
Por: José Pereira Miranda*
Boas Festas e Feliz Ano de 2026.
Permitam-me partilhar algumas reflexões sobre um tema que tem suscitado amplo debate nas redes sociais e em diversos espaços públicos, e que exige ponderação: o chamado crescimento de Cabo Verde.
É inegável que, para um povo que durante séculos enfrentou misérias profundas e a sina das emigrações forçadas — ora pela fome, ora pela ausência de trabalho sustentável, ora pela falta de salários justos —, viver hoje entre festas, festivais e luxos de toda ordem pode ser visto como sinal de progresso.
Contudo, ao observarmos a outra face da realidade, surgem preocupações que não podem ser ignoradas:
. O país enfrenta sérios problemas de sustentabilidade, dependendo fortemente do endividamento para sustentar o crescimento.
. Muitos cidadãos continuam a abandonar as ilhas em busca de oportunidades no exterior, frequentemente enfrentando dificuldades, por falta de emprego ou de salários dignos em Cabo Verde.
. O Estado vê-se, muitas vezes, obrigado a negociar a reconversão das dívidas, por incapacidade de cumprir os pagamentos.
. Além disso, uma parte significativa da população em idade ativa está a deixar de trabalhar porque recebe ajudas sociais para se sustentar e sustentar o seu lar; ora, essas ajudas, embora necessárias em alguns casos, acabam por desincentivar o esforço produtivo.
. Outros cidadãos vivem “amarrados” ao partidarismo, negociando a consciência em troca de benefícios, muitas vezes sem mérito, o que fragiliza a ética e a justiça social.
Diante deste quadro, é legítimo questionar se há motivos reais para nos orgulharmos do crescimento do país. Na minha opinião, só haverá razões para tal orgulho quando:
. Cada cidadão conseguir sustentar-se e sustentar o seu lar com os próprios rendimentos, fruto do esforço e da inteligência individual.
. Cada trabalhador, ao atingir a idade da reforma, puder aposentar-se com uma pensão justa, resultado dos descontos feitos durante a vida ativa, através do INPS ou instituições equivalentes.
. O Estado viver com uma dívida inferior à sua capacidade de pagamento — ou, e é o ideal, sem dívidas avultadas.
. O país tiver condições de criar postos de trabalho para todos os cidadãos, de acordo com as suas formações e competências, assegurando salários justos e dignos.
. As leis forem concebidas para estimular a autonomia e a responsabilidade, afastando a cultura de esperar que a “sorte caia do céu” ou que os governos resolvam tudo.
Neste início de ano, considero essencial uma reflexão séria, profunda e consequente sobre esta matéria de capital importância para o futuro de Cabo Verde.
*Professor aposetado



