Os doentes renais da ilha de São Vicente vivem dias de angústia e incerteza. A ausência da única nefrologista do Hospital Dr. Baptista de Sousa, Suzete Ramos, que se encontra fora do país por tempo indeterminado, deixa um vazio clínico que ameaça comprometer o acompanhamento vital de dezenas de pacientes em hemodiálise e em consultas ambulatórias.
A situação é paradoxal e dolorosa. O mesmo hospital que há poucas semanas celebrou os primeiros três transplantes renais com dadores vivos, marco histórico para a medicina em São Vicente, vê-se agora mergulhado numa crise de recursos humanos.
Sem especialista residente, os pacientes transplantados e os que dependem da diálise estão entregues a médicos interinos, podendo comprometer os procedimentos clínicos e a confiança da população.
A visita recente do ministro da Saúde, Lúcio Fernandes, à Unidade de Hemodiálise da referida unidade, acompanhada de assessores e do seu director de gabinete, deveria ter sido o momento de esclarecimentos.
Contudo, o contacto estabelecido pelo email e mesmo telefonicamente com o presidente do Conselho de Administração do Hospital Dr. Baptista de Sousa (HBS), Victor Costa, não trouxe respostas categóricas. As nossas solicitações, via email e telefone, foram recebidas ou respondidas com evasivas, pelos assessores do HBS deixando no ar a sensação de que a administração prefere o silêncio à transparência.
Da sua parte, o governante reconheceu durante a mencionada visita ao HBS a gravidade da situação e admitiu que a falta de especialistas é um problema estrutural, que não se prende apenas a nefrologia. Prometeu medidas para colmatar ou mesmo resolver o vazio através da mobilização de médicos e abertura de concursos para atrair novos especialistas e reforço de parcerias internacionais.
Sector sensível
No entanto, conforme entendidos do ramo, a hemodiálise não admite falhas, o transplante exige acompanhamento rigoroso, e cada dia sem nefrologista é um risco acrescido para quem depende da máquina ou do medicamento certo na hora certa. Nos corredores do HBS, a inquietação é visível. Pacientes e famílias sentem-se abandonados, enquanto o discurso oficial tenta transmitir confiança, como aconteceu com as declarações do novo ministro da Saúde, ainda fresco no cargo.
Lúcio Fernandes deixou a promessa de que o governo não ficará de braços cruzados. Mas a população quer prazos e quer medidas concretas. O tempo dirá por isso se as promessas se transformam em soluções ou se ficam, para variar, apenas como palavras lançadas ao vento.
O HBS, referência nacional, encontra-se por isso numa encruzilhada: ou recompõe rapidamente a equipa de nefrologia, ou arrisca transformar um feito histórico, os três transplantes realizados, num episódio fugaz, por isso de desilusão colectiva.
João do Rosário
Publicado na Edição 988 do Jornal A Nação, de 06 de Agosto de 2026

