
Por: João A. do Rosário
No dia seguinte às eleições legislativas de 17 de Maio, Mindelo acordou em paz. As ruas retomaram o seu ritmo habitual: caminhadas matinais, banhos de mar, jovens carregando mercadorias para os barcos rumo a Santo Antão, trabalhadores a caminho dos seus postos.
A serenidade contrastava com a intensidade da campanha que acabara de terminar. A máxima popular ecoava: “Para além da política há vida, há família”. Mas por detrás da aparente tranquilidade, os resultados em São Vicente revelaram a confirmação de uma oscilação histórica: o PAICV já havia sido a força mais votada na ilha em 2001, 2006 e 2011, garantindo maiorias, ou seja, 6 dos 11 mandatos em 2001, e 5 deputados em 2006 e 2011. Apenas nos dois ciclos em que o MpD triunfou é que o PAICV perdeu essa primazia. Assim, a disputa em São Vicente deve ser lida como um palco de alternância real, onde o peso eleitoral da ilha se distribui entre forças que, em diferentes momentos, souberam conquistar a confiança maioritária dos eleitores.
O MpD manteve quatro deputados, mas falhou o objectivo de conquistar cinco ou seis, como chegou a anunciar.
O PAICV, ao alcançar a primazia eleitoral, conseguiu quatro mandatos, indo buscar mais dois que antes pertenciam à UCID, liderada por Jorge Santos Luís. O PAICV, ao retirar dois mandatos à UCID, reforçou a sua posição e redesenhou o mapa político da ilha.
Este desfecho não foi apenas um resultado aritmético, mas a expressão de um desgaste acumulado, de erros estratégicos e de decisões governamentais que se tornaram munição eficaz para o PAICV. São Vicente, tradicionalmente palco de disputas equilibradas, tornou-se o laboratório da alternância.
Os erros do Governo
Entre os factores que precipitaram a derrota do MpD, destacam-se decisões controversas do Ministério da Saúde, designadamente a retirada de equipamentos do Hospital Baptista de Sousa e a suspensão de funções do médico Tito Rodrigues, apenas por questionar essa medida. Recorde-se que essas decisões do Ministério da Saúde foram vistas como um desrespeito às gentes de São Vicente. Um autêntico “tiro no próprio pé” às vésperas das eleições.
A má gestão da crise provocada pela tempestade Erin reforçou a percepção de ineficácia: muitos cidadãos não sentiram os efeitos das acções que o Governo dizia ter realizado.
Os resultados em São Vicente revelaram uma viragem histórica: pela primeira vez, desde 1991, o PAICV foi a força mais votada na ilha, impondo uma derrota ao MpD e retirando dois mandatos à UCID. (…) Os eleitores mostraram igualmente que São Vicente continua a ser o “barómetro” de Cabo Verde: o partido que conquista a ilha conquista o país. (…) O PAICV conquistou a primazia, mas o povo não dorme: cada promessa será cobrada, cada desvio será julgado.
A campanha e os discursos
A campanha em São Vicente foi marcada por episódios que deixaram marcas. Augusto Neves, presidente da Câmara Municipal, ao referir-se depreciativamente a dirigentes do PAICV e dos sindicatos como “cachorros de dois pés”, remetendo os mindelenses ao período revolucionário de 1974-75, gerou indignação e alimentou a narrativa da oposição sobre arrogância e falta de respeito ao adversário político, de resto recorrente em Augusto Neves.
A promessa não cumprida de melhorar as condições do Aeroporto Cesária Évora para receber voos noturnos, somada ao incumprimento de postos de trabalho anunciados, agravou a desconfiança.
A insegurança, o desemprego e a má gestão dos transportes marítimos completaram o quadro de insatisfação e que ditaram, em São Vicente, a vitória histórica do PAICV.
UCID e ascensão do PAICV e o PTS
A UCID, que durante anos se afirmou como força decisiva em São Vicente, agora sob a liderança de João Santos Luis e a sombra do anterior líder, António Monteiro, viu-se ultrapassada. João Santos Luís, da UCID, insistiu na ética e credibilidade, mas perdeu terreno.
O PAICV, liderado localmente por João do Carmo, capitalizou o descontentamento e apresentou-se como alternativa credível. A sua mensagem de dar voz à ilha e exigir maior atenção governamental encontrou eco junto dos eleitores.
O MpD, com Paulo Rocha, pediu confiança para consolidar resultados, mas não convenceu.
João Carlos Silva, do PTS, focado no emprego e formação da juventude, não conseguiu romper a barreira da disputa principal.
A voz do Povo
Os eleitores de São Vicente expressaram sentimentos mistos: desconfiança perante promessas repetidas, esperança na descentralização (leia-se regionalização), curiosidade sobre o papel do PTS e exigência de soluções concretas para prblemas quotidianos. Uma vez mais, sem reboliços de maior, o povo deu uma lição: a política é importante, mas não deve sobrepor-se à vida comunitária.
Reflexão
As eleições de 2026 em São Vicente foram o reflexo de uma ilha que exige respeito, transparência e resultados palpáveis. O MpD pagou caro por erros de gestão e discursos infelizes; a UCID perdeu espaço para um PAICV revitalizado, que soube interpretar o descontentamento popular e transformar fragilidades governamentais em força eleitoral.
São Vicente, com a sua história de equilíbrio político, mostrou que a democracia é dinâmica e que o voto é a arma mais poderosa de um povo consciente. Os eleitores mostraram igualmente que São Vicente continua a ser o “barómetro” de Cabo Verde: o partido que conquista a ilha conquista o país.
O último comício do PAICV foi um sinal da vitória a caminho. Segunda-feira, 18 de Maio, conhecidos os resultados, a vida continuou – mas a política já não era a mesma.
São Vicente mudou e, na sua habitual forma crítica de ver a vida e a política, prepara-se para exigir e responsabilidade e o cumprimento escrupuloso das promessas que lhe foram feitas pelo partido vencedor.
O PAICV conquistou a primazia, mas o povo não dorme: cada promessa será cobrada, cada desvio será julgado. A alternância é vitória da democracia, mas também aviso: governar é servir, não falhar, porque é assim que Cabo Verde avança.

