população ativa, menor dinamismo económico, mais envelhecimento e maior dependência externa. As zonas rurais esvaziam-se, enquanto os centros urbanos enfrentam pressão crescente sobre serviços, emprego e habitação.
Ainda assim, a teoria económica, por si só, não explica tudo.
A decisão de migrar não é apenas uma conta matemática. Existem redes familiares, laços culturais, expectativas sociais e até pressões simbólicas que influenciam esse processo. Muitos partem porque outros já partiram. Porque há histórias de sucesso no exterior. Porque ficar, muitas vezes, significa estagnar. Como sublinha Douglas S. Massey et al. (1993), “as teorias económicas da migração explicam apenas parte do fenómeno, ignorando fatores sociais, culturais e institucionais”.
Mas há uma questão que precisa de ser colocada com coragem:
Até quando Cabo Verde continuará a formar jovens para exportação?
Se não houver uma mudança estrutural – com políticas públicas consistentes, investimento nas economias locais e valorização das regiões rurais – país continuará a perder aquilo que tem de mais valioso: a sua juventude.
E quando os jovens partem, não é apenas a população que diminui. É o futuro que se esvazia.
17 de março de 2026
*Geógrafo, doutorando em Ciências Sociais



