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Dez anos. É hora.

Por: Paulo Mendes*

Escrevo isto como cabo-verdiano. Como alguém que vive na diáspora, que acompanha o país de longe mas com o coração perto. Escrevo como cidadão que, a poucos dias das eleições legislativas de 17 de maio, sente que tem algo a dizer – e que seria desonesto ficar em silêncio.

Começo pelo que é justo. Dez anos de governação do MpD não foram dez anos de nada. Houve estabilidade macroeconómica num período extraordinariamente difícil. Houve credibilidade internacional que Cabo Verde soube preservar. Houve crescimento do PIB. E houve, acima de tudo, a prova de que o país conseguiu atravessar uma pandemia que destruiu economias muito maiores do que a nossa sem entrar em colapso. Isso merece ser reconhecido – sem ironia, sem condescendência.

Mas dez anos também chegam para fazer um balanço honesto. E é isso que proponho.

A lei do desgaste

Há uma lei não escrita na política – mas que a história ensina em todo o lado, em todos os sistemas democráticos. Nenhum governo melhora para sempre. Chega um momento – não necessariamente de crise, não necessariamente de escândalo – simplesmente um momento em que o poder começa a pesar mais do que a servir. Em que as respostas ficam mais lentas. Em que os problemas que ficaram por resolver ao longo dos mandatos se tornam, eles próprios, o retrato do governo. É desgaste. E é, precisamente, o sinal de que chegou a hora de renovar.

E o desgaste sente-se. Sente-se no bolso. Sente-se na mesa de jantar de cada família cabo-verdiana. O PIB subiu – isso é verdade. Mas para uma parte significativa da nossa população o salário é insuficiente para pagar as despesas básicas. Oito anos sem aumento real de poder de compra. Números que têm rosto – o rosto das pessoas que trabalham todos os dias e chegam ao fim do mês sem conseguir chegar ao fim do mês.

E havia uma promessa. Uma promessa clara, feita com convicção: eliminar a pobreza extrema em Cabo Verde até 2026. Esse ano é este. Estamos em maio de 2026. A meta não foi cumprida. Mais do que qualquer outra coisa, isso mostra o limite de um governo que já deu o que tinha para dar.

Nenhum governo melhora para sempre. Chega um momento – não necessariamente de crise, não necessariamente de escândalo – simplesmente um momento em que o poder começa a pesar mais do que a servir. (…) Cabo Verde precisa de um olhar novo, de uma energia nova, de uma geração política que chegue ao poder com condições de provar que é possível fazer melhor – e construir um Cabo Verde com mais e melhor economia e, simultaneamente, mais inclusivo.

Os outros sinais

O MpD chegou ao poder há dez anos assente, em larga medida, em críticas justas ao falhanço da política de transportes do governo anterior. Prometeram fazer diferente. Não cumpriram. Quem vive num arquipélago precisa de uma política de transportes consistente, previsível e regular. Uma rede de ligações dignas não é luxo –  é condição de desenvolvimento e de coesão territorial. Passados dez anos, continuamos à espera dessa política.

O Hospital Nacional da Praia foi anunciado em 2021 com conferências, maquetes e discursos. O concurso foi finalmente lançado em 2025 – no último ano do mandato. Enquanto isso, as evacuações médicas para o exterior triplicaram face ao previsto: só no primeiro trimestre de 2025 custaram 3,5 milhões de contos ao Estado. Continuamos com fragilidades gritantes no acesso à saúde e sem uma política de saúde preventiva à altura das necessidades do país.

São os jovens que partem – porque não encontram futuro em casa. Em 2024, 64% dos jovens cabo-verdianos queriam emigrar. Eram 57% em 2017, quando o MpD chegou ao poder. O país investe na formação dos seus filhos e vê-os partir. Quando os melhores partem por falta de oportunidades, não é fuga – é uma mensagem que o país precisa de ouvir.

São sinais. Sinais de um governo que chegou ao limite do que consegue ver.

Uma palavra para a diáspora

Falo especialmente para a diáspora – porque é donde falo. Somos 1,5 milhões de cabo-verdianos e descendentes espalhados pelo mundo. Em 2024, enviámos para casa 278 milhões de euros em remessas – um recorde histórico. Estamos presentes. Estamos atentos.

E o que muitos de nós sentimos é que, em dez anos, continuámos a ser lembrados sobretudo quando era preciso falar de remessas. A diáspora não quer continuar a ser tratada como linha no orçamento. Quer políticas. Quer ligação real. Quer ser tratada como parte viva de Cabo Verde – não como caixeiro de remessas.

Continuamos sem uma política à altura do potencial da nossa diáspora. E isso é, também, uma oportunidade perdida.

O que a democracia precisa

A democracia não vive só de eleições. Vive de alternância. De renovação. De um povo que olha para o caminho percorrido – e decide, livremente, que quer uma direção nova. Não por ingratidão pelo que foi feito. Mas porque é assim que a democracia funciona.

É por isso, também, que apoio Francisco Carvalho. Não contra alguém – a favor de um projecto alternativo. Cabo Verde precisa de um olhar novo, de uma energia nova, de uma geração política que chegue ao poder com condições de provar que é possível fazer melhor – e construir um Cabo Verde com mais e melhor economia e, simultaneamente, mais inclusivo.

No dia 17 de maio, peço a todos os cabo-verdianos –  nas ilhas e na diáspora – que votem. Que votem com consciência. Que não votem por raiva, nem por hábito. Que votem pelo Cabo Verde que quereremos ver daqui a dez anos.

*Sociólogo

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