O porta-voz do grupo dos antigos estudantes cabo-verdianos formados em Cuba, Paulo Varela, diz ter ficado “muito satisfeito” com a afluência à exposição de pintura promovida esta Sexta-feira, 29, na sede da Embaixada de Cuba, Cidade da Praia, no âmbito do “Programa de Solidariedade com a República de Cuba” que enfrenta, atualmente, uma grava crise socioeconómica. Esta exposição solidária de pintura, que contou com a presença do Comandante Pedro Pires, ex-Primeiro Ministro e Presidente da República de Cabo Verde, integra a venda de 15 quadros cujas receitas serão enviadas para Cuba.
Em declarações ao A Nação online, Paulo Varela, porta-voz do grupo dos antigos estudantes, garantiu que antes mesmo do início do evento, metade dos quadros já tinham sido adquiridos.
Conforme explicou, Paulo Varela, a iniciativa, integrada no “Programa de Solidariedade com Cuba”, foi criado por antigos bolseiros cabo-verdianos que estudaram naquele país nas décadas de 1970, 1980 e 1990, período em que milhares de jovens cabo-verdianos beneficiaram de formação académica e técnica no âmbito da cooperação entre Cabo Verde e Cuba.
“Não se trata de uma manifestação política, mas de um gesto de solidariedade. O objetivo é arrecadar fundos que serão canalizados, através da Embaixada de Cuba, para ajudar o país”, afirmou, Paulo Varela, sublinhando que a ação tem caráter exclusivamente social.
Ademais, Varela acrescentou que a iniciativa assume um forte significado simbólico e sentimental, por representar um gesto de gratidão e solidariedade de antigos estudantes que beneficiaram da formação e acolhimento oferecidos por Cuba ao longo de várias décadas.
Estima-se que mais de mil cabo-verdianos frequentaram o ensino superior em Cuba, sendo que 25 estão diretamente envolvidos na organização da atividade.
Além do Comandante Pedro Pires e esposa Adélcia Barreto Pires, o evento contou com casa cheia e presença de outras figuras ilustres como o Embaixador da China em Cabo Verde, Zhang Yang, o Embaixador do Brasil em Cabo Verde, Alexandre Scultori, além de antigos estudantes cabo-verdianos e cubanos residentes em Cabo Verde.
Metade das obras vendidas antes do início do evento solidário
À hora da reportagem do A Nação online, Paulo Varela, avançou que metade dos quadros já estavam vendidos e que o objectivo era vender as 15 obras, totalizando cerca de 200 mil escudos.
“O realizar deste evento e seu sucesso me faz sentir grato, grato pela importância que Cuba teve no mundo e hoje o país está a passar por diversas dificuldades e nós como antigos estudantes bolseiros em Cuba não podíamos ficar de braços cruzados. Ver que esta singela ação que nos propusemos está a ser um sucesso é gratificante”, avançou Varela.
“Sabemos que Cuba não está sozinha”
Já o Embaixador de Cuba em Cabo Verde, Turcios Esquivel López, salientou a importância e o caracter solidário da exposição e denunciou a “situação económica difícil” que atravessa Cuba devido ao “bloqueio do atual governo dos Estados Unidos da América e constantes ameaças de invasão ao país”.
“Nós queremos agradecer ao grupo de antigos estudantes cabo-verdianos por este gesto, sabemos que Cuba não está sozinha no mundo. Em várias partes do globo está-se a fazer atividades de cariz solidário para com Cuba, inclusive nos EUA e vários países europeus e africanos”, afirmou, ao que enalteceu que existe uma amizade muito grande entre Cuba e Cabo Verde.
Obras do artista plástico congolês Elsie Fortunat Mafouta
As 15 obras desta exposição solidária de pintura com Cuba são do artista plástico congolês, Elsie Fortunat Mafouta, residente em Cabo Verde (Tarrafal de Santiago) e antigo estudante em Cuba, que se mostrou muito satisfeito com a venda das obras.
Segundo conta Elsie, foi precisamente em Cuba onde conheceu e desenvolveu uma grande afinidade com outros estudantes cabo-verdianos, o que mais tarde o terá incentivado a mudar-se para Cabo Verde, onde reside actualmente.
As pinturas retratam o quotidiano no país, incluindo a convivência entre estudantes, memórias da vivência estudantil na Ilha da Juventude, atividades académicas e paisagens de diferentes províncias.
Além dos quadros a exposição contou com momentos musicais promovidos por artistas convidados.
Bloqueio económico dos Estados Unidos
Recorde-se que Cuba vem resistindo, há mais de seis décadas, a um feroz bloqueio económico imposto pelos Estados Unidos (EUA) que tem contribuído para uma cada vez maior fragilização da economia da ilha.
Nos últimos messes, devido ao bloqueio cada vez mais cerrado do actual presidente dos EUA, Donald Trump, Cuba está a ser afetado por uma recessão económica com efeitos devastadores, agravada pela escassez de combustível provocada pela interrupção do fluxo de petróleo para a ilha, nomeadamente de um dos seus principais fornecedores, a Venezuela, após a queda de Nicolás Maduro.
Como consequência, desde meados de Outubro de 2025, a população cubana enfrenta momentos de fome generalizada e uma crise energética sem precedentes que vem provocando quebras no sistema aléctrico a nível nacional e sucessivos apagões assim como a suspensão de voos para a ilha devido à falta de combustíveis para abastecer as aeronaves.
Por outro lado, Donald Trump, que já manifestou o seu desejo de assumir o controlo de Cuba através da asfixia económica, energética e alimentar, ameaçou impor tarifas alfandegárias e demais represálias aos países e empresas que efetuarem transações económicas e comerciais com a ilha caribenha, principalmente a venda do petróleo.
No entanto, vários países como a Rússia, México, Canadá e Brasil, entre outros, vêm desafiando as ameaças dos EUA, enviando para Cuba ajuda humanitária que não só incluem alimentos não perecíveis, como também medicamento e materiais hospitalares e até mesmo petróleo bruto e outros combustíveis.