O que o imediatismo não permitiu dizer. Histórias, sonhos e dores que ninguém contou. Os jornalistas Cristina Fernandes Ferreira e Ricardino Pedro trazem, em livro, a dimensão humana de um crime sem precedentes em Cabo Verde.
Dez anos após o que ficou conhecido como “o massacre de Monte Txota”, Cristina Fernandes Ferreira e Ricardino Pedro, na altura jornalistas da Agência Lusa na Praia, revisitam a memória deste trágico episódio da história recente de Cabo Verde.

Cristina Ferreira e Ricardino Pedro, autores do livro
O livro “Monte Txota – Um massacre em Cabo Verde” não apenas conta a história das onze vidas perdidas na madrugada de 25 de Abril de 2016, dos quais oito militares e três civis. Também recorda ao país que, apesar do silêncio há famílias cuja dor não se foi embora. Mães que ainda choram seus filhos. E diz, também, sem o imediatismo do momento, quem eram esses filhos, o que eles sonharam, o que os levou às Forças Armadas de Cabo Verde.
Cristina Ferreira, co-autora do livro e na altura delegada a Agência Lusa em Cabo Verde, lembra-se do caso como o mais marcante da sua carreira. “Uma tragédia enorme num país tão pequeno”.
A sua dimensão, o imediatismo, o choque e o contexto político marcado por três eleições no mesmo ano não permitiram que tudo fosse dito naquela altura. E ficou-lhe a sensação de que precisava fazer mais.
“E eu própria, como jornalista, não tive tempo de aprofundar esta história como queria e fiquei sempre com esta sensação de que devíamos ter explorado melhor aquela história, devíamos ter ido à procura destas pessoas”, recorda.
Esta inquietação, partilhada com o jornalista Ricardino Pedro, deu origem a um trabalho de campo de cerca de dois anos e meia centena de pessoas ouvidas, para trazer uma versão mais aprofundada e, sobretudo, mais humanizada dos acontecimentos e seus tentáculos na vida das famílias.
Não há, segundo diz a autora, a pretensão de trazer uma versão definitiva do caso, uma verdade absoluta nem de ser uma investigação alternativa àquela que foi feita.
“O livro dá voz às famílias e a outros protagonistas, uns mais distantes, outros mais próximos, que também estavam relacionados com este caso e cada um deles conta a sua versão de como viveu aquele acontecimento. Que implicações é que teve também nas suas vidas”, explica Ferreira, em conversa com A NAÇÃO.
Para as famílias não se passaram dez anos
Ao ouvir as famílias das vítimas, parte principal do livro, Cristina Ferreira conta que foram surpreendidos pela forma pela qual foram recebidos. “Estávamos receosos. Não são entrevistas fáceis de fazer. Vamos mexer com feridas que, se calhar, as pessoas preferiam já ter esquecido”, assume.
O que encontraram foram mães para as quais não se passaram dez anos. Famílias que continuam a viver o luto diariamente. Mas também muito generosas em abrir a própria ferida para falar dos seus entes queridos, para lá da tragédia que os tirou a vida.
“Nós queríamos perceber quem eram aqueles jovens, como é que eram na escola, quando eram pequenos, que sonhos tinham, qual foi o objectivo deles em ir para a tropa, o que é que iam à procura na tropa. Ou seja, queríamos perceber essa parte mais humana desta tragédia, que eu acho que foi exatamente o que me faltou fazer na altura quando escrevi sobre o assunto”, pontua a jornalista.
Embora cada família viva essa experiência à sua maneira, Cristina pontua dois aspectos mais ou menos comuns com que se depararam ao longo do processo.
“Uma delas é que, por causa do tempo que passou entre a descoberta dos corpos e os funerais, algumas famílias não puderam abrir os caixões e ver os corpos. E para algumas fica aquela sensação de não ter visto e de não ter a certeza de que foi o ente querido que enterrou”, indica, por um lado.
Por outro lado, pesa também uma promessa institucional não cumprida. A de que as sepulturas seriam dignificadas e honradas. “Acho que isso é uma das maiores mágoas. Elas têm a sensação de que os filhos morreram ao serviço da pátria, ao serviço do país, o país seguiu em frente elas continuam com a sua dor”, indica a jornalista.
Outros protagonistas
O livro também dá voz a outros protagonistas – aqueles que aceitaram falar -, uns abertamente, outros sob anonimato.
Da parte das instituições, entretanto, os jornalistas encontraram silêncio sepulcral especialmente no que toca à consulta do processo, transitado em julgado, cujas solicitações não encontraram respostas.
“Ninguém quer falar sobre isso”, ou “porquê vocês querem falar sobre isso?” são frases que, segundo a jornalistas, foram sendo encontradas pelo caminho, embora não tenha havido nenhuma tentativa de condicionamento.
Uma família, dois lutos
Para além das famílias dos oito militares mortos, o livro também vai ouvir a família do autor do crime, ela própria também uma vítima do massacre.
“A família do Antany tem um sofrimento duplo. Sofre porque seu ente querido foi preso, mas também sofre porque foi ele o causador de toda aquela desgraça. E de certa forma, isso acaba por ser também uma dor de luto e esta família acaba por se beneficiar de menos empatia ou apoio”, reflecte.
Ao ouvir as diferentes histórias de vida, de forma geral, os autores acabam por não falar apenas do massacre de Monte Txota, mas também de outros temas que, não sendo centrais no livro, são transversais à própria história da sociedade cabo-verdiana e daquelas famílias. Entre eles está a questão da gravidez precoce, a emigração e a saúde mental.
A par disso, a autora entende que é importante lembrar o episódio e lembrar que, embora se passaram dez anos, há pessoas para quem isto nunca foi ultrapassado.
“Se alguém, depois de ler este livro, ficar a perceber melhor o que é que aconteceu, eu acho que, ao menos em parte, o livro já cumpriu o seu papel”, termina.
“Monte Txota – Um massacre em Cabo Verde” teve o apoio da Bolsa Criar Lusofonia, do Centro Nacional de Cultura de Portugal, que financia projectos de escritores dos países lusófonos.
A obra é dedicada ao falecido funcionário da Agência Lusa, José Correia de Barros, que, segundo os autores, na altura também teve um papel muito importante neste projecto e fez parte da história do livro.
O livro foi lançado dia 25 de março, na cidade da Praia.
25 de Abril de 2016
No dia 25 de Abril de 2016, onze corpos foram localizados no destacamento militar de Monte Txota, na ilha de Santiago. Oito deles são jovens militares e três são civis, que se deslocaram ao local para prestar serviços nas antenas de telecomunicações.
O caso, que chocou o país, levou à condenação máxima do soldado Antany, de nome próprio Manuel António Silva Ribeiro, a 35 anos de prisão. Antany sofreu ainda uma pena acessória de expulsão das Forças Armadas, bem como o pagamento de uma indemnização de 11 milhões de escudos aos familiares das vítimas.
Natalina Andrade
Publicado na Edição 969 do Jornal A Nação, de 26 de Março de 2026



