No dia 24 de Março, Cabo Verde realizou o seu primeiro transplante renal, no Hospital da Praia, encontrando-se o paciente e o dador em franca recuperação. Esse acontecimento, doravante um marco na história da medicina cabo-verdiana, trouxe à memória outras histórias de coragem e solidariedade que, embora ocorridas fora do país, continuam a inspirar. Entre elas, a de Carlos Tavares, que em 2010 ofereceu um rim ao músico Norberto Tavares.
Carlos Tavares relembra que o transplante a favor de Norberto Tavares aconteceu a 21 de Julho de 2010, em Boston, Estados Unidos, no Tufts Medical Center.
“Sim, fui o doador para o Norberto Tavares”, disse ao A NAÇÃO, sublinhando que, apesar da coincidência de apelido, não havia qualquer laço de parentesco entre os dois. “O meu gesto foi puramente humano”.
Norberto sobreviveu dois anos após o transplante, com muito mais qualidade de vida daquela que tinha, até sucumbir a um ataque cardiovascular, quando o rim ainda funcionava, normalmente. Ou seja, foi por outra razão que o autor de “Cabo Verde di sperança”, “Maria” e vários outros sucessos, que fizeram a alegria de gerações de cabo-verdianos, inclusive do seu dador, acabou por falecer.
Carlos Tavares recorda com emoção que, apenas três meses depois da cirurgia, casou-se em Outubro daquele mesmo ano de 2010, e Norberto esteve presente no seu casamento.
“O que fiz há 16 anos atrás faria o mesmo com qualquer pessoa”, afirma o nosso entrevistado, acrescentando que toda a história está registada no seu livro Recordar é Viver.
Ao saber que Cabo Verde se preparava para realizar o primeiro transplante renal, Carlos Tavares confessa ter ficado profundamente tocado: “Não imaginas como fiquei… porque o transplante salva muitas vidas”.
O processo, explica, é longo e exigente. O dador tem de estar em perfeita saúde e submeter-se a exames constantes. Carlos vivia em Rhode Island, enquanto Norberto em New Bedford, e ambos tinham de deslocar-se a Boston semanalmente.
“Eu tinha de viajar mais de 50 milhas em jejum todas as semanas, e cada consulta não durava menos de três horas. «Eles passam-te a pente fino”, recorda, agradecendo o apoio do irmão de Norberto, Totó Tavares, também músico, que o transportava.
Apesar das dificuldades, Carlos insiste que doar um rim não limita a vida de ninguém. “Uma pessoa vive tranquila só com um rim, não tem limitação de nada”, explicou, alertando apenas para cuidados com os medicamentos anti-inflamatórios e a necessidade de informar sempre os médicos.
E, da sua experiência, ficou também uma lição curiosa: “Aprendi que no mundo, em cada 500 mil pessoas, uma nasce só com um rim”.
João A. do Rosário

