Na sexta-feira, 27 de Março, no Mindelo, o grupo Sikinada subiu ao palco no Mindelo para, desta feita, receber o Prémio Mérito Teatral 2026 atribuído pela Associação Mindelact. Para João Paulo Brito, director da companhia que já leva vinte anos, a distinção é motivo de orgulho, mas também de alerta: “Há menos grupos, menos actores e, consequentemente, menos qualidade teatral” em Cabo Verde.
Ao fim de vinte anos de dedicação ao teatro, o grupo Sikinada recebe agora o Prémio Mérito Teatral 2026. Que significado tem para vocês esta distinção, tanto no plano artístico como humano?
Tem muito significado, pois é um reconhecimento feito pelos associados do Mindelact, portanto, gentes do teatro: actores, encenadores, dramaturgos e outros, que reconhecem a qualidade e consistência do nosso trabalho nesses últimos vinte anos. É, também, a única premiação ou reconhecimento formal das artes de palco que existe no nosso país e que já foi atribuído a importantes figuras e instituições desde a sua criação.
Principais marcos
O reconhecimento não surge por acaso. Que principais marcos, projectos ou apostas considera que foram decisivos para que o grupo merecesse esta distinção?
Eu diria que a nossa última peça, “Cabral, A Última Lua de Homem Grande” [baseada no romance com o mesmo nome, de Mário Lúcio Sousa], será porventura o maior projecto que já realizamos, pelo tema, pela ambição artística, pelos custos associados e pela e recepção que vai tendo no país e no estrangeiro. Mas, naturalmente, não acontece por acaso. Acontece no momento certo e reflecte a maturidade alcançada pela nossa companhia. Todos os projectos que o antecederam contribuíram para a consolidação da companhia, para a afirmação de uma marca, para a acumulação de experiência, conhecimento e reforço dos nossos objectivos. Entendo a distinção como reconhecimento de um percurso sólido e contínuo crescimento.
Qual tem sido o papel do Sikinada na cena teatral cabo-verdiana? Em que medida o grupo contribuiu para moldar ou enriquecer as artes cénicas no país?
Acredito que o Sikinada tem dado a sua contribuição para o teatro cabo-verdiano de diversas formas. Para começar, num contexto em que a maior parte dos grupos que existiam há 10 anos, por exemplo, deixaram de existir, serve de inspiração a quem tem esse bichinho e quer fazer teatro. No fundo, faz com que as pessoas acreditem que é possível. Segundo, acredito que serve como referência, pela qualidade que os nossos trabalhos, acredito, têm. E terceiro, a internacionalização – para além dos palcos nacionais, já estivemos, nalguns casos mais de uma vez, no Brasil, em Portugal, Macau, Guiné-Bissau e Moçambique – temos funcionado com embaixadores, abrindo portas para outros projectos teatrais cabo-verdianos.
Um nome que resulta de uma brincadeira
Como nasceu o grupo Sikinada e que identidade artística o define? O nome “Sikinada” traduz que espírito ou mensagem?
Com certeza. Sikinada, com “i” depois do “s” é uma “brincadeira” entre duas palavras gráfica e foneticamente próximas: “Skène”, palavra grega que significava o “lugar da actuação” no teatro clássico grego e que está na base das palavras cena ou cenário, por exemplo; e “sikinada” uma palavra do crioulo da variante de Santiago, que significa impulso, arranque, portanto “acção”, associado a ator, ato, entre outros termos teatrais. No fundo o que nos propusemos é fazer um teatro com raízes cabo-verdianas, mas universal, simbolizado pelo teatro grego.
Nos definimos como uma companhia de teatro cabo- -verdiano contemporâneo. Tentamos manter-nos firmes nessa linha, através dos projectos que desenvolvemos, das parcerias que estabelecemos, dos artistas (músicos, dramaturgos, artistas plásticos e visuais…) com quem trabalhamos. Os nossos processos são longos e isso nos interessa. É um momento de reflexão crítica sobre o que falamos e sobre a forma como o fazemos. Daí demorarmos sempre muito tempo para estrear novas peças. Cada um de nós vai integrando projectos artísticos diversos e interessantes, mas Sikinada só aparece associado a um projecto que seja teatral, que parte de um questionamento que nos pareça pertinente para o nosso espaço e tempo e que envolva criadores cabo-verdianos sobretudo.
João A. do Rosário
Leia a matéria na íntegra na Edição 969 do Jornal A Nação, de 26 de Março de 2026



