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E se livros fossem líquidos… quais seriam seus colírios?

Karina de Fátima Gomes

Esta pergunta, poética e provocadora, abre a primeira faixa do álbum que reúne Criolo, Dino D’Santiago e Amaro Freitas, e poderia, sem esforço, servir de epígrafe para este encontro musical que atravessa o Atlântico com delicadeza, consciência e notável potência estética.

Lançado em janeiro de 2026, o disco nasce do diálogo entre trajetórias distintas e profundamente  conectadas pelas heranças africanas, pela lusofonia vivida no corpo e na voz e pela crença na música como gesto simultaneamente político, afetivo e transformador.

Ao longo das faixas, rap, jazz, morna, funaná e improvisação encontram-se sem hierarquias, formando um território sonoro em que Cabo Verde não surge apenas como referência simbólica, mas como centro pulsante de uma escuta que valoriza a memória, o corpo e a palavra.

Para o público cabo-verdiano, o álbum assume um significado particular: Dino D’Santiago, uma das vozes mais consistentes da música contemporânea de matriz africana em língua portuguesa, inscreve no coração do projeto a sensibilidade crioula, a noção de pertença e a ideia de que a música pode ser espaço de reconciliação entre passado e futuro.

Já na faixa 2, “Você não quis”, essa dimensão poética se adensa. O verso “Você não me quis quando eu tava sem cordão, agora eu tô grandão” funciona como síntese de um percurso de afirmação e sobrevivência, convertendo rejeição em força e reposicionamento no mundo.

Esta pergunta, poética e provocadora, abre a primeira faixa do álbum que reúne Criolo, Dino D’Santiago e Amaro Freitas, e poderia, sem esforço, servir de epígrafe para este encontro musical que atravessa o Atlântico com delicadeza, consciência e notável potência estética. (…) O álbum é poesia pura: poesia que se canta, se improvisa, se toca e se pensa. Um disco que merece circular, ser ouvido, debatido e celebrado em Cabo Verde, território onde a palavra sôdade já ensinou ao mundo que sentir, lembrar e criar também são formas de resistência.

A canção ecoa ainda o provérbio reinventado – “o mundo não gira, ele capota” – que atravessa o álbum como chave de leitura crítica do tempo presente, lembrando que a experiência histórica dos corpos negros e periféricos não obedece à linearidade confortável das narrativas dominantes. Aqui, a palavra cantada age como denúncia e como rito de passagem.

O brasileiro Criolo aporta a densidade poética e a leitura aguda do mundo  que marcam a sua obra, enquanto Amaro Freitas costura tudo ao piano com uma musicalidade que dialoga tanto com o jazz quanto com os ritmos afro-diaspóricos, criando pontes vivas entre Recife, São Paulo, Lisboa e as ilhas de Cabo Verde.

O batuque cabo-verdiano que embasa “Seka” banha a faixa de africanidade e fertiliza o toque frenético do piano de Amaro, revolvendo a aridez do solo africano entre ecos ancestrais de vozes de mulheres.

Com produção de Lucas Seiji, a canção figura entre os pontos altos de um repertório maioritariamente inédito, composto pelo trio em estúdio, a partir do impulso inicial do single coletivo “Esperança” (2024).

Em “Fogo lento”, a poética alcança um dos seus momentos mais elaborados quando Dino canta: “na letra da canção fogo lento eu cozinho a dor, transformo as cicatrizes num prato de sabor”. O verso sintetiza o projeto estético do álbum e dialoga diretamente com Cicatrizes, obra lançada por Dino em 2025 e disponível em nossas livrarias, na qual a escrita se afirma como gesto de cura, memória e reinscrição do corpo no mundo. Música e literatura, aqui, não apenas se aproximam: fundem-se num mesmo exercício de elaboração simbólica da dor e de celebração da vida.

O álbum constrói-se, assim, como uma ponte sonora que, partindo de Portugal, liga Cabo Verde a São Paulo e a Pernambuco, terra natal de “Menina do coco de Carité”, faixa introduzida pelo piano percussivo de Amaro e cerzida pelo canto do trio Clarianas e pela rabeca de Maciel Salú, mestre do maracatu. Embora gravado entre Lisboa, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo,  o projeto desconhece fronteiras ao conectar latitudes pela linguagem universal da música, misturando soul, jazz e tradição com rara organicidade.

Unidos pela herança da diáspora africana, os artistas reconhecem-se e irmanam-se entre o canto em inglês de “Mama Afrika”, o suingue pop de “Anoitecer”, a resistência que atravessa a morna “Fogo lento” e as críticas sociais do rap de Criolo em temas como “E se livros fossem líquidos (Poeta fora da lei Pt. II)” e “Amazônia (A-i’ahu)”, faixa em que o discurso demolidor do rapper (retomando versos de “Chuva Ácida”) ecoa a consciência urgente de um planeta em combustão.

Ouvir este álbum é aceitar um convite à escuta atenta, que não se consome com pressa, mas se deixa infiltrar (como um colírio) nos olhos e nos sentidos. Em tempos de ruído e superficialidade, o encontro entre Criolo, Dino D’Santiago e Amaro Freitas lembra que a música também pode ser leitura, pensamento e travessia.

Em resumo, o álbum é poesia pura: poesia que se canta, se improvisa, se toca e se pensa. Um disco que merece circular, ser ouvido, debatido e celebrado em Cabo Verde, território onde a palavra sôdade já ensinou ao mundo que sentir, lembrar e criar também são formas de resistência.

Resta-nos, moradores das ilhas, aguardar o momento em que o trio aportará em nossas terras para nos oferecer, ao vivo, o deslumbramento dos sons e das letras que alimentam a alma.

Ouça: Criolo, Amaro & Dino | Full Álbum

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