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Mobilidade em Cabo Verde Dez ilhas, dez realidades: quando a mobilidade falha, cresce a desigualdade(3)

Por: Jorge Lopes*

Quando o território condiciona o acesso a bens, serviços e oportunidades, a mobilidade deixa de ser técnica e passa a ser social.

As diferenças de preços, de acesso e de oportunidades entre ilhas revelam uma realidade pouco discutida: não é a mobilidade que gera desigualdade, mas a sua insuficiência, irregularidade e má organização.

Se o primeiro passo para compreender a mobilidade em Cabo Verde é reconhecê-la como um problema estrutural, o segundo é talvez ainda mais exigente: perceber que esse problema não é abstrato. Ele manifesta-se de forma concreta, quotidiana e desigual na vida dos cidadãos.

Cabo Verde não é apenas um arquipélago. É, na prática, um conjunto de ilhas com níveis distintos de conectividade, de acesso e de integração. E essa diferença, longe de  ser apenas geográfica, traduz-se em desigualdades reais: custos de vida distintos, acesso desigual a serviços essenciais e oportunidades económicas assimétricas.

E, no centro de todas elas, está a mobilidade – ou, mais precisamente, as falhas do sistema de mobilidade, de forma desigual.

O preço de bens essenciais – alimentos, materiais de construção, medicamentos – não é o mesmo em todas as ilhas. Não por razões de mercado no sentido clássico, mas porque o custo de transportar esses bens varia significativamente em função da distância, da regularidade das ligações e da eficiência do sistema logístico.

O resultado é conhecido: quanto mais periférica a ilha, maior tende a ser o custo de vida.

Este é um dos efeitos mais visíveis, mas está longe de ser o único.

O acesso à saúde especializada, por exemplo, depende frequentemente da possibilidade de deslocação para outras ilhas. Quando essa deslocação é cara, irregular ou incerta, o que está em causa não é apenas a mobilidade – é o próprio acesso ao direito à saúde.

O mesmo se aplica à educação. A frequência do ensino superior ou de formação especializada implica, para muitos jovens, deslocações regulares ou mesmo a necessidade de mudança de ilha. Nem todos têm condições para o fazer.

No mercado de trabalho, a concentração de oportunidades em determinados polos – sobretudo nas ilhas mais conectadas – reforça esta dinâmica. A mobilidade limitada não apenas restringe o acesso a essas oportunidades, como condiciona a própria decisão de permanecer ou abandonar determinados territórios.

É neste contexto que se deve compreender um fenómeno silencioso, mas persistente: o despovoamento  progressivo de algumas ilhas.

Quando viver numa ilha implica custos mais elevados, menos acesso a serviços e menores oportunidades, a mobilidade deixa de ser apenas um meio de circulação. Torna-se um fator que influencia decisões estruturais de vida.

Não se trata apenas de escolher onde trabalhar. Trata-se de escolher onde viver. E essa escolha, quando condicionada por falhas no sistema de mobilidade, deixa de ser plenamente livre.

É por isso que a mobilidade deve  ser entendida, também, como uma questão de justiça territorial.

Num Estado arquipelágico, a igualdade formal entre cidadãos não é suficiente. É necessário garantir condições materiais que permitam que essa igualdade se concretize.

Cabo Verde não é apenas um arquipélago. É, na prática, um conjunto de ilhas com níveis distintos de conectividade, de acesso e de integração. E essa diferença, longe de ser apenas geográfica, traduz-se em desigualdades reais: custos de vida distintos, acesso desigual a serviços essenciais e oportunidades económicas assimétricas.  E, no centro de todas elas, está a mobilidade – ou, mais precisamente, as falhas do sistema de mobilidade, de forma desigual. (…) Se hoje a falha da mobilidade gera desigualdade, amanhã uma mobilidade bem estruturada pode – e deve – ser um instrumento de coesão.

Quando dois cidadãos, em ilhas diferentes, enfrentam custos radicalmente distintos para aceder aos mesmos bens ou serviços, estamos perante uma desigualdade que não pode ser ignorada.

E essa desigualdade não decorre apenas da geografia. Decorre da forma como o sistema está organizado.

A mobilidade, tal como hoje funciona, não apenas reflete as assimetrias territoriais – em muitos casos, contribui para as acentuar.

Um sistema de transportes irregular e fragmentado encarece a circulação de bens, reduz a previsibilidade das ligações, limita a integração dos mercados e fragiliza a atividade económica local. As empresas operam com maiores custos e maior incerteza. As famílias enfrentam preços mais elevados e menor acesso.

Cria-se, assim, um ciclo difícil de quebrar: menor mobilidade, menor atividade económica, menor escala, custos mais elevados e ainda menor mobilidade.

Este ciclo não é apenas económico – é também social e territorial. À medida que se consolida, reforça assimetrias entre ilhas, reduz a atratividade de investimento em territórios menos conectados e limita a capacidade de fixação de população, sobretudo jovem. Com o tempo, transforma-se num mecanismo silencioso de divergência, em que algumas ilhas avançam enquanto outras ficam progressivamente para trás.

Romper este ciclo exige mais do que melhorar pontualmente ligações  ou reduzir preços em determinados momentos. Exige uma abordagem que reconheça a mobilidade como instrumento de integração territorial.

Isso implica, desde logo, aceitar um princípio simples, mas exigente: o local onde um cidadão vive não pode determinar, de forma tão marcada, o seu acesso a direitos e oportunidades.

O conceito de continuidade territorial, referido anteriormente, ganha aqui toda a sua relevância. Ele não significa uniformidade absoluta – o que seria irrealista – mas implica garantir níveis mínimos de acessibilidade e condições comparáveis de funcionamento do território.

Em muitos arquipélagos, esse princípio traduz-se em mecanismos concretos: tarifas diferenciadas, compensações logísticas, obrigações de serviço público, financiamento estruturado. Em Cabo Verde, esses instrumentos existem de forma fragmentada, mas não constituem ainda um sistema coerente.

E é precisamente essa ausência de sistema que permite que as desigualdades persistam.

Importa também sublinhar que a mobilidade não é apenas uma questão de pessoas. É, cada vez mais, uma questão de fluxos – de bens, de serviços, de informação.

Num país onde a economia depende fortemente da importação e da distribuição interilhas, a eficiência logística é determinante. Quando essa logística falha, toda a cadeia é afetada: dos portos aos mercados, das empresas às famílias.

Por isso, discutir mobilidade é discutir economia real. É discutir o preço dos alimentos. O custo da habitação. A viabilidade de uma empresa fora dos grandes centros.

É, no fundo, discutir o quotidiano. Este é, talvez, o ponto mais importante a reter.

A mobilidade não é apenas um problema técnico a resolver por especialistas. É um fator estruturante que molda o país, influencia decisões individuais e coletivas e condiciona o seu desenvolvimento.

Ignorar essa dimensão é reduzir o debate a uma questão de transportes.

Reconhecê-la é dar o passo necessário para construir soluções mais justas, mais eficazes e mais ajustadas à realidade de Cabo Verde.

Nos próximos artigos, procurarei alargar o olhar para fora do país, analisando como outros arquipélagos enfrentaram desafios semelhantes e que lições podem ser retiradas para o contexto cabo-verdiano.

Porque, se hoje a falha da mobilidade gera desigualdade, amanhã uma mobilidade bem estruturada pode — e deve — ser um instrumento de coesão.

Essa é, em última análise, a escolha que se coloca ao país.

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