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O som do silêncio da derrota do MpD

Por: João Serra*

Em 1964, Paul Simon escreveu uma das canções mais perturbadoras do século XX sobre a incomunicabilidade humana: pessoas que falam sem se ouvir, que ouvem sem escutar, que se deixam seduzir pelo brilho da superfície sem questionar a escuridão que a rodeia. 

“The Sound of Silence” é, no fundo, um retrato implacável de uma sociedade anestesiada pelo ruído do poder. A metáfora ganha uma ressonância inesperada na política cabo-verdiana: durante uma década, os cabo-verdianos falaram – pelos preços que não conseguiam pagar, pelos empregos que não existiam, pelos barcos que não saíam, pelos filhos que emigravam –, mas o poder, embriagado pela sua própria narrativa, recusou-se a ouvir. No dia 17 de maio de 2026, em silêncio, o povo respondeu.

A derrota do MpD nas eleições legislativas encerrou formalmente uma década de governação marcada por uma profunda dissonância entre a propaganda oficial e a realidade vivida pelos cabo-verdianos. Foi o fim de um ciclo político sustentado por estatísticas apresentadas à conveniência do discurso do poder, promessas sucessivamente recicladas e uma máquina de sedução eleitoral cada vez mais agressiva. Desta vez, porém, nem o controlo da narrativa, nem o recurso sistemático ao marketing político conseguiram travar o desgaste acumulado.

Na memória de muitos cidadãos permanecerão imagens indignas para uma democracia com 35 anos: cenas de distribuição de cestas básicas alegadamente associadas ao Governo, transformadas em instrumento de condicionamento político e exibidas publicamente nas lojas do país. Fotografias vergonhosas que expuseram, de forma crua, a degradação ética de um poder despudorado que já confundia Estado, partido e campanha eleitoral.

Em 2016, prometeu-se diversificação económica, despartidarização do Estado, a transformação do país num hub aéreo e marítimo e a criação de 45.000 novos postos de trabalho. Em 2021, o mesmo programa foi apresentado de novo, com nova embalagem. Em 2026, foi requentado pela terceira vez – os aeroportos de Santo Antão, Fogo e Maio que continuavam por construir, o Hospital Nacional que continuava por inaugurar, os empregos dignos que continuavam a não existir voltaram ao cardápio eleitoral com a naturalidade de quem não reconhece o ridículo da sua própria repetição.

O balanço económico da década desmente a narrativa do sucesso. 

O crescimento médio anual situou-se em 3,33% entre 2016 e 2024, muito aquém da meta de 7% reiteradamente  proclamada. A dívida pública expandiu-se de forma preocupante, restringindo a margem de manobra orçamental. O custo de vida aumentou persistentemente, corroendo o poder de compra das famílias. 

“The Sound of Silence” termina com uma advertência: as verdades mais profundas raramente são proclamadas nos discursos do poder – revelam-se no quotidiano silencioso das pessoas comuns. (…) No dia 17 de maio de 2026, os cabo-verdianos transformaram esse silêncio em julgamento político (…) E, como na canção de Paul Simon, o poder só percebeu tarde demais que o silêncio também fala – e que, por vezes, é nele que os povos escrevem a sua sentença mais clara. (…) A nova governação herda passivos financeiros de grande monta, uma dívida pública praticamente insustentável, uma década de oportunidades desperdiçadas, capital humano emigrado e instituições corroídas pela perda de confiança. Herda, acima de tudo, o dever de devolver credibilidade às instituições e verdade ao discurso público.

Das 45.000 vagas de trabalho prometidas para serem criadas entre 2016 e 2024, o saldo líquido efetivo ficou-se pelos 4.429 postos em nove anos – menos de 10% do compromisso assumido. Jovens licenciados foram remetidos para empregos precários ou para a emigração. 

A trajetória da TACV – rebatizada Cabo Verde Airlines – tornou-se a crónica de um fracasso anunciado: privatizações malconduzidas, reversões onerosas e o colapso definitivo da ambição do hub aéreo, a um custo avultadíssimo para os contribuintes. Num país arquipelágico, onde a mobilidade é uma condição de cidadania efetiva, os transportes marítimos interilhas continuaram a funcionar como obstáculo quotidiano – horários incertos, custos elevados, previsibilidade inexistente.

Quando os resultados não existem, o poder recorre à encenação. A distribuição de apoios sociais multiplicou-se nos meses anteriores ao ato eleitoral, num calendário que não deixa dúvidas: não se tratava de política social estruturada, mas de compra de consciências a crédito. 

A encenação de inaugurações assumiu proporções caricatas – obras por concluir foram inauguradas, projetos em fase inicial apresentados como concretizações, infraestruturas cujo anúncio remontava a anos relançadas como novidades. 

O espetáculo substituiu a substância, a fotografia substituiu a obra, o discurso substituiu o resultado. A canção de Simon & Garfunkel descreve com precisão esta lógica: a multidão que se curva e reza ao deus de néon que ela própria fabricou. O deus de néon era a narrativa do sucesso; esperava-se que os cidadãos fossem suficientemente distraídos para acreditar no brilho artificial.

A peça central desta engenharia de ilusão foi o martelamento estatístico: a manipulação metodológica de indicadores sobre a pobreza, a inflação, a dívida pública e o crescimento do PIB, moldados para servir a narrativa oficial e fabricar uma perceção artificial de sucesso.

A persistência desta narrativa, mesmo esmagada pelos factos, parece ilustrar com inquietante nitidez o efeito Dunning-Kruger: a tendência de dirigentes politicamente intoxicados pela própria propaganda para sobrestimarem a sua competência e ignorarem a complexidade da realidade. 

A proclamação de que “Cabo Verde tem dinheiro que nunca mais acaba” e a tese de que um acordo diplomático no Médio Oriente eliminaria o impacto da crise energética sobre os combustíveis revelaram não apenas imprudência política, mas uma alarmante superficialidade analítica. Numa economia frágil, dependente de importações e sem qualquer influência sobre os mercados globais, tais afirmações não resistem ao mais elementar escrutínio técnico. 

A tudo isto acresceu uma degradação institucional alarmante: a despartidarização prometida foi substituída por uma partidarização do Estado como nunca antes vista, alimentada por nomeações de conveniência política e familiar, decisões opacas e uma hostilidade crescente perante qualquer escrutínio independente.

“The Sound of Silence” termina com uma advertência: as verdades mais profundas raramente são proclamadas nos discursos do poder – revelam-se no quotidiano silencioso das pessoas comuns. Em Cabo Verde, elas estavam nos preços dos supermercados, nos barcos que não saíam, nas filas dos hospitais, nas obras prometidas que nunca chegaram ao fim e nas salas de embarque por onde partiram milhares de jovens sem regresso à vista.

No dia 17 de maio de 2026, os cabo-verdianos transformaram esse silêncio em julgamento político. Sem gritos, sem violência, sem necessidade de grandes palavras. Apenas com a lucidez acumulada de quem viveu uma década a ouvir triunfalismo enquanto a realidade se tornava mais dura.

Foi o silêncio de quem percebeu que a propaganda não enche a mesa, que estatísticas não substituem empregos, que inaugurações encenadas não concluem obras e que promessas repetidas deixam de ser esperança para se tornarem ruído.

E, como na canção de Paul Simon, o poder só percebeu tarde demais que o silêncio também fala – e que, por vezes, é nele que os povos escrevem a sua sentença mais clara.

A nova governação herda passivos financeiros de grande monta, uma dívida pública praticamente insustentável, uma década de oportunidades desperdiçadas, capital humano emigrado e instituições corroídas pela perda de confiança. Herda, acima de tudo, o dever de devolver credibilidade às instituições e verdade ao discurso público.

Praia, 18 de maio de 2025

*Doutorado em Economia

(Blog: www.economianaserra.blogspot.com)

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