Nas montanhas altas de Santo Antão, entre a abundância da natureza e a perda demográfica, a comunidade de Corda arregaça as mangas e reescreve o seu destino. O foco hoje é o turismo e a valorização dos produtos locais.
É um cenário facilmente encontrado em qualquer comunidade rural da ilha de Santo Antão. As últimas décadas têm sido marcadas por perda demográfica acentuada, deixando para trás populações envelhecidas e zonas ricas em recursos naturais, porém sem aproveitamento.
Entretanto, hoje a nossa reportagem chega até Corda, no Planalto Leste, para compreender como essa comunidade tem lutado para combater esta perda demográfica e potencializar os seus recursos naturais. Um processo que tem contado com o apoio e envolvimento da comunidade local, dos seus “filhos” não residentes e de parceiros nacionais e internacionais.

Antónia Fortes
Natural do vale do Paul, Antónia Fortes chegou a Corda em 1988, com apenas 20 anos. Ali formou família e criou cinco filhos, num tempo em que a comunidade ainda “tinha muita gente” e igualmente muito trabalho.
“Havia muito trabalho na agricultura de sequeiro, mas também em obras públicas, como a construção de diques, plantação de árvores”, recorda esta mãe de cinco filhos, todos também criados na localidade, até a idade para ingressarem-se em universidades em São Vicente e Brasil.
Das perdas que Corda foi contabilizando ao longo dos anos, a saída da sua população jovem e de chefes de famílias é apontado como a maior delas, numa bola de neve de causa e efeito que terá começado com a escassez de trabalho e impulsionado pela diminuição do fluxo de pessoas e viaturas na estrada que liga a comunidade a Porto Novo e Ribeira Grande.
Zona húmida e de clima propício para a agricultura, Corda é conhecida pela sua aptidão na produção de uma grande variedade de frutas, entre as quais se destaca a maçã. E era à berma dessa estrada, por onde diariamente circulava um grande número de cidadãos nacionais e turistas, que essa produção era escoada.
“Quando construíram a nova estrada, no sentido Janela, houve uma queda enorme a nível económico, não só na venda das nossas frutas, mas também para as mulheres que vendiam o queijo no Espongeiro”, recorda.
Com este corte no seu principal canal de escoamento, os produtos de Corda passaram a ser enviados para as cidades da Ribeira Grande e Porto Novo. Porém, num mercado saturado e de preços que, muitas vezes, “não justificam o esforço”, muitos dos seus produtos passaram a deteriorar-se no terreno.
Valorização e transformação agroalimentar

Maria do Rosário Gomes
É, portanto, deste quadro de limitações que nasceu a Associação Comunitária Ponta D´Cinta, que tem trabalhado um conjunto de projectos para imprimir nova dinâmica à economia local.
Em Fevereiro foi inaugurado o Centro de Valorização Agrícola, orientado para a promoção de práticas agrícolas sustentáveis, para o tratamento e colocação dos produtos locais no mercado nacional e para a transformação de frutas, oferecendo um produto novo e com valor acrescentado.
“Tendo em conta a potencialidade na produção de frutas foram formadas algumas mulheres na área de transformação agroalimentar, tendo em vista agregar valor aos produtos locais e diminuir o desperdício”, explica a presidente da associação, Maria do Rosário Gomes.
O principal objectivo é recolher frutas locais e outros produtos, fazer o processo de triagem, pesagem e colocar no mercado em recipientes próprios para que o produto chegue ao seu destino com melhor qualidade. Espera-se arrancar a actividade já na próxima época de produção, para abastecer cantinas escolas, hospitais e mercados nacionais, conforme a solicitação.
Este centro é complementado por uma Esplanada de Sabores, possibilitando que os produtos locais sejam apresentados ao turista de forma integrada, desde a produção até ao produto final transformado.
Ambos estão integrados num projecto financiado pela Cooperação Espanhola, o Centro de Estudos Rurais e de Agricultura Internacional (CERAI) e a Associação Amigos da Natureza.
Natalina Andrade
Lei a matéria na íntegra na Edição 956 do Jornal A Nação, de 26 de Fevereiro de 2026



