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Saúde

Cinco anos depois, persistem dúvidas sobre a vacina da Covid-19

Cinco anos depois, a vacinação contra a Covid-19 continua a suscitar dúvidas entre alguns cabo-verdianos. À semelhança do que se passa em vários lugares do mundo, enquanto certas pessoas associam determinadas mudanças na sua saúde ao período pós-vacinação, uma especialista ouvida pelo A NAÇÃO defende que não existe uma relação causal comprovada entre a vacina e os problemas como perda de memória, agravamento geral da saúde ou aumento de mortes súbitas.

Apesar de ter passado cinco anos desde o início da vacinação contra a Covid-19 em Cabo Verde, a vacina continua a ser um tema sensível e, para muitos, os efeitos reais ou percebidos continuam presentes no dia a dia. Um fenómeno que acontece em várias outras partes do mundo, sobretudo entre os “anti-vacinas”.

Ao longo desta reportagem, várias pessoas relataram falhas de memória, maior frequência de doenças e um sentimento persistente de insegurança, mudanças estas que associam ao período pós-vacinação.

“Depois de tomar a vacina comecei a esquecer-me mais facilmente. Coisas simples, como recados ou tarefas do dia a dia, às vezes escapam-me”, contou Anabela Gomes ao A NAÇÃO.

Na mesma situação encontra-se Manuel Ribeiro que, apesar da idade, afirma que sempre teve uma boa memória, mas que, após tomar a vacina contra a Covid-19, começou a esquecer-se até de datas importantes.

Há também quem fale de uma maior fragilidade física, sobretudo no que diz respeito a doenças comuns. É o caso de Fátima Cardoso: “Agora fico doente com mais frequência, sobretudo com gripe, e custa mais a recuperar”.

Para os nossos entrevistados, estas alterações vieram acompanhadas de dúvidas e inquietações. “Fico a pensar se tem alguma ligação, porque foi depois da vacina que comecei a notar estas coisas”, disse-nos um dos nossos entrevistados.

Os mesmos revelaram ainda sentir receio com várias notícias sobre morte súbita principalmente dos jovens.

Entre perceções e evidência científica

Embora este tipo de relatos seja frequente, a comunidade científica assegura que, até ao momento, não existe evidência científica robusta que estabeleça uma relação causal entre as vacinas contra a Covid-19 e alterações persistentes de memória, declínio geral de saúde ou aumento de morte súbita na população.

A médica infeciologista Miriam Lima explica que os estudos de farmacovigilância e as grandes análises populacionais realizadas em vários países demonstram que as vacinas são globalmente seguras.   

“A comunidade médica leva essas perceções a sério, mas analisa-as com base em dados científicos. É importante distinguir entre associação temporal (algo que acontece depois da vacina) e causalidade (algo causado pela vacina)”.

A médica acrescentou ainda que, tendo em conta o elevado número de pessoas vacinadas num curto espaço de tempo, é natural que algumas desenvolvam problemas de saúde após a vacinação sem que exista necessariamente uma relação directa.

Efeitos adversos identificados

Miriam Lima reconhece que foram identificados alguns efeitos adversos associados às vacinas contra a Covid-19, mas sublinha que se tratam de situações raras.

“Alguns efeitos adversos raros foram identificados, como miocardite e pericardite, sobretudo em homens jovens, geralmente com evolução benigna; trombose associada a certas vacinas de vetor viral; e reações alérgicas graves, muito raras”, afirma.

A especialista destaca que estes casos foram rapidamente identificados graças aos mecanismos de vigilância existentes.

“Cabe salientar que esses efeitos foram rapidamente reconhecidos graças aos sistemas de vigilância e são considerados eventos pouco frequentes face aos benefícios da vacinação”, garante.

Sintomas com múltiplas explicações

Relativamente aos sintomas mais frequentemente mencionados pela população, como fadiga, esquecimentos ou uma maior frequência de doenças, a médica alerta para a existência de várias outras explicações possíveis.

“Esses sintomas são inespecíficos e podem estar relacionados com múltiplos fatores, como estresse e impacto psicológico da pandemia, envelhecimento natural, distúrbios do sono, ansiedade ou depressão e outras condições médicas não diagnosticadas”, explicou.

Para Miriam Lima, muitos dos sinais actualmente atribuídos à vacinação podem estar associados a factores que se desenvolveram durante ou após a pandemia, um período marcado por profundas alterações na vida das pessoas.

Quanto à morte súbita, a especialista esclarece que se trata de um fenómeno já conhecido antes da pandemia e que continua a ocorrer por causas conhecidas, principalmente cardiovasculares.

Vigilância continua activa

Apesar de já terem passado cinco anos desde o início da vacinação, os mecanismos de monitorização da segurança das vacinas continuam em funcionamento.

A médica explica que os sistemas de farmacovigilância funcionam através da notificação de efeitos adversos por profissionais de saúde e cidadãos, da análise de grandes bases de dados populacionais, de estudos contínuos de segurança e eficácia e da monitorização por entidades como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e as agências de medicamentos.

“Esses sistemas permitem identificar rapidamente qualquer sinal de risco e ajustar recomendações quando necessário”, afirmou.

Entre perceções individuais e conclusões científicas, permanece um debate que reflete não apenas os impactos da vacinação, mas também as marcas deixadas pela pandemia na vida e na saúde dos cabo-verdianos.

Cleidiane Tavares (estagiária)

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