O capitão do navio a motor Nhô Padre Benjamim, que afundou ontem,14, ao largo da Preguiça, em São Nicolau, apontou a entrada de água pelo “car deck” do navio como a possível causa do seu afundamento.
Em declarações à imprensa, embora ainda abalado pelo acontecido, Salazar Fonseca começou por explicar que o navio partiu do porto da Palmeira, na ilha do Sal, em direcção ao porto do Tarrafal de São Nicolau, transportando britas e maquinarias pesadas.
Conforme explicou o navio estava carregado e estava “um pouco baixo, com a popa baixa, o que, com o início da viagem tem a tendência a baixar ainda mais e o mar estava com um pouco de vagas”.
O capitão avançou ainda que estava a entrar água pelo “car deck” e que a tribulação “demorou a se aperceber disso”, pois ficam geralmente no porão, contudo, logo que se depararam com a situação a tripulação tentou agir de todas as formas, fazendo a bombagem de água, mas “era uma quantidade maior do que daquela que conseguiam vencer”.
“Então, já não foi possível combater a tempo, tivemos que aproximar, fazer uma arribada para a Baía de Preguiça, para tentar dar combate à situação, mas, infelizmente, não conseguimos chegar a tempo e tive de abandonar a viagem. Embora seja um infortúnio, o que aconteceu não era suposto, pois ninguém trabalha para este tipo de situação que aconteceu”, lamentou.
Salazar Fonseca destacou que o mais “importante” que é a vida humana foi salvaguardada, com os 19 tripulantes e mais um passageiro a conseguirem ser resgatados com vida e sem nenhum outro problema.
Navio “único” em Cabo Verde para o tipo de serviço que prestava
Por outro lado, lamentou a perda da embarcação pois, segundo o mesmo, o navio “era ideal para o trabalho que efectua é o único do tipo em Cabo Verde” e fez votos que no futuro o país possa a vir a ter uma outra embarcação do tipo, pois deixa muita falta às empresas nacionais para transportar o tipo de carga e maquinário que transportava.
Depois de terem sido observados por uma equipa médica no pavilhão da Maiamona, na Ribeira Brava, os 20 ocupantes da embarcação foram transportados para a cidade do Tarrafal, onde nesta terça-feira, 15, vão ser ouvidos pelas autoridades marítimas.
Perfil do navio
“Nhô Padre Benjamim” é um navio com cabotagem de 90 por 18 metros, com capacidade para 319 contentores, para além de um calado baixo para facilitar as operações de carga e descarga.
O navio, de fabrico alemão, foi adquirido em 2015 com 35 anos, pela empresa Lusolines, pertencente ao grupo Agrícola Ilha Verde “em perfeitas condições de operacionalidade e de segurança, graças à manutenção constante e em dia, conforme frisaram os representantes da empresa dona do navio”.
C /Inforpress
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1 Comentário
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João de Deus
15 de Abril, 2025 at 14:24
O articulista teria prestado um melhor serviço à verdade se, antes de repetir o enredo conveniente dos operadores, tivesse investigado o histórico vergonhoso deste ferro-velho flutuante que atendia pelo nome Nhô Padre Benjamim.
A narrativa de que o navio foi adquirido “em perfeitas condições” em 2015 já seria risível por si só — tratava-se de uma sucata de 35 anos que, na verdade, chegou a Cabo Verde em estado deplorável, vendido como “pechincha de ocasião” por quem sabia bem que a sua reforma seria um poço sem fundo.
Mais ridículo ainda é omitir o episódio bem conhecido do suposto “refit internacional”, onde um dos sócios estrangeiros — um americano com faro aguçado para vigarices tropicais — terá comido o dinheiro da reparação no exterior sem realizar obra nenhuma. O navio voltou a navegar praticamente como veio: com maquilhagem de pintura e promessas ocas.
É bom lembrar que a própria tribulação dava sinais do medo com que operava o Nhô Padre Benjamim, sobretudo nas rotas com carga pesada. A entrada de água pelo car deck não foi um acaso do destino: foi a crónica de um naufrágio anunciado. E se o navio era “único” para esse tipo de transporte em Cabo Verde, talvez devêssemos interrogar por que razão o país se vê dependente de embarcações com meio século de idade para manter o tráfego inter-ilhas.
Um pouco de investigação, em vez de simples reprodução de declarações melancólicas de operadores e capitães em lágrimas, teria poupado o leitor à vergonha de ver mais uma tragédia em alto-mar transformada em acidente inevitável. Não foi. Foi consequência de irresponsabilidade, má fiscalização e ganância. E disso não se pode desviar o foco.