PUB

Política

Livro de memórias de Pedro Pires: As contas de um guerrilheiro com a história e a vida

A caminho dos 92 anos (29 de Abril), a vida do ex-presidente Pedro Pires confunde-se com as últimas seis décadas da história de Cabo Verde. Sendo um dos principais protagonistas da luta pela libertação, o livro que reúne as suas memórias, “De Guerrilheiro a Homem de Estado” (edição IPP), apresentado ontem, dia 19, na Praia, é dos registos históricos mais esperados e que irá, por certo, atrair mais curiosidade dos leitores. Sobretudo dos investigadores e historiadores, sempre à espera de alguma novidade ou revelação de pormenores ainda não trazidos a lume. Para Pires, é a hora de desmistificar heróis, lembrar solidariedades e acusar traidores.

Pedro Pires, ou simplesmente Pires, também conhecido por “PP”, diz-se um homem preocupado com o futuro, para além de outras que o assolam, em relação à memória, a própria vida e a evolução do mundo. Adianta que não se pode ser indiferente ao que está a acontecer e que vai condicionar o futuro nos próximos cinco, 10 anos. Mas, não ficamos a saber se se está a referir também a Cabo Verde ou ao mundo global.

O antigo dirigente do PAIGC/CV é esquivo, não se quer comprometer em opiniões sobre a vida nacional, sobretudo neste momento da pré-campanha para as eleições legislativas de Maio. Confessa que pensou muito sobre o que escrever. Esperava que outras pessoas também se dedicassem a deixar as suas memórias sobre a história recente do país.

“Verifiquei que em muitos casos, a vontade do protagonista tem contado menos, em relação às questões que lhe são colocadas pelos jornalistas, entrevistadores e destinatários; procurei escrever eu mesmo este livro, portanto, é da minha lavra, com todas as minhas limitações de escrita, como uma homenagem às minhas origens, tentar dar também uma ideia de como era a ilha do Fogo quando fui fazer a escola primária”, diz, em conversa com o A NAÇÃO.

Para um nonagenário, Pedro Pires revela uma memória deveras impressionante e chega à hora marcada para a conversa ao Instituto que leva o seu nome, usando as escadas para subir ao escritório no primeiro piso. Move-lhe também a preocupação com a história, adianta, aquela contada pelos protagonistas, “ligeiramente diferente das narrativas inventadas e suposições, por um lado os factos por quem os viveu e do outro as pessoas que não os viveram e que querem conhecer o processo”.

E aqui, diz, “a vivência conta muito e acho que devia haver mais gente, outros protagonistas, a fazê-lo, embora eu também não tivesse sido um grande produtor de memórias”.

Pedro Pires alinha na máxima do escritor e ex-ministro gaulista, André Malraux, sobre a importância do detalhe, do pormenor. “As pessoas não dão importância aos detalhes, ao esforço quotidiano e mental para se manter motivado e engajado numa causa; o esforço fundamental para se manter mobilizado. E aqui o protagonista tem essa vantagem ao revelar tudo isso, mas não sei se consegue convencer as pessoas”.

Pires dá como exemplo as dúvidas sobre o papel do então presidente da Guiné-Conakry, Sekou Touré, no seu apoio ao PAIGC e sem o qual a independência da Guiné e de Cabo Verde não seriam o que foram: “Nós tivemos a máxima liberdade de circulação nesse país, de circular com armas, munições, quem mais nos poderia ter dado essa facilidade, mesmo com o risco de com isso pôr em causa a segurança do país? Será que é alguém que está contra nós? Quem o diz só quer criar confusão.”

Inquietações, dúvidas e insatisfações

A perspectiva histórica é colocada não apenas nos factos ocorridos, como esclarece, mas pelas vivências que marcam a sociedade, num determinado momento. Ao mesmo tempo, adianta, é uma atitude face a algumas “insatisfações”, quando perante os factos, ele procura agora “identificar as suas causas”. E é nesse exercício que viaja no tempo, no seu envolvimento com a luta armada. “Porque a memória, as lembranças, levam a essa pergunta: podia ter sido diferente, ou não podia?”

Para já, estas e outras questões abordadas reportam ao período que vai até ao dia da independência nacional. O resto virá depois, num segundo livro em que já está a trabalhar, “se houver saúde para isso”, vai dizendo.

Para ele, este é o período da grande inquietação, das dúvidas, das grandes dificuldades: “Perguntávamos como podíamos ser bem sucedidos, não havia grandes condições nem conhecimentos para o triunfo da nossa causa, para além da contradição com o ambiente de grande violência, muito desprezo pelo outro.”

Mas, o que vem na rede da memória de Pedro Pires, ao abordar todas estas questões, é que “nem tudo foi mau”.

A memória isola e destaca casos indirectamente ligados à guerra, a que o ex-comandante dedicou um dos capítulos do livro. “Penso nos factos que, a meu ver, ultrapassam o senso comum, por exemplo, uma solidariedade sem limites, um grupo de médicos franceses, de Paris, que enviava semanalmente sangue para o hospital central do PAIGC, em Boké; como entender esse gesto tão generoso de um grupo de pessoas que não conhece os feridos, que procura ajudar, contribuir; então eu digo que o homem não é só o lobo do homem, como se diz, mas também seu irmão, irmão do homem…”  

Estas e outras realidades durante a guerra da libertação, são abordas, ligando-se a outras, que na nossa conversa saltam cronologias. “Penso também na actual situação de Cuba, asfixiada pelos Estados Unidos, uma situação terrível; há 60 anos fui a Havana para participar numa conferência tricontinental e depois de lá voltei para a preparação militar; médicos cubanos fizeram cirurgias nos hospitais de campanha, no mato, como entender essa solidariedade? Política? Humana?”

Quem são os heróis?

Um outro aspecto que resulta da história dos factos, diz, é que as pessoas estão à espera de heróis, de grandes figuras. “Mas não são esses que fazem a história, mas sim o gesto de cada dia, os sacrifícios do quotidiano, a recarga do ânimo para não desistir, é isso que faz materializar os objectivos. As pessoas falam em heróis, grandes gestos, esquecem que para se fazer isso é preciso armas. E quem as dá? Onde as vamos buscar?”

Outra questão, esta do ponto de vista estatístico, mas que fixa a sua atenção, é o valor financeiro que o PAIGC investiu na guerra da luta pela libertação. Independentemente da sua importância e mais útil para os historiadores e curiosos, o nosso entrevistado confessa que nunca houve essa preocupação no apuramento desses montantes.

“Perderam-se alguns documentos, muitos estão na Fundação Mário Soares, em Lisboa, caso alguém queira trabalhar sobre esses documentos; cheguei a pedir alguns aos russos, mas só nos deram ideias gerais; mas quantificando o preço dessa guerra, são centenas de milhões, para além do custo das perdas humanas. Pode ser que o livro estimule as pessoas a repensar essa questão”, conclui.

Há uma nítida preocupação, com este livro, de desconstrução de mitos. Para além de eleger o povo cabo-verdiano como o verdadeiro herói da gesta da libertação, sobretudo a sua resiliência perante as calamidades, Pires diz-se surpreendido pelas escolhas da própria história.

“Ainda hoje pergunto-me porque me indicaram para liderar a delegação do PAIGC para as negociações, que andava eu a fazer por Londres e Argel? Este é outro dos factos mais surpreendentes para mim. As memórias têm muitas interrogações. É claro que não serei eu a dar a resposta, isso cabe às outras pessoas; Luís Cabral já não está entre nós, Aristides Pereira também fala nisso no seu livro de memórias”.

A traição

A traição é outro dos temas tratados noutro do capítulo do livro, que Pires fez questão de escrever. E é inevitável tocar-se na morte de Amílcar Cabral e das narrativas à sua volta.

“A traição, a vileza, a falta de princípios, muitas vezes se inventaram causas para a sua justificação, como no caso do assassinato de Amílcar Cabral, que teria sido por ele privilegiar mais os cabo-verdianos, é claro que não é verdade. Há um texto do historiador francês Marc Ferro, sobre o tabu nas lutas de libertação, os tabus da história, e de certa forma eu inspirei-me nele, nesta parte, quando se pretende esconder da história o lado mau, mas os traidores são traidores; já Amílcar Cabral falava nisso, numa comunicação que fez no Cairo, em 1961, em que dizia que apesar de todo o seu poderia, o imperialismo não dispensa o recurso aos traidores. Portanto, não teve nada a ver com conflitos internos ou a ideia de que o PAIGC era um partido binacional, tudo era campanha e guerra psicológica, que no livro abordo e faço uma leitura diferente”.

Lançamento a pensar no futuro

O livro “De Guerrilheiro a Homem de Estado” foi apresentado pelo historiador António Correia e Silva e pelo sociólogo guineense Miguel de Barros. A cerimónia teve lugar no Auditório TechPark Cabo Verde, por escolha do próprio Pedro Pires. “O espaço simboliza uma ideia de futuro, que é também a ideia deste livro, e a Presidência da República não deixa de ter um cunho demasiado político”, conclui, como explicação de um acto que promete ser uma outra forma de encontro com a História.

Joaquim Arena

Publicado na Edição 964 do Jornal A Nação, de 19 de Fevereiro de 2026

PUB

Adicionar um comentário

Faça o seu comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

PUB

PUB

To Top