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Economia

Projecto: “Visão do Futuro” propõe transformação no campo

Cabo Verde continua a enfrentar desafios estruturais no sector agrícola com produção que cobre apenas entre 15% e 25 % das necessidades alimentares do país. E eis que surge o projecto “Visão do Futuro”, que pretende revolucionar o sector, através de mecanismos de financiamento simplificados, ligação directa ao mercado e a educação financeira dos agricultores, com objectivo de reduzir a pobreza e aumentar a produtividade no país. 

Esta iniciativa é liderada por António Fernandes, que conta com experiência de três anos e meio no sector de desenvolvimento agrícola, num projecto japonês baseado no Senegal. Conforme diz, a motivação surgiu após identificar fragilidades estruturais no sistema agrícola nacional, como injustiças no acesso ao crédito, falta de informação e riscos à segurança alimentar. 

António Fernandes

“Naquela altura, do processo de preparar sugestões para o Governo para o projecto japonês, acabamos por descobrir injustiças e no caminho começamos a entender o que o Governo propõe, o que é necessário e só depois ver nos trabalhos feitos se está indo no caminho que queremos”, contou António Fernandes ao A NAÇÃO. 

Um dos pilares do “Visão do Futuro” é a criação de um fundo rotativo pensando facilitar o acesso ao crédito dos agricultores onde o modelo inclui apoio na gestão financeira cálculo de custos de produção e definição de preços de venda com margem de lucro sustentável. Afora isso, o sistema prevê uma central de compras que assegura a aquisição e comercialização dos produtos permitindo que os agricultores se concentram exclusivamente na produção com base na procura do mercado.

Dependência externa: combate à pobreza

Sendo a economia cabo-verdiana baseada essencialmente no turismo, remessas da diáspora e apoio internacional cria uma dependência quanto menor a produção locar maior a necessidade de importação e menor a autonomia económica do país. “Visão do Futuro” propõe criar um sistema integrado de desenvolvimento agrícola baseando em financiamento direto aos agricultores organização da produção e ligação ao mercado.

O projecto também pretende organizar a relação entre produção e comercialização introduzindo previsibilidade no mercado. Através de uma plataforma compradores poderão saber antecipadamente quais produtos estarão disponíveis em que quantidade e a que preço reduzindo perdas e desequilíbrios entre oferta e procura. 

Para António Fernandes, pobreza não se resume à falta de dinheiro, mas sim à ausência de conhecimento, planeamento e apoio adequado, visto que, o projeto aposta na capacitação dos agricultores, promovendo autonomia, organização financeira e acesso ao sistema bancário, o que poderá facilitar, por exemplo, a obtenção de crédito para habitação. 

Dados apontam que cerca de 90% dos agricultores em Cabo Verde permanecem em situação de pobreza ao longo da vida activa, realidade que o projecto pretende inverter através de formação e acompanhamento contínuo. 

“O impacto na redução da pobreza é muito claro sendo que pelos menos 90% dos agricultores em Cabo Verde continuam pobres e ao longo da sua trajetória orientamos os agricultores em como fazer investimentos futuramente educando-o como ele pode aplicar os seus investimentos e qual e a diferenciar ganho no seu investimento e manter uma linha de dados concretos”, explica. 

Desafios e expansão para outras ilhas

Apesar do potencial, “Visão do Futuro” enfrenta desafios, como a resistência institucional, falta de cultura de trabalho em grupo e dificuldades em mobilizar investidores. 

Segundo o promotor, questões como a partidarização e interesses individuais têm dificultado parcerias com entidades públicas e privadas, ainda assim, a adesão dos agricultores tem sido positiva, com todos os contactados a demonstrarem interesse em integrar o sistema, devido às soluções apresentadas para problemas recorrentes no sector.

António Fernandes acrescenta ainda que o modelo proposto não se limita a uma região ou sector específico, podendo ser implementado em diferentes ilhas e adaptado a vários tipos de produtos. Os primeiros resultados poderão ser visíveis logo nas primeiras transações, com melhoria imediata nos rendimentos dos agricultores envolvidos pois a lógica baseia-se na relação entre oferta e procura, aliada a estratégias de marketing e organização da produção.

Publicado na Edição 970 do Jornal A Nação de 02 de abril de 2026

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