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Política

São Vicente: O pulsar mindelense em dias de vento e pouco entusiasmo político

São Vicente, como o resto do país, chega ao fim da campanha eleitoral com o coração acelerado. Faltam pouco mais de 24 horas para o encerramento oficial das acções de rua e apenas três dias para que os cidadãos regressarem às urnas, na oitava eleição legislativa da história democrática de Cabo Verde. Longe do entusiasmo de outros tempos, ainda assim, o ambiente entre os mindelenses é de expectativa, de balanço e de decisão.

Em 2021, o círculo de São Vicente contava com cerca de 55 mil eleitores inscritos, cabendo- -lhe 10 assentos na Assembleia Nacional. Nessa altura, o MpD e a UCID conquistaram quatro deputados cada, e o PAICV dois. Agora, em 2026, o número de eleitores registados subiu para aproximadamente 58 mil, mantendo-se os 10 mandatos. A disputa mostra-se mais acesa, já que o PTS entra pela primeira vez na corrida neste círculo, querendo mexer no equilíbrio tradicional.

A actual distribuição de mandatos mostra que a UCID, partido tradicionalmente enraizado em São Vicente, conseguiu igualar-se ao MpD, superando o PAICV. Trata-se de uma configuração rara no panorama nacional, onde a lógica bipartidária, entre o MpD e o PAICV, é dominante.  Isto explica a forma empenhada como esses três partidos se vêm desdobrando no terreno para saber como será a correlação a partir de domingo, 17. A pensar no todo nacional, o PAICV joga claramente para um aumento da sua representação na ilha do Monte Cara.

A força da UCID em São Vicente confirma-se como um fenómeno político de relevo. Ao conquistar quatro lugares o partido reforça a sua posição como voz crítica e alternativa, sobretudo em temas como a regionalização e a descentralização. O MpD mantém a sua presença sólida, enquanto o PAICV luta para recuperar espaço numa ilha onde já teve maior influência.

Este equilíbrio tripartido transforma São Vicente num laboratório político, onde se testam novas formas de participação e onde o eleitorado demonstra uma capacidade de diversificação rara no país.

Ideologias em confronto

O MpD, de ideologia liberal e economia de mercado, e liderada por Ulisses Correia e Silva, defende a continuidade da obra feita e o crescimento económico; a UCID, com inspiração cristã, chefiada por João Santos Luís, insiste na ética política, transparência e proximidade; o PAICV, um partido de matriz socialista, liderado por Francisco Carvalho, aposta na inclusão social, juventude e descentralização; e por fim o PTS, fundado por Onésimo Silveira, filho ilustre de São Vicente, partido de raiz trabalhista, e liderado pela jovem Jónica Brito, coloca o foco no emprego, na valorização do trabalho e na formação da juventude.

Vozes dos cabeças de lista

João do Carmo (PAICV) fala em “dar voz a São Vicente” e exige maior atenção governativa para a ilha; Paulo Rocha (MpD) pede confiança na obra realizada e promete corrigir falhas, consolidando resultados;  João Santos Luís (UCID) insiste na credibilidade e na ética como pilares de uma política diferente; e por fim Carlos Silva (PTS) apresenta-se como novidade, defendendo que “o futuro da juventude passa pelo trabalho e pela formação”.

Expectativas dos eleitores

Apesar de ter perdido um mandato em 2016, São Vicente não perdeu protagonismo. Com 10 deputados, a ilha continua a ser um dos círculos eleitorais mais relevantes de Cabo Verde. A actual distribuição dos mandatos mostra que aqui se joga mais do que a representação parlamentar: joga- -se o futuro da participação cidadã, a afirmação da ilha e a redefinição do equilíbrio político nacional.

Nas ruas do Mindelo, nos bairros periféricos e nas praças centrais, os eleitores revelam sentimentos mistos:  Desconfiança em relação às promessas repetidas; Esperança numa maior descentralização/regionalização e atenção às necessidades locais; Curiosidade sobre o papel do PTS e se poderá quebrar o ciclo de três partidos dominantes; e Exigência de soluções concretas para emprego, saúde e segurança.

Em resultado desses factores, onde sobressai a desconfiança, os comícios e os actos públicos estão longe de colher o entusiasmo de outrora. Apesar dos concertos musicais, a fraca adesão justifica-se, talvez, ou por desinteresse dos eleitores ou pela forte ventania que se tem feito sentir estes dias e noites, levantando forte poeira que dificulta a respiração, e do frio que se faz sentir nesta época à noite. Sabendo o que cada partido tem para “vender” não são poucos os cidadãos que preferem ficar em casa e saber depois as novidades que vão passando de boca em boca.

A campanha em São Vicente, tal como em todo o país, encerra na noite de amanhã, sexta-feira. O MpD realiza nesta noite de quinta-feira o seu já tradicional comício na rua de Lisboa; amanhã será a vez do PAICV, no mesmo espaço, medir forças com o seu rival nacional, ficando a UCID na Avenida 5 de Julho. Sem os meios dos seus concorrentes, o PTS praticamente não tem optado por comícios privilegiando contactos directos com as pessoas porta a porta.

João A. do Rosário

Publicado na Edição 976 do Jornal A Nação, de 14 de Maio de 2026

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