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Saúde

Cancro em Cabo Verde: Entre avanços e desafios crescentes

O cancro tem-se afirmado como um problema de saúde pública em Cabo Verde, sendo já a segunda principal causa de morte no país. O aumento da quantidade de casos, sobretudo em idades jovens, e o diagnóstico tardio têm aumentado a pressão sobre os serviços de saúde. Entre desafios técnicos, estigmas e limitações estruturais, o país quer apostar na descentralização dos serviços de diagnóstico e tratamento, na formação dos profissionais de saúde e no reforço do Registo Oncológico.

A nível mundial, o cancro é uma das principais causas de mortalidade, com milhões de novos casos diagnosticados anualmente. Em Cabo Verde, o panorama actual tem preocupado as autoridades e a sociedade em geral. Apesar de o país apresentar taxas de incidência inferiores às de outros países africanos, de acordo com a Coordenadora do Programa de Prevenção e Controlo das Doenças Oncológicas, Carla Barbosa, tem-se assistido a um aumento gradual do número de casos diagnosticados, “reflexo do envelhecimento populacional, mas também da melhoria na capacidade diagnóstica e do fortalecimento do Registo Oncológico Nacional”.

Coordenadora do Programa de Prevenção e Controlo das Doenças Oncológicas, Carla Barbosa

Criado em 2022, o sistema tem permitido monitorar a incidência e características do cancro e apoiar a distribuição de medicamentos. “Este instrumento é essencial para o planeamento e monitorização das políticas públicas, apoiando a definição de prioridades, o desenho dos programas de rastreio e a avaliação do impacto das intervenções”, considera a Coordenadora.

Neste contexto, Cabo Verde é membro do African Cancer Registry and Network (AFCRN), o que permite o alinhamento com os padrões internacionais de vigilância oncológica e o reforço da cooperação. O país integra ainda o Centro de Expertise do Registo de Cancro nos PALOP, e tem apoiado na formação e capacitação de técnicos de países como a Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe na implementação do registo.

Cancros da próstata e da mama lideram incidência

Carla Barbosa explica que os grupos mais vulneráveis ao cancro em Cabo Verde são pessoas acima dos 50 anos, especialmente homens, e mulheres em idade reprodutiva ou pós-menopausa. Entre os principais factores de risco, estão o consumo de álcool, tabagismo, obesidade, má alimentação e infeções crónicas como HPV e hepatites B e C. Além disso, o envelhecimento populacional e os estilos de vida têm contribuído para o aumento dos casos.

Em 2022, tinham sido registados 442 novos casos e, em 2023, de acordo com os dados preliminares, foram notificados 516 novos casos, sendo 53% em mulheres e 47% em homens.

Entre os homens, o cancro da próstata continua a ser o mais frequente e mortal, com uma incidência estimada de 35,5 por 100 mil habitantes e 50 mortes registadas em 2022. “O aumento da esperança de vida tem levado a mais casos. Além disso, muitos diagnósticos ocorrem em fases avançadas devido ao estigma e ao atraso na procura de cuidados médicos, o que contribui para a elevada taxa de mortalidade”, explica Carla Barbosa.

Nas mulheres, o cancro da mama domina o panorama, representando cerca de 17% dos casos diagnosticados e uma taxa de 34,4 por 100 mil habitantes. Segue- -se o cancro do colo do útero, com uma incidência de 17,4 por 100 mil habitantes.

Novas tendências e impacto entre os jovens

Segundo Carla Barbosa, o Registo Oncológico Nacional tem revelado algumas tendências. “O cancro da mama continua a ser o mais frequente entre as cabo-verdianas, e os dados apontam para um ligeiro aumento de casos em idades mais jovens, muitas vezes com características mais agressivas”, avança.

Em termos estatísticos, os dados indicam que quase um terço das mulheres diagnosticadas em 2023 tinha menos de 50 anos. “Em vários desses casos foram identificados tumores de alto grau ou formas hereditárias da doença, o que reforça a importância do diagnóstico precoce e do estudo genético”, explica a especialista. Esta tendência pode estar relacionada com fatores como alterações hormonais, obesidade, hábitos alimentares e histórico familiar.

Para fazer face a este panorama, tem-se procurado reforçar a formação dos profissionais de saúde e expandir os programas de rastreio. Além disso, o Hospital Universitário Dr. Agostinho Neto (HUAN), na cidade da Praia, criou a Unidade de Patologia Mamária e prepara a criação de consultas específicas de risco familiar, com o objetivo de identificar precocemente mulheres com predisposição genética e, assim, reduzir o impacto do cancro da mama nas idades mais jovens.

Entre os homens, além da próstata, destacam-se os tumores do aparelho digestivo, especialmente os do estômago, esófago e fígado, do pulmão e da bexiga, frequentemente associados ao tabagismo, consumo excessivo de álcool e infeções crónicas. Além disso, tem- -se registado casos de cancro do pénis. “Embora seja menos frequente, quando ocorre, está geralmente ligado à infeção pelo Vírus do Papiloma Humano (HPV), à falta de higiene adequada e ao diagnóstico tardio”, alerta Carla Barbosa.

Ilda Fortes

Leia a matéria na íntegra na Edição 952 do Jornal A Nação, de 27 de Novembro de 2025

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