PUB

Convidados

Guiné-Bissau Merece Mais: Um Apelo à Consciência Africana e Global

Por: Prof. Doutor Júlio C. de Carvalho*

A história ensina-nos que nenhuma nação se constrói isoladamente e que os momentos mais difíceis exigem não apenas resiliência interna, mas também solidariedade externa. A Guiné-Bissau, berço de uma das mais emblemáticas lutas de libertação do continente africano, encontra-se hoje diante de desafios complexos que exigem uma resposta urgente, coordenada e profundamente humana.

Como disse Amílcar Cabral, “dizer a verdade é um ato revolucionário.” E a verdade é que a Guiné-Bissau merece mais, mais atenção, mais solidariedade, mais compromisso. Não apenas por aquilo que enfrenta hoje, mas, sobretudo, pelo que já ofereceu ao continente africano e ao mundo pan-africano.

Enquanto africano de origem cabo-verdiana e cidadão americano naturalizado, revejo-me profundamente pelos desafios atuais da Guiné-Bissau. Estes desafios não são apenas guineenses; são africanos, são nossos. A interligação histórica, cultural e política entre Cabo Verde e a Guiné-Bissau não pode ser ignorada, nem minimizada. Como bem nos lembra um provérbio africano: “Se queres ir rápido, vai sozinho; se queres ir longe, vai acompanhado.” A Guiné-Bissau precisa de companhia firme, comprometida e consciente.

A realidade geopolítica atual coloca a Guiné-Bissau numa posição delicada. Inserido numa sub-região marcada por instabilidades políticas, pressões económicas e influências externas diversas, o país enfrenta desafios que vão além das suas fronteiras. Contudo, diferentemente de outros contextos regionais, a Guiné-Bissau carrega um legado histórico singular que deve ser respeitado e valorizado. Não podemos permitir que o país seja tratado como um caso isolado. Pelo contrário, deve ser encarado como uma prioridade estratégica em contextos africanos e internacionais. A União Africana, a CEDEAO, as Nações Unidas e outros parceiros internacionais têm uma responsabilidade clara: apoiar de forma consistente, respeitosa e sustentável os esforços de estabilização, desenvolvimento e fortalecimento institucional do país.

Cabo Verde, em particular, tem um papel moral e histórico incontornável. A ligação entre os dois povos não é apenas política; é profundamente identitária. Impõe-se, portanto, em estreita articulação com as autoridades guineenses, que Cabo Verde reforce o seu envolvimento diplomático, técnico e humano, contribuindo de forma ativa e consistente para a edificação de soluções sustentáveis e duradouras.

Ao longo dos anos, tenho acumulado um conhecimento profundo, tanto tácito quanto explícito, da realidade guineense. Conheço as suas potencialidades, a força do seu povo, a riqueza da sua cultura e a resiliência das suas comunidades. A Guiné-Bissau não é definida pelos seus desafios, mas sim pela capacidade extraordinária dos seus filhos e filhas de resistir, criar e sonhar.

Os guineenses têm contribuído significativamente para a cultura, a educação, a política e o desenvolvimento do continente africano. São um povo de dignidade, coragem e esperança. E é precisamente essa esperança que deve ser alimentada, protegida e transformada em ação concreta. Kwame Nkrumah dizia: “A independência de Gana é inútil a menos que esteja ligada à libertação total de África.” Hoje, poderíamos adaptar esta reflexão: o progresso de África será incompleto enquanto países como a Guiné-Bissau não alcançarem estabilidade plena e desenvolvimento sustentável.

Trata-se, portanto, de um apelo que transcende as autoridades guineenses, dirigindo-se igualmente aos líderes africanos e à comunidade internacional. Um apelo à responsabilidade coletiva, à urgência na ação, ao respeito mútuo e à empatia solidária. Não é admissível uma postura passiva; a inação configura, em si mesma, uma forma de abandono.

A Guiné-Bissau precisa dos seus filhos, dos seus irmãos africanos e dos seus parceiros internacionais. Precisa de solidariedade genuína, de políticas inclusivas, de investimentos estratégicos e de uma nova “cantiga” — uma “cantiga” de esperança, de reconstrução e de dignidade. Como africanos, temos o dever de não esquecer. Como cidadãos do mundo, temos a responsabilidade de agir. Porque, no final, como diz um provérbio africano: “A mão que dá é a mesma que recebe.” E ao estendermos a mão à Guiné-Bissau, estaremos, na verdade, a fortalecer toda a África. A Guiné-Bissau merece mais. E o momento de agir é agora.

 

*Académico e docente residente nos Estados Unidos, o Professor Doutor Júlio C. de Carvalho desempenhou funções como professor de língua inglesa nas escolas públicas da Guiné-Bissau durante os anos letivos de 1988/1989 e 1989/1990, período no qual obteve a sua primeira equivalência ao grau de bacharel. Paralelamente, exerceu atividade docente na Escola Francesa e Plubá, Guiné-Bissau, onde lecionou inglês, espanhol e português, contribuindo para a formação linguística em contexto internacional e multicultural. É autor da obra Winds of the Atlantic: My Journey Through Struggle and Hope (Ventos do Atlântico: Minha Jornada de Luta e da Esperança), disponível na plataforma da Amazon. A obra destaca a centralidade geopolítica, histórica e cultural da sub-região da África Ocidental, com base numa experiência vívida de mais de cinco anos em diversos países da região, incluindo uma permanência de dois anos na Guiné-Bissau.

PUB

PUB

PUB

To Top