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Sem emprego digno, resta partir: a lógica da migração em Cabo Verde

Por: António Delgado  Medina*

Em Cabo Verde, a migração tem sido frequentemente interpretada como um fenómeno cultural, histórico ou até inevitável. No entanto, por detrás dessa leitura simplificada, existe uma realidade mais profunda e estrutural: a migração é, cada vez mais, uma consequência direta da fragilidade do mercado de trabalho. Num país onde o emprego digno ainda não é uma garantia, partir deixa de ser uma opção — passa a ser uma necessidade.

Os dados são claros. Cerca de 60% da força de trabalho cabo-verdiana encontra-se no setor informal. Isto significa que a maioria dos trabalhadores vive sem contrato formal, sem proteção social e sem acesso a direitos laborais básicos. Trabalham, mas não têm segurança. Produzem, mas não têm estabilidade. E, sobretudo, não conseguem projetar o seu futuro.

É neste contexto que a migração ganha sentido — não como ambição, mas como estratégia de sobrevivência.

A desigualdade territorial agrava ainda mais este cenário. Nas zonas rurais, a informalidade atinge níveis próximos dos 65%, enquanto nas áreas urbanas ronda os 40%. Esta disparidade reflete um país fragmentado, onde as oportunidades estão concentradas em determinados polos, deixando vastas regiões — e ilhas inteiras — sem alternativas viáveis de inserção económica.

Para muitos jovens de Santo Antão e de outras zonas periféricas, permanecer deixou de ser uma escolha racional. A agricultura de subsistência, os pequenos negócios informais e a ausência de emprego estável não oferecem perspetivas de mobilidade social. Perante este cenário, migrar para Praia, Mindelo, ou para o exterior surge como a única via possível para alcançar rendimentos mais previsíveis e melhores condições de vida.

A informalidade, nestes territórios, não é apenas precariedade — é um fator de expulsão.

Mas o problema não se limita às zonas rurais. Mesmo nos centros urbanos, onde se concentram as oportunidades, o mercado de trabalho revela fragilidades significativas. A predominância de empregos sazonais, sobretudo no turismo, e a persistência de vínculos laborais precários dificultam a construção de trajetórias profissionais estáveis. Muitos trabalhadores entram e saem do mercado de trabalho sem garantias de continuidade, vivendo num ciclo permanente de incerteza.

Cerca de 60% da força de trabalho cabo-verdiana encontra-se no setor informal. Isto significa que a maioria dos trabalhadores vive sem contrato formal, sem proteção social e sem acesso a direitos laborais básicos. Trabalham, mas não têm segurança. Produzem, mas não têm estabilidade. E, sobretudo, não conseguem projetar o seu futuro. É neste contexto que a migração ganha sentido – não como ambição, mas como estratégia de sobrevivência.

A isto soma-se um desajuste persistente entre o sistema educativo e as necessidades do mercado. Jovens qualificados enfrentam dificuldades de inserção profissional, enquanto empresas relatam falta de competências práticas. O resultado é paradoxal: há formação, mas não há emprego adequado. E quando o emprego não responde às expectativas, a emigração torna-se uma alternativa lógica.

Outro fator que contribui para este cenário é a complexidade do processo de formalização económica. Pequenos empreendedores enfrentam burocracia excessiva, custos elevados e pouca assistência institucional. Para muitos, formalizar o negócio não é uma oportunidade, mas um risco. Permanecer na informalidade torna-se, assim, uma escolha condicionada — uma forma de sobreviver num sistema que não facilita a inclusão.

As consequências deste modelo são profundas. A elevada informalidade reduz a capacidade fiscal do Estado, limita o investimento em serviços públicos e enfraquece as políticas sociais. Ao mesmo tempo, perpetua desigualdades e alimenta fluxos migratórios, tanto internos como externos.

A fuga de cérebros é talvez a face mais visível desta realidade. Profissionais qualificados continuam a abandonar o país em busca de melhores condições de trabalho e de reconhecimento. Esta saída contínua de capital humano compromete o potencial de inovação e desenvolvimento de Cabo Verde, criando um ciclo difícil de inverter.

Perante este quadro, torna-se inevitável questionar o modelo de desenvolvimento que tem sido seguido. Se o crescimento económico não se traduz em emprego digno, inclusão social e coesão territorial, então não está a cumprir a sua função. Crescer não pode ser um fim em si mesmo — deve ser um meio para melhorar a vida das pessoas.

Romper com esta lógica exige mais do que discursos. Exige políticas públicas consistentes e integradas que enfrentem as causas estruturais da precariedade laboral. É necessário simplificar os processos de formalização, criar incentivos reais para as pequenas e médias empresas, promover a diversificação económica das zonas rurais e alinhar a formação profissional com as necessidades concretas do mercado.

O acesso ao microcrédito, o apoio ao empreendedorismo e o reforço dos serviços públicos nos territórios mais vulneráveis são igualmente essenciais para criar condições de fixação da população. Porque, no fundo, a questão central não é impedir a migração, mas garantir que ficar seja uma escolha viável.

Cabo Verde pode continuar a celebrar números — ou começar, finalmente, a responder às pessoas.

Porque quando um país não cria condições para os seus cidadãos ficarem, está, na prática, a financiá-los para partir.

E nenhum país constrói o seu futuro enquanto perde, todos os dias, aqueles que mais precisa.

28 de abril de 2026

*Geógrafo, doutorando em Ciências Sociais

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