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Colunistas

Para um encontro da Caboverdianidade

Por: Germano Almeida

Parece ter corrido muito bem o Encontro da Crioulidade. Sem dúvida que pode ser importante sabermos como se comportam os demais crioulos, mas também muito me parece que este seria um momento excelente para o senhor presidente da República patrocinar mais um encontro, que desta vez seria da caboverdianidade. Uma coisa mais modesta, porém, mais doméstica, nôs cu nôs caboverdianos de todas e cada uma das ilhas, mais a diáspora. Estou a pensar numa reunião de alguns dias, pelo menos uma semana, onde os que vierem representar falarão das idiossincrasias dos diferentes ilhéus que nós somos.

Penso sinceramente que a reunião que estou a propor é muito mais necessária e urgente que a realizada. Num encontro de crioulidade podemos ficar a conhecer o homem crioulo, mas apenas no geral e em abstrato. Mas numa reunião de caboverdianidade, vamos tentar conhecer o nosso homem concreto, específico, que cada uma das ilhas foi formando ao longo dos séculos; vamos tentar apreender como cada um desses ilhéus reage e se comporta diante da vida.

Vem a calhar tomarmos como caso concreto de estudo a abstenção nas últimas eleições: mais de 53% de eleitores se abstiveram de ir votar numa eleição que é de extrema importância para o país porque elege o principal órgão de soberania que é a Assembleia Nacional. 

Pode provavelmente haver diversas razões objetivas para assim ter acontecido, entre elas a não atualização dos cadernos eleitorais. Mas consideremos como hipótese que os cadernos são atuais e simplesmente os faltosos ficaram ausentes por mero desleixo.

Esse desleixo será razoável? Se alguém se lembrar de perguntar por onde andaram escondidos, durante quatro/cinco anos, esses mesmos políticos que de repente e durante 15 dias inundam as nossas ruas, as portas de cada um, as achadas e cutelos de todas as ilhas, carregados de bandeirinhas e camisolas e palavras que distribuem largamente enquanto prometem mundos e fundos caso venham a merecer a honra do voto popular, se alguém perguntar isso, então ficará claro que esse desleixo eleitoral é perfeitamente compreensível e até talvez justificado.

É uma verdade que uma boa parte dos caboverdianos já se ri dos nossos políticos e não devia ser de estranhar que sejam muitas as pessoas que preferem um passeio à praia, ou mesmo ficar em casa, em vez de se incomodarem a ir votar, sabendo que nada mais vai mudar afora as moscas. E enquanto não se aceitar e assumir que a responsabilidade por esse desleixo eleitoral deve na sua maior parte ser assacada aos políticos nacionais e à sua forma de fazer política, é natural que as abstenções continuem a aumentar.  

Vejamos o filme: alguns poucos meses antes da época da caça ao voto, e mais intensamente nos seus últimos 15 dias, os políticos e candidatos a políticos esfalfavam-se atrás dos eleitores mendigando o seu voto. Mas depois descansam quatro/cinco anos, gozando os rendimentos obtidos à custa das canseiras, dos suores e até de algumas humilhações a que se sujeitam a troco de um voto, e esquecem as promessas que vão deixando pelo caminho. 

Parece que este seria um momento excelente para o senhor presidente da República patrocinar mais um encontro, que desta vez seria da caboverdianidade. (…) Numa reunião de caboverdianidade, vamos tentar conhecer o nosso homem concreto, específico, que cada uma das ilhas foi formando ao longo dos séculos; vamos tentar apreender como cada um desses ilhéus reage e se comporta diante da vida. (…) Vem a calhar tomarmos como caso concreto de estudo a abstenção nas últimas eleições: mais de 53% de eleitores se abstiveram de ir votar numa eleição que é de extrema importância para o país porque elege o principal órgão de soberania que é a Assembleia Nacional.

Ouvi alguns comentários estranhando a derrota do MpD nestas eleições, as pessoas estavam convencidas que as ganharia com relativa facilidade. Ora eu pessoalmente estive sempre convencido que seria o contrário, que esse partido iria perder, sofrendo mesmo uma derrota pesada. 

E essa derrota não seria por causa das promessas não cumpridas, toda a gente sabe que as promessas de campanha não são para serem levadas a sério. Aliás, do mesmo modo que as acusações que se fazem aos adversários. 

Lembro-me de certa vez ouvir um ex-dirigente do MpD na televisão a acusar expressamente os do PAICV de serem os responsáveis pelo vandalismo que tinha sido a quebra das imagens de muitos santos nas igrejas de Santiago. Foi uma acusação pública grave, sobretudo porque vinda de um indivíduo por quem a sociedade em geral tem respeito e em cuja integridade eu confiava. 

Ora ouvindo essa acusação da sua boca, admiti que deveriam ter provas suficientes, de contrário, ele, sobretudo ele, nunca faria essa grave afirmação, sabendo-a falsa. Bem, o PAICV negou, estrebuchou, disse que ia para o tribunal, etc. Passou!  Porém, tempos depois, esse mesmo ex-dirigente foi questionado numa entrevista sobre a sua anterior afirmação. Não, respondeu singelamente, era falso, não há nenhuma prova, disse aquilo apenas para fazer calar os do PAICV, na altura estavam a falar demais. 

 São, pois, políticos dessa laia que têm vindo a fazer com que a gente tenha deixado de acreditar na sua seriedade. Temos que reconhecer que o desígnio coletivo nascido com a independência e intensamente vivido durante os seus primeiros anos, a pouco e pouco foi ficando pelo caminho, substituído ou mesmo perdido no meio dos interesses de cada um a puxar a brasa para o seu chicharro.

No geral os da política acreditam que as pessoas não reparam no que fazem ou deixam de fazer, mas a verdade é que a nossa gente é atenta até ao pormenor. Antigamente informavam-se via rádio; no presente são as muitas rádios e também a televisão. E o comportamento geral que os políticos mostram não é de molde a fazê-los sentirem-se na obrigação de irem votar, porque acabaram por ter a consciência de que votar no partido A ou no B significa exatamente o mesmo, porque a ideia que dão é que estão mancomunados no seu próprio interesse e que esse interesse nada tem a ver com o interesse geral.

Portanto, a responsabilidade maior por esse divórcio que leva à cada vez maior abstenção nas eleições, pertence aos políticos. E não se pense que é pelo incumprimento das promessas de campanha, toda a gente sabe que promessa de campanha é conversa de boca para fora. Por exemplo, alguém alguma vez acreditou no ministro das Finanças que abriu a boca e despejou 11 boings para os nossos ouvidos? Certamente que ninguém! Nem nos cinco navios garantidos! E quem acreditou nos 45 mil postos de trabalho prometidos pelo primeiro-ministro? 

Perderam porque havia coisas mínimas que vinham sendo feitas e que o Governo tinha obrigação de continuar fazendo, mas simplesmente ignorou. Por exemplo, nunca as ilhas estiveram tão à míngua de transporte entre elas, aéreos e marítimos, como depois que o Governo decidiu entregar a estrangeiros a tarefa de nos transportar. E foi em vão que o povo das ilhas protestou contra essa afronta que durou e ainda dura.

Ora se a isso juntarmos a incapacidade que os nossos políticos vêm demostrando na eleição dos órgãos externos da Assembleia ou na nomeação de um procurador-geral, ou um tribunal constitucional, tribunal de contas, comissão nacional de eleições; se juntarmos a isso a evidente falta de transparência no tratamento de diferentes assuntos do Estado, como por exemplo, as inúmeras auditorias que se fizeram mas cujos resultados foram escondidos quando ficaram em causa sócios do partido, as acusações sem resposta acerca de venda de bens do Estado, se a isso tudo juntarmos a elevada contribuição da nossa Justiça para o descrédito da democracia nacional – veremos como a abstenção não causa estranheza e como é urgente um encontro da caboverdianidade, se não queremos vê-la aumentando a cada eleição.

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