O Grupo XPRESSA – Escola de Teatro volta a apresentar a peça “Sozinha em Palco” sábado e domingo, 28 e 29, integrada na programação do Março Mês do Teatro em São Vicente. A iniciativa é promovida pela Associação Mindelact em parceria com os grupos da ilha.
A obra, escrita por Mário Lúcio Sousa e encenação de Di Fortes, acompanha a trajectória de Maria, uma empregada doméstica nascida em São Tomé e Príncipe e criada pelo tio Desidério. No seu primeiro dia de trabalho na casa da família Império, Maria revive memórias da infância e dá voz às suas múltiplas personalidades. Definindo-se como uma “mulher avulsa”, multifacetada e sonhadora, Maria expõe em cena o desejo profundo de se tornar actriz de teatro.
Um palco de resistência
A reposição de “Sozinha em Palco” não é apenas um regresso artístico: é também um acto de resistência cultural. Num contexto em que os grupos locais enfrentam dificuldades de financiamento, escassez de espaços adequados e falta de políticas públicas consistentes para as artes cénicas, o XPRESSA reafirma o seu papel como escola de formação e laboratório criativo.
Ao trazer de volta uma obra que cruza memória pessoal e identidade colectiva, o grupo sublinha a importância de manter viva a dramaturgia cabo-verdiana e de dar voz a personagens que refletem as tensões sociais e culturais do arquipélago.
Entre sonho e realidade
“Maria”, a protagonista, sonha ser actriz de teatro. Esse sonho, exposto em cena, ecoa o desejo colectivo de muitos jovens artistas cabo-verdianos que encontram no palco um espaço de afirmação, mas que enfrentam barreiras estruturais para transformar vocação em profissão. A peça, ao dar corpo a esse dilema, torna-se metáfora da própria luta do teatro mindelense: persistir, reinventar-se e resistir, mesmo quando os apoios são frágeis e os desafios se multiplicam.
O papel da Mindelact
Março Mês do Teatro tem-se consolidado como um dos momentos centrais da agenda cultural de São Vicente, funcionando como plataforma de visibilidade para companhias locais e nacionais. A Mindelact, ao articular esta programação, assume uma função de mediação cultural que vai além da celebração: cria espaço para que o teatro dialogue com os problemas estruturais da sociedade cabo-verdiana e com a necessidade de políticas culturais mais robustas.
Ficha técnica
– Dramaturgia: Mário Lúcio Sousa
– Encenação e Direção: Di Fortes
– Elenco: Rosy Varela, Silvia Monteiro, Su Silva, Bárbara Fortes
– Direção de Cena: Danisa Araújo
– Música original: Mário Lúcio Sousa
– Iluminação: Péricles Silva
– Som: David Medina
– Figurinos e cenografia: Criação coletiva
– Equipa de apoio: Patricia Silva, Polibel Rodrigues, Yeda Cristy
João A. do Rosário
Publicado na Edição 969 do Jornal A Nação, de 26 de Março de 2026



