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Cultura

KJF 2026: Música de intervenção pela paz, onde os sons de África fizeram a diferença

Chegou ao fim mais uma edição do Kriol Jazz Festival, a décima quinta. A última noite, este sábado,12, ficou marcada pelos ritmos e plasticidade sonora diversificada do pulsar de África e suas fusões, numa forte mensagem de apelo à paz no continente e no mundo, trazida pela presença e música do reconhecido Ismael Lo, que pisou pela segunda vez o palco do festival.

Tal como tem sido habitual nas edições anteriores, a noite de sábado, a segunda do dia de festival pago do KJF, teve enchente, casa cheia, num ambiente de festa, celebração, dança e convívio entre os amantes do jazz crioulo e suas fusões.

Entre a diversão, como tem sido tónica, houve espaço para mensagens de paz e união dos povos, aliás, como já tinha sido feito na sexta-feira anterior, pela baiana Margareth Menezes

Mas, os ritmos de África dominaram e fizeram render o público num desfile de artistas, intérpretes, performers e músicos de grande qualidade, também nesta última noite, com o público sempre a dançar e a interagir com as bandas que compuseram o cartaz desta noite.

Fattú Jakité, um furacão do mundo

Quando passavam poucos minutos das 20h30, Fattú Jakité abriu a noite e entrou em cena com toda a força e energia de um verdadeiro furacão, cantando e encantando com o seu “vozeirão” inconfundível.

Guiné Bissau e Cabo Verde estiveram mais uma vez em destaque no seu concerto, onde houve espaço para músicas já bem conhecidas como “Madalena” ou “Badja Tina”. Esta última, que aborda o tema do casamento forçado infantil, como a artista realçou depois em entrevista aos jornalistas.

Consciente do seu valor e sem falsas modéstias, Fattú Djakité não escondeu que nos últimos anos tem vindo a se preparar para os palcos do mundo e que por detrás disso há toda uma consciência artística e social. Por isso, a palavra “gratidão” é o que sente por ter pisado o palco. Reflexo, também, de uma evolução enquanto artista. “Evolui muito, em termos de pensamento, em termos da mensagem que quero passar e dar ao público, então sinto que estou em constante evolução (…)”.

Ismael e o apelo a uma África próspera

De Cabo Verde e Guiné Bissau, para o Senegal, os ritmos foram se intensificando com a entrada em palco de Ismael Lo, provavelmente a performance mais aguardada da noite e um dos motivos que levou muita gente ao recinto do KJF.

Dispensando qualquer apresentação, e pela segunda vez na cidade da Praia, e no KJF, o público vibrou e emocionou-se, ao som da sua música, num desfile de sucessos onde se destacou “Jammu África”, com toda a gente a dançar e a cantar em uníssono ao longo de pouco mais de uma hora de espectáculo.

O apelo à paz “em África, no mundo, no Irão” sobressaiu durante a sua actuação e foi reforçado, depois, em entrevista aos jornalistas após a sua actuação, onde apelou aquilo que deve ser o papel também dos artistas e suas mensagens. Nesse contexto, exortou aos jovens para lutarem por uma África “próspera”, pois, ele acredita que isso é possível. Sobre Cabo Verde, já se conhece a sua paixão pelo povo e cultura sendo sempre um “grande prazer” pisar o chão das ilhas e ser recebido tão calorosamente.

Ritmo e energia dos Brooklyn Funk Essentials

A mesma mensagem de paz, amor e união, foi trazida pelo grupo Brooklyn Funk Essentials, dos Estados Unidos da América. Destacaram-se igualmente pela qualidade sonora e capacidade vocal de Alison Limerick, acompanhada de um naipe de excelentes músicos.

Os sopros fizeram a diferença, até porque em palco esteve também a trompetista Jessica Pina, com origem na ilha do Fogo e que há 8 anos também já tinha pisado o palco do festival com Grace Évora.

A fusão entre o soul, hip-hop, jazz, house, spoken word e funk destacaram-se num espectáculo que pôs toda a gente a dançar do princípio ao fim.

Sons frenéticos de Marrocos fecharam a 15ª Edição do KJF

Mas, a surpresa da noite acabaria por vir de Marrocos, com a energia electrizante de Saad Tiouly. O espectáculo, difícil de descrever em palavras para quem não assistiu, reflete o trabalho que tem vindo a desenvolver ao longo da sua carreira, onde cresceu praticando estilos tradicionais como Gnaoua, Issawa e Dakka Marrakchia.

O resultado é uma fusão musical frenética, dançante e ao mesmo tempo contagiante, que privilegia a simbiose entre a música gnaoua e a música eletrônica, buscando criar novas paisagens sonoras, acompanhado de músicos/bailarinos que completam um espectáculo muito sui generis.

Sustentabilidade do festival

No cair do pano desta 15ª Edição do KJF, o produtor Djo da Silva, que tem sido muito crítico em relação à sustentabilidade e financiamento do festival, estava visivelmente feliz por mais uma missão cumprida de um festival de qualidade e de ver o público feliz.

Contudo, em entrevista aos jornalistas em jeito de balanço não escondeu que o futuro do festival vai depender do contexto político e do apoio institucional após as eleições deste ano, especialmente das legislativas de 17 de Maio próximo.

Recorde-se que em 2025, o festival perdeu o apoio financeiro da Câmara Municipal da Praia, mas este ano o nome da autarquia voltou a ser citado no rol de patrocinadores.

Polémicas à parte, o certo é que o KJF já é uma referência no contexto dos festivais da especialidade dentro e fora do continente e à semelhança do Atlantic Music Expo (AME), que o antecede, representa um importante activo para a economia local de forma transversal além de se afirmarem como uma montra da diversidade cultural e da música das ilhas e uma oportunidade de exportação de músicos e artistas nacionais.

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